Mergulhador, cinegrafista submarino e documentarista de natureza mais reconhecido do país - e do mundo -, Lawrence Wahba comemora 25 anos de carreira fazendo o que mais gosta

Aos 24 anos, Lawrence Wahba tinha a vida que muitos queriam. Morava em um escuna em Paraty (RJ) e trabalhava como instrutor e cinegrafista de mergulho. Passava os dias dentro d’água, proporcionando aos turistas a experiência de conhecer o fundo do mar. Certo dia, o dono da escuna e seu amigo decidiu colocar um sonho em prática: desvendar as profundezas do oceano Atlântico. Lawrence e mais sete tripulantes partiram em uma expedição de três meses e meio de Santos, no litoral sul paulista, até as Ilhas Canárias, na costa africana. A ideia era estudar e documentar locais de mergulho inexplorados. “Filmamos lugares que nunca tinham sido registrados, como o arquipélago São Pedro e São Paulo”, relembra ele, sobre o conjunto de ilhas distante 600 quilômetros de Fernando de Noronha. “A partir dessa expedição, a Marinha montou uma base de pesquisa no local.”

A viagem marcou o início da carreira de Lawrence como cinegrafista submarino e documentarista de natureza. As imagens captadas resultaram no documentário Segredos submersos do Atlântico, na época exibido na TV Bandeirantes. “Foi meu primeiro documentário como diretor”, conta ele, que comemora 25 anos de carreira este ano. E os números impressionam: Lawrence realizou mais de 4.500 mergulhos ao redor do planeta, dirigiu mais de 600 matérias para a televisão e quase cem episódios para séries documentais – suas produções foram exibidas em mais de 160 países, em canais como National Geographic, Discovery Channel, NatGeo Wild, Animal Planet, Globo, Record. Em 2013, ganhou um Emmy pela direção de fotografia na série Untamed Americas (2012).

Lawrence se tornou referência em imagem subaquática quando ainda cursava Cinema na FAAP. “Desde sempre quis fazer documentários de natureza, a opção era o mais próximo do que seria um curso superior na área. Aproveitei muito o acervo da filmoteca”, conta. Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing, relembra o Lawrence aluno: “Desde o início, ele apresentava alguns diferenciais. Nosso projeto acadêmico sempre promoveu a realização dos trabalhos em película. Ele, mais próximo das ‘novas tecnologias’, preferia produzir seus projetos em vídeo, mesmo considerando que a qualidade imagética era menor. Para Lawrence, que já despontava como um documentarista, o conteúdo ‘fala’ mais alto”, diz o professor e crítico de fotografia. “Antes dele, não temos referência de um cinema documental brasileiro focado nos temas que desenvolveu. Seu cinema provoca fortes emoções e documenta situações limítrofes de enfrentamento entre o homem e natureza.”

Lawrence fotografa com urso preto ao fundo, na Ilha de Vancouver, no Canadá, em 2014

QUERO SER JACQUES COUSTEAU

Dos seus 48 anos de vida, Lawrence passou, no total, 11 anos e meio rodando o mundo – e de cilindro nas costas. É aficionado pelo mar desde a primeira vez que assistiu a um programa do Jacques Cousteau, documentarista e oceanógrafo francês mundialmente conhecido por ser pioneiro em registrar a vida submarina a bordo do navio Calypso. “Aos 5 anos, eu já era vidrado nos filmes dele. Eu queria ser o Jacques Cousteau”, diz o cinegrafista, que podia dizer nome e sobrenome dos integrantes da equipe. “Eu sabia a escalação da equipe Cousteau, assim como sabia de cor a escalação do Santos, meu time do coração.”

Conquistei um networking muito forte na FAAP. Durante a faculdade você acaba não percebendo, mas cria uma rede enorme de contatos. Passados 20 anos, trabalho com gente que convivi lá

Lawrence cresceu viajando para Búzios (RJ) nas férias de verão, onde seus pais alugavam uma das três casas de pescador na deserta Praia das Tartarugas. Natural de São Paulo, e filho de uma psicóloga e um executivo que gostavam de natureza, dois meses por ano a família trocava a rotina urbana pela vida outdoor. “Tive uma infância de pé descalço, eu era solto. A casa ficava no meio do mato, não tinha eletricidade, era luz de lampião. Lembro de um dia ver um tamanduá parir um filhote na porta de casa”, conta ele, que tinha a companhia dos filhos dos caiçaras para brincar e se aventurar na trilha até a Praia da Armação. “Passei muitas noites em barco de pescador, ouvindo histórias de tubarão.” Um de seus hábitos era ir à praia ao nascer do sol para acompanhar os pescadores em ação. Numa dessas manhãs, aos 10 anos, viu um tubarão martelo pela primeira vez, enrolado na rede de pesca. O bicho estava morto, mas aquela cena ficou na sua memória.

Lawrence na sede da produtora Canal Azul Filmes, em São Paulo, em ensaio para a Revista FAAP

Antes disso, já tinha aprendido a mergulhar com seu pai e com seu tio, fotógrafo e diretor de vídeo que ensinou a ele tudo sobre fotografia e filmagem. Na mesma época, ganhou uma câmera Minolta e fez seus primeiros registros do fundo do mar. Aos 15 anos, fez um curso de mergulho autônomo, numa época em que a prática era pouco divulgada no Brasil. Aos 17, com a carteirinha profissional em mãos, dava aulas para crianças. Aos 18, em Fernando de Noronha, época em que precisava optar por uma faculdade, topou com um tubarão na água e saiu com a certeza de que seu futuro estaria ligado ao mar. Aos 19, saiu para uma viagem de volta ao mundo: trabalhou como salva-vidas em barcos de turismo no Egito, morou em um camping no deserto e foi guia de mergulho em Cozumel, no México. “Um dia, o cara que fazia as filmagens ficou doente e passou a câmera para mim.” Na volta, importou uma câmera subaquática, que viria a ser a única no Brasil, e passou a produzir imagens para todos os canais: programas para a TV Cultura, novelas para a Globo, reportagens para o Fantástico.

Embora tenha conquistado reconhecimento na área ainda cedo, Lawrence precisou fazer outros usos de seu equipamento. “Minha glamourosa câmera saía da caixa-estanque para filmar casamento e baile de debutante. Eu queria filmar bicho e mergulho, mas tinha que pagar as contas”, conta ele, que teve como sócio
Mauro Martins, amigo de faculdade e diretor de fotografia. “Ele sempre foi um cara engraçado, bem-humorado e nunca mediu esforços para chegar aonde chegou”, descreve Martins.

Também contemporâneo de Lawrence e hoje coordenador do curso de Cinema, Humberto Neiva lembra do ex-colega como um apaixonado por aventuras. “Às vezes, ele sumia das aulas e descobríamos que estava fazendo imagens em algum lugar exótico. Ele uniu a paixão pelo cinema com o espírito aventureiro de um desbravador”, conta. “A coragem e a determinação do Law são admiráveis, pois as imagens que capta são deslumbrantes”, elogia Humberto, que coordena a programação do Espaço Itaú de Cinema, onde Lawrence viu seu longa-metragem documental de estreia, Todas as manhãs do mundo, ser exibido por dois meses no semestre passado. “Conquistei um networking muito forte na FAAP. Durante a faculdade você acaba não percebendo, mas cria uma rede enorme de contatos. Passados 20 anos, trabalho com gente que convivi lá, como o Humberto, a Tatiana Lohman, codiretora e montadora do meu longa, e o Mauricio Dias, dono da Grifa Filmes, produtora para a qual produzo muitos trabalhos.”

Antes dele, não temos referência de um cinema documental brasileiro focado nos temas que desenvolveu. Seu cinema provoca fortes emoções e documenta situações limítrofes de enfrentamento entre o homem e a natureza – Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing

Filmando leões em South Luangwa, na Zâmbia, em 2013 (Foto: Marcos Vilas Boas)

Outro parceiro antigo é o oceanógrafo e fotógrafo de natureza Marcelo Skaf, profissional com quem mergulhou mais vezes. “Na água, o Lawrence se transforma, se doa e é sempre o último a voltar ao barco. Perfeccionista, vai atrás da melhor imagem, por isso se tornou um dos melhores cinegrafistas submarinos do mundo”, pontua Marcelo. Ele relembra o projeto Planeta oceano, produzido no final dos anos 1990 para o canal GNT. “Em Galápagos, filmando tubarões-martelo, uma corrente marinha nos pegou e levou para um local distante de onde o barco nos esperava. Resultado: ficamos à deriva por horas, literalmente lutando contra tubarões, até sermos resgatados
no final do dia. Foi tenso, mas memorável.”

TEMPO DA NATUREZA

Nesses 25 anos de carreira, nem sempre as expedições de Lawrence Wahba foram tomadas só pela adrenalina. Filmar a natureza requer momentos de espera. Como na vez que foi registrar uma desova de tartarugas-daamazônia para o longa Todas as manhãs do mundo e a chuva e a areia molhada impediram tal acontecimento. “Ficaríamos quatro dias, ficamos 14. O lugar era remoto, cheio de jacarés no rio, uma equipe de 12 pessoas e com um banheiro minúsculo. Cada tartaruga dessas vale R$ 800 no mercado negro, então tinha até polícia”, relembra.

Lawrence já esteve 19 vezes na África e, recentemente, passou uma semana fotografando no Alasca. Seu lugar preferido no mundo, porém, é o Pantanal, onde perdeu as contas de quantas vezes esteve desde 1987. “Sou apaixonado pelo Pantanal, tenho um pedaço da minha alma lá. Depois que descobri o lugar onde as onças ficam, vou, no mínimo, duas vezes por ano, conta ele, que costuma levar os filhos, Lorenzo, 13, e Luca, 10, nas férias.

E o que a natureza mais lhe ensinou? “Mais do que tudo, ensina que você é insignificante, te dá uma lição de humildade. Pelo tamanho e pela força que tem, você vê que, às vezes, um problema não é um problema. Damos importância demais para a gente.”