O artista plástico cearense José Leonilson teve uma carreira curta e brilhante, interrompida precocemente. Ele, que estudou na FAAP, inspirou muita gente com sua ousadia e identidade

A obra do artista plástico Leonilson é uma janela para sua intimidade. Nascido no Ceará em 1957, e batizado José Leonilson Bezerra Dias, o artista – ex-aluno da FAAP – colocava muito de si e da sua vida na sua produção, quase como um diário em forma de desenhos, pinturas ou bordados. “Seu trabalho é fruto de sua relação sensível com o mundo e com situações vividas”, explica Maria Izabel Branco Ribeiro, diretora do Museu de Arte Brasileira da FAAP. “Seu repertório reúne aspectos das artes visuais, da cultura popular e do cotidiano, filtrado por várias referências autobiográficas, que elaborava de modo a ter alcance universal e de grande impacto.”

Anotações do artista em seu caderno durante curso da FAAP

Ele se mudou para São Paulo aos 4 anos e foi morar no bairro da Vila Mariana – onde sua família vive até hoje. Desde pequeno, Leó, como era chamado pelos familiares, já dava indícios de que tinha uma paixão por arte e cultura. “Se mamãe quisesse que ele ficasse quieto, era só dar papel e lápis em suas mãos”, lembra Ana Lenice, cinco anos mais velha que o irmão, e uma das mais próximas a ele. “Leó não gostava de gibi, mas adorava a enciclopédia Barsa. Aquela parte da anatomia humana, que tinha umas lâminas, e os atlas. Ficava o tempo todo mexendo nos mapas”, conta a irmã. Os pais de Leonilson eram de Manaus e muito religiosos. Mudaram-se primeiro para Fortaleza e depois para São Paulo para dar uma melhor educação aos cinco filhos. Seu pai, Theodorino Dias, tinha planos para o futuro de Leonilson: queria que ele fosse trabalhar nos negócios da família em Porto Velho – lojas de tecidos e brinquedos –, assim que ele terminasse os estudos. Seu Theodorino nunca imaginou que o filho iria se tornar um artista – tampouco o podou nesse caminho. Sua única exigência foi que ele cursasse uma faculdade. “Quando Leó morreu [aos 36 anos, em 1993], muitas pessoas foram ao enterro, tinha muita gente da televisão. Lembro do papai falando: ‘Nunca pensei que meu filho fosse tão famoso’.”

 

Seu trabalho é fruto de sua relação sensível com o mundo e com situações vividas – Maria Izabel Branco Ribeiro, diretora do MAB

 

A obra São Paulo não é nenhuma Brastemp, de 1992

Pintura Jogos perigosos, de 1990

Boa parte de sua  formação foi na FAAP, onde ele cursou Artes Plásticas de 1977 a 1980. “Conheci ele no primeiro dia de aula na faculdade”, lembra o artista plástico Luiz Zerbini. “O professor perguntou: ‘Quem conhece o Paul Klee?’. Só eu e ele levantamos a mão. A gente ficou amigo, saíamos direto, dividimos ateliê por um tempão.” Na FAAP, Leonilson teve contato com seus contemporâneos e com nomes de peso no circuito das artes plásticas – ele teve aula com Julio Plaza e Nelson Leirner, artistas que trabalhavam em muitas mídias e já eram bem reconhecidos. “Ele não era muito interessado nas aulas, mas estava sempre ligado às artes. Era um aluno com ideias próprias, com uma certa rebeldia”, recorda Leirner.

Em 1983, Leonilson aos 26 anos

Zerbini foi muito próximo a Leonilson durante a faculdade e acompanhou de perto o desenvolvimento do talento do amigo. “Eu tinha muita admiração pelo seu trabalho. Ficava chapado, ‘pô, como o cara faz isso?’. Seu desenho era muito inovador, despertava interesse – enquanto ninguém ligava para o meu trabalho”, diz. “De uns dez anos pra cá é que consegui achar um caminho como o que ele encontrou lá na época da FAAP. Nos anos 80, ele já tinha um trabalho muito forte, muito claro.”

“O momento em que ele esteve na FAAP foi uma espécie de definição de um vocabulário próprio” Marcos Moraes, coordenador do curso  de Artes Visuais

Nessa época, suas pinturas traziam formas orgânicas em suportes como tela ou lona. “Esse início do trabalho dele com a pintura, que coincide com o momento em que ele esteve na FAAP, foi uma descoberta, uma espécie de definição de um vocabulário próprio”, analisa Marcos Moraes, coordenador do curso de Artes Visuais da Fundação. “Muitos dos elementos que surgiram no decorrer da carreira dele de uma forma muito sintética e forte já estavam presentes nesse momento inicial da pintura. Mas eles ressurgiram com uma intensidade muito maior.”

 

Obra Puros e duros, de bordado e pedras semipreciosas, de 1991

Com os anos, Leonilson começou a incorporar palavras escritas nas pinturas e, a partir de 1989, passou a usar a costura em seu trabalho. A técnica lhe era familiar. A mãe, dona Carmen Dias –  hoje viúva, com 88 anos –, bordava muito bem.  “Quando Leó mostrava o bordado que tinha feito, minha mãe respondia: ‘Você não tem vergonha de bordar desse jeito? Um monte de garrancho. Se eu fosse você, desfazia e bordava tudo de novo’” [risos], relembra Ana Lenice. “Mas o Leó dizia que aquele era o seu jeito de bordar e que era assim que ele gostava. Minha mãe era a única pessoa que podia criticar as coisas dele e ele aceitava numa boa.”

TALENTO CONSAGRADO

Aos 23 anos, em 1980, Leonilson participou de sua primeira exposição coletiva, Desenho jovem, no Museu de Arte Contemporânea da USP. No mesmo ano, também esteve na importante exibição Panorama da arte atual brasileira/Desenho e gravura, do Museu de Arte Moderna de São Paulo. No ano seguinte, viajou para Madri, onde fez uma individual na Galeria Casa do Brasil. A partir daí, fez exposições por países como Alemanha, Itália, França, Holanda, Suécia, Argentina e Venezuela – e importantes mostras nas Bienais de São Paulo e de Paris, em 1985. Na Europa, conheceu Antonio Dias, artista plástico paraibano que desenvolveu uma grande carreira no exterior. Antonio é tido como uma influência importante na visualidade da obra de Leonilson e também por lhe apresentar a cena da arte contemporânea europeia da época. “Ele era muito antenado, sabia muito do que estava acontecendo fora”, conta a amiga e galerista Luciana Brito. “Leonilson era um cara que tinha uma visão global e, ao mesmo tempo, fazia um trabalho bem intimista, bem autobiográfico. Os primeiros trabalhos que comprei na vida foram dois desenhos do Leonilson.”

Todos os rios, pintura de 1998

Uma das amigas mais presentes em sua vida foi a artista plástica Leda Catunda, que também se formou na FAAP. Os dois se conheceram em 1983, depois que Leonilson visitou uma exposição com obras da colega no MAC (Museu de Arte Contemporânea). Ela acompanhou de perto o sucesso do amigo, que teve seu trabalho bastante reconhecido em vida. “Ele tinha seguidores jovens que copiavam o estilo dele desesperadamente”, afirma Leda. “Depois de formada, fui ser júri de salão de arte e a gente via um milhão de ‘Leonilsons’, como ainda se vê hoje. Só que hoje os influenciados se inspiram mais no aspecto confessional dos últimos bordados, dos últimos desenhos, de 90 a 92.” Essa é a fase mais conhecida da carreira de Leonilson – marcada por obras como Favourite game, Se você sonha com nuvens e O perigoso – e que se interpõe com o final da vida do artista. Em 1991, ele descobriu que havia contraído o vírus HIV, numa época em que o positivo no exame correspondia a uma sentença de morte. “Ele ficou irreversivelmente depressivo quando pegou o resultado”, lembra Leda. “Assustado, achou que ia morrer naquela semana.”

 

Voilà mon coeur, bordado, cristais e feltro sobre lona, de 1989

A descoberta da doença foi um choque também para sua família. “Nenhum de nós sabia que o Leonilson era homossexual. Acho que a gente, de certa forma, suspeitava, respeitava, mas ficava aquela coisa do não dito”, reflete Ana Lenice. “Leó tinha uma simbiose muito grande com minha mãe. Pensava que, se contasse que era homossexual, ela iria sofrer muito. Quando a gente descobriu a doença dele, aí o peso caiu com tudo: de ele ser homossexual e a gente não ter podido ajudar mais, e até orientar.” Ana Lenice e Tilda, as irmãs mais velhas de Leonilson, tinham uma ligação quase maternal com o irmão mais novo – o quarto dos cinco filhos da família. Foi para Ana Lenice que ele ligou, às duas da manhã, no dia em que soube do resultado do exame, e foi na casa de Tilda, em Alphaville, que ele ficou hospedado nos últimos momentos da doença.

“Leonilson era um cara que tinha uma visão global e, ao mesmo tempo, fazia um trabalho bem intimista, bem autobiográfico” Luciana Brito, galerista

Leda Catunda e seu então marido, o artista plástico formado na FAAP Sergio Romagnolo, também tiveram um papel importante no final da vida de Leonilson. Foram eles que montaram a última obra do artista, a famosa instalação na Capela do Morumbi (veja foto na pág. ao lado), em 1993, ano de sua morte, – feita com roupas, inclusive camisas do artista, como uma forma de mostrar sua frágil situação: tecidos leves, gastos e transparentes, apontando a desmaterialização. “Ele não foi, não montou e não viu. Nos deu um mapa e uma explicação”, conta Leda. “Foi comovente, um pouco doloroso, mas, ao mesmo tempo, a gente se sentia útil. Quando deixamos as duas cadeiras no fundo, os dois vestidos de um lado e uma outra coisa do outro, o trabalho deu um clique. Muito impressionante.”

DE PERTO
CASA ABERTA A VISITAÇÃO ABRIGA OBRAS E OBJETOS PESSOAIS DO ARTISTA

Apesar da curta carreira, Leonilson deixou uma obra com quase 4 mil trabalhos no seu ateliê. A família herdou o material e, junto com amigos do artista, criaram a Sociedade Amigos do Projeto Leonilson. A gestão fica por conta de Ana Lenice, a irmã dele. O objetivo é fazer um catálogo documentando toda a produção do artista. Eles conseguiram patrocínio da Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza (CE), e o lançamento do catálogo está previsto para outubro de 2016. O projeto abriga a obra dele numa casa na Vila Mariana, aberta a visitação para aqueles que querem conhecer mais sobre o trabalho de Leonilson – as visitas guiadas precisam ser agendadas com antecedência. Lá é possível admirar trabalhos de todas as fases da carreira dele, além de ver objetos pessoais do artista, sua coleção de câmeras e os livros que tinha na estante, por exemplo.

RETRATO DO ARTISTA
O CINEASTA CARLOS NADER CONCEBEU UM FILME A PARTIR DE REGISTROS EM ÁUDIO DO PRÓPRIO LEONILSON

Frame do filme A paixão de JL, vencedor do festival É Tudo Verdade
de 2015

O diretor Carlos Nader foi convidado pelo Itaú Cultural para realizar um filme para a mostra Sob o Peso dos Meus Amores, retrospectiva do artista realizada pelo instituto em 2011. Além do material para a exposição, a parceria rendeu o documentário A paixão de JL, que acabou sendo o grande vencedor do festival É Tudo Verdade de 2015. A base para o filme são registros em áudio feitos pelo artista plástico entre 1990 e 1993, uma espécie de diário íntimo gravado. Nele, Leonilson revela, através do personagem que constrói, aspectos muito emocionais e vulneráveis da sua personalidade. Um lado diferente do que a maioria de seus amigos conheceu durante o convívio: um jovem muito inteligente, de humor ácido, sarcástico, divertido e bastante consciente do seu talento e do seu trabalho. Nader, que também foi amigo de Leonilson nos anos 80, conversou com a Revista FAAP.

Como foi ouvir esse material tantos anos depois? Quando ouvi as fitas, pensei: “Putz, será que isso vai dar um filme?”. Porque o Leo era muito inteligente, esperto, rápido, ferino, bem-humorado, engraçado, sacana. Nas fitas, ele é o oposto disso. Eu terminei de ouvir e falei: “Nossa, parece a escrava Isaura…”. Com aquelas lamentações, estou aqui nesta vidinha, preciso encontrar alguém…

Como foi transformar isso em um filme? Fiquei preocupadíssimo de aquilo ficar um filme muito chato. Mas aí eu entendi o que ele queria. Como no próprio trabalho dele, a persona que está nas fitas é uma muito parecida com a que está nos trabalhos, mas não é o mesmo cara da vida. Você poderia dizer que o cara que está lá é um eu profundo, mas poderia dizer também que é uma máscara, um personagem que ele construiu. Ele sabia que estava fazendo uma autobiografia e sabia que ia ser ouvido. Quem deu o DNA do personagem foi o Leonilson.

No filme, há um paralelo entre o que ele está dizendo e o que a obra dele mostra. Você sente que isso dá um maior entendimento do trabalho dele? Para mim era superimportante mostrar que o Leonilson também fazia associações literais na vida dele, como se fosse um diário. Nesse jogo de associações, tem algumas que são muito literais e outras que são poéticas da minha parte ou poéticas da parte dele. Ele tinha uma coragem de ser simples e eu também usei isso no filme.

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Primeiros desenhos 1980-83

“Tem uns desenhos dele [A noite que desce, 1981, e Ouro Preto, 1980] muito bons, que quase nunca foram expostos”, explica Luiz Zerbini. “Ele tinha um supertalento e um desenho muito novo, interessante. Até pelo fato de ele estar aprendendo a desenhar, ele deixava transparecer o aprendizado.”

Pinturas 1983-87

“Elas tinham muita síntese e são lindas, muito vigorosas”, explica Leda Catunda. “Ele se inspirava um pouco em figuras africanas e depois começou a escrever nas pinturas. Eu falava: ‘Ai, não escreve. Vai estragar tudo’.”

[Acima, obra sem título, 1984]

São tantas as verdades (1988)

“Entrei na casa dele e ele estava pintando este quadro”, lembra o diretor Carlos Nader. “Quando ele me viu, abriu os olhos e falou: ‘Lembrei de uma coisa’. Foi no quadro e escreveu Caos, que era o nome da revista que eu fazia. Ele via uma pessoa e escrevia uma palavra no quadro. Também tinha uma coisa assim muito literal na vida dele, como se fosse um diário.”

Instalação na Capela do Morumbi (1993)

“Fiquei impressionado com aquela exposição”, recorda Nelson Leirner. “Todo o trabalho artesanal dele, dos bordados. Já naquela época, ele se diferenciava dos outros. O que mais impressiona nele é que a geração 80 foi forte na pintura e ele se desenvolveu em outros materiais, como o tecido.”