A visita educativa pelo museu de arte brasileira da FAAP é mais que apreciar seu excelente acervo: pode ser vesti-lo, desenhá-lo, resolvê-lo como um quebra-cabeças... É um mergulho profundo nas obras em exposição que amplia a conexão do público, transformando o passeio numa verdadeira – e artística – aventura

São dezenas de crianças descendo as ruas do bairro de Higienópolis naquela fila organizada que meninos e meninas de 4 a 5 anos conseguem fazer. Guiadas por suas professoras, deixam as dependências da Escola Municipal de Educação Infantil Monteiro Lobato, no coração da praça Buenos Aires, em direção ao Museu de Arte Brasileira, no prédio principal da FAAP. É uma cena que se repete ao longo do ano nas ruas do bairro e, para muitas das crianças, é a primeira vez em que irão entrar em um museu. A iniciação delas no mundo das artes, como de tantas outras que passam pelos salões do MAB, é promovida pelo Setor Educativo do museu. “O objetivo é desenvolver esse hábito. É primeiro tirar esse estigma de que museu é uma coisa chata, empoeirada, com uma parede branca e um quadro pendurado”, explica Fernanda Celidonio, diretora administrativa do MAB. “Os visitantes vêm, fazem atividades relacionadas às exposições e enxergam a arte de outra maneira. A gente trabalha isso na criança desde cedo e é o que ela vai levar pra vida.”

Contação de história: Em busca da tela perdida, durante a mostra Raimundo Cela, com crianças da escola EMEI Heitor Villa Lobos, em 2016

Os visitantes podem ser convidados a criar uma escultura para vestir, como na exposição Agatha vs. Agatha, da estilista espanhola Agatha Ruiz de La Prada; ou experimentar montar sua própria curadoria de uma exposição e aprender mais sobre a atividade, como na mostra Retratos da brasilidade; ou aprender como se faz um vitral e criar o seu próprio com cartolina, papel-celofane, tesoura e cola, oficina realizada em Século XX: acervo do MAB-FAAP. Essas atividades acontecem normalmente ao fim de uma visita educativa pelos arte-educadores do museu.

Os visitantes vêm, fazem atividades relacionadas às exposições e enxergam a arte de outra maneira. A gente trabalha isso na criança desde cedo e é o que ela vai levar pra vida – Fernanda Celidono, diretora administrativa do MAB

Atividade com bonecos, na exposição Moda no Brasil, em 2012

Visita educativa à exposição Raimundo Cela, com jovens da escola pública E.E. Profa Zuleika de Barros Martins Ferreira

Visita educativa do Centro Educacional Nossa Senhora das Graças, em 2015, à exposição Século XX – acervo do MAB-FAAP

O professor que leva a sua turma planeja com o Setor Educativo o que destacar em cada exposição. A arte-educadora Solange Boudoux, que é professora na Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Garcia D’ávila, frequenta o MAB há mais de 15 anos: “Nem saberia dizer em quantas exposições já levei os alunos”. Ela aposta nas visitas como uma oportunidade para criar o hábito de frequentar museus nos jovens estudantes. “Os alunos amam visitar o MAB. Por isso, sou extremamente grata à FAAP em nome de todos eles e da nossa escola”, conta. “Já fui às lágrimas várias vezes. Ontem mesmo, vi uma foto de uma ex-aluna – que pisou num museu pela primeira vez na FAAP – na frente do museu do Louvre, em Paris. Me emocionei.”

ARTE DE ENSINAR
Visitas como as descritas acima são apenas uma das facetas do atendimento ao público prestado pelo Setor Educativo do MAB. Este departamento organiza, desde 1999, recepções para grupos de escolas públicas ou particulares, para alunos de todos os cursos da Fundação, para excursões de turismo e também para os frequentadores espontâneos do museu – mesmo sem visita agendada, sempre tem um educador pronto a atender quem chega. A Fundação vai além e ainda coloca um ônibus à disposição das escolas públicas que não têm essa estrutura de transporte. Todo grupo recebe  atenção especial da equipe: a cada escola, por exemplo, é pedido que envie um formulário sobre a turma e os alunos. “Nossa equipe faz reuniões para pensar a melhor estratégia para o atendimento”, explica Tatiana Bo, coordenadora do Setor Educativo do MAB. “Existe uma idealização para a exposição e ações planejadas para cada grupo. Nós pedimos que ao menos um professor venha conversar antes para prepararmos a visita e saber como vão trabalhar com os alunos depois.”

Visita educativa do Centro Educacional Nossa Senhora das Graças, em 2015, à exposição Século XX – acervo do MAB-FAAP

Atividade “touro de fita”, durante a exposição Tauromaquia, em 2014

Essa interação é ainda mais afinada dentro da própria FAAP. Sempre que começa uma nova mostra, por exemplo, Marinez Rafaldini, orientadora educacional do Colégio FAAP, vai com alguns professores entender a curadoria e conversar com os arte-educadores. “Na exposição Eterna trilogia, pedimos enfoque em retratos ligados à Semana de Arte Moderna porque eles estavam estudando o modernismo”, explica Marinez. “Para os do 2o ano, pedimos enfoque no romantismo, a matéria que eles estavam estudando em Literatura. Então, a professora de artes trabalha em cima desses quadros. São várias propostas de acordo com cada exposição.”

Visita “pincelada”, da mostra Século XX – acervo do MAB-FAAP, em 2015

Dessa forma, para os alunos da Fundação, seja do Colégio FAAP, ou dos cursos da graduação e da pós, o MAB se torna uma extensão da sala de aula. Os alunos e professores dos cursos de artes e comunicação são os que mais costumam visitar o espaço e organizar aulas no local. “Imagina como é maravilhoso poder estudar numa faculdade onde há um museu e um acervo com os quais você pode ter esse contato frequente”, reflete Tatiana Bo. Para Larissa Guida, 26, aluna do 4o ano do curso de Artes Visuais, a proximidade com o museu revelou sua vocação depois que foi selecionada para a vaga de arte-educadora. “É uma troca constante com o público”, afirma. “A minha relação pessoal com a arte ficou cada vez mais clara porque, querendo ou não, você cria diálogos que reverberam em reflexão interna – o que me ajudou a entender o que me atrai pessoalmente na arte. Isso foi muito rico.” A equipe de educadores é rotativa e muda conforme a exposição em cartaz. Cabe a eles, juntamente com a equipe de coordenação do Setor Educativo, a realização e o desenvolvimento das atividades de cada exposição, das visitas educativas e também orientar os frequentadores.

Imagina como é maravilhoso poder estudar numa faculdade onde há um museu e um acervo com os quais você pode ter esse contato frequente – Tatiana Bo, coordenadora do setor educativo do MAB

LINGUAGEM UNIVERSAL
Alunos do núcleo de idiomas da FAAP também são visitantes frequentes. Os professores aproveitam o espaço para discutir os assuntos  de sala de aula e tópicos relacionados a vocabulário, como cores, formas, texturas. É uma oportunidade para apresentar os artistas brasileiros ao olhar do estrangeiro. “Sem a visita educativa, os alunos não vão entender o universo brasileiro para compreender o que foi criado aqui”, diz Fernanda Celidonio. “Eles saem com outra compreensão da arte brasileira.” A professora de português do núcleo, Jaqueline Garcia, está sempre de olho no que entra em cartaz no MAB para fazer conexões com os assuntos de sala de aula. Ela destaca a oportunidade de conversar em português com os arte-educadores durante toda a visita e a possibilidade de conhecer mais um pouco do Brasil através da cultura do país. “Às vezes, os alunos estrangeiros têm uma leitura diferente da nossa”, avalia Jaqueline. “Eles querem saber como o brasileiro pensa aquela obra. O educativo do MAB faz uma recepção especial para um grupo de estrangeiros – eles se sentem acolhidos e a visita é sempre muito proveitosa.”