Prestes a lançar uma coletânea que reúne duas décadas de produção de seus quadrinhos, o cartunista e roteirista paulistano Caco Galhardo, 50 anos, amplia sua atuação no cinema, na TV e no teatro

Foi por pouco que não perdemos Caco Galhardo para o cinema. Na década de 80, no auge de sua adolescência, o paulistano era frequentador assíduo do Cine Bijou, sala no centro da cidade que exibia filmes de arte. Assistindo a longas-metragens de Fellini e Godard, descobriu que os anos 60 seriam sua referência artística. “Os filmes do Truffaut mudaram a minha vida. Sonhava em fazer algo parecido”, diz o cartunista, no quintal arborizado de sua casa, na zona oeste de São Paulo, entre um gole e outro de café. Naquela época, levado por uma amiga, foi ser assistente de produção de vídeo em uma produtora, e ali começou a imaginar uma carreira como diretor de cinema. Percebeu, no entanto, que lhe faltavam algumas características. “Para ser um diretor, vi que precisava liderar uma equipe, mas não tinha essa capacidade. Não me sentia bem no set”, revela.

O perfil introspectivo, de fato, combinava mais com o ofício de cartunista, mas até então era improvável que fizesse do hábito de desenhar, cultivado na infância, sua profissão. Nascido em uma família de classe média, cresceu recebendo uma educação tradicional dos pais, um advogado e uma dona de casa. “Não tive uma formação artística em casa, a minha escola não deu asas, tudo corria dentro das normas. Sou um peixe fora d’água”, brinca ele, que pensou em prestar Artes Plásticas antes de decidir pelo curso de Comunicação e Publicidade na FAAP. “A faculdade tinha uma vibração incrível, um espírito legal, tinha, de certa forma, uma busca minha por libertação, queria sair daquela caixinha”, conta. “Lembro de uma professora de Teoria da Comunicação que deu uma prova no início do curso e ninguém acertou uma das questões. Os alunos se mobilizaram, dizendo ser um absurdo aquilo acontecer. Mas, no fundo, a resposta certa era que a questão estava errada. Ela mostrou ali que ninguém tinha aprendido a questionar, que vínhamos com a cabeça formada de escola. Foi uma lição, abriu meus olhos.”

Um de seus personagens mais famosos, Chico Bacon

Referências

Caco passava os intervalos das aulas lendo as edições da Chiclete com Banana, revista de charges do Angeli. Mais para a frente, autores norte-americano, como Robert Crumb, com seus quadrinhos subversivos, e Matt Groening, criador do Simpsons, tornaram-se referências (leia box na pág. 85). “Ele fazia um cartoon chamado Life in Hell, tudo era um inferno, era genial. Foi uma das influências mais importantes da minha vida”, diz. “No começo, eu queria ser muito alternativo, só depois fui me dar conta de que os desenhos mais tradicionais, como os do Charles [Schulz], do Peanuts, e do próprio Millôr [Fernandes], eram os melhores”, conta ele, que começou a publicar seus quadrinhos em fanzines quando estava na faculdade. Depois de formado, teve uma passagem de quatro anos pela MTV como redator, onde criava vinhetas dos programas e campanhas de Serviço de Utilidade Pública voltadas para a audiência jovem, como prevenção a aids e contra a violência. No tempo ocioso, crescia sua produção de quadrinhos.

Até que resolveu mandá-los para alguns jornais e recebeu uma encomenda de dez tiras da Folha de S.Paulo. “Tinha uma relevância enorme produzir tiras no jornal naquela época. Angeli, Glauco, Laerte, Fernando González já ocupavam aquele espaço e eu caí de paraquedas. O começo foi difícil, demorava horas para finalizar cada uma”, relembra ele. O cartunista Adão Iturrusgarai começou na mesma época. “O Caco é uma pessoa muito querida, ele é leve e um ‘descomplicador’ de assuntos cabeludos. Se está rolando alguma conversa em uma mesa de bar e ele discorda do que estão dizendo, interrompe: ‘Não concordo, não acredito nisso’. E a discussão termina. Ele é ótimo em encerrar questões. Além de ser culto, inteligente, e um cara de texto, o que o faz ser completo”, elogia o amigo.

A faculdade tinha uma vibração incrível, um espírito legal, tinha, de certa forma, uma busca minha por libertação, queria sair da caixinha

De lá para cá, são mais de 20 anos publicando diariamente na Folha personagens como os Pescoçudos, Chico Bacon e Lili, a Ex. A rotina do cartunista não mudou – Caco desenha todas as manhãs, no estúdio que fica em sua casa. Nessas duas décadas, porém, o politicamente correto trouxe à tona a discussão sobre os limites do humor. “Procuro não me colocar amarras quando estou desenhando uma charge. As criações artísticas funcionam quando há liberdade. Mas tenho responsabilidade de não ser ofensivo, sei que uma criança pode ver, me preocupo”, explica. Assim como aconteceu nos anos 60, ele enxerga que vivemos um momento de muitas transformações em questões fundamentais, como o feminismo. “Não dá para ser leviano, mas ao mesmo tempo, não podemos deixar que isso nos prenda, para a criação artística é ruim.”

Caco Galhardo

Do papel para a TV

Em 2014, viu sua personagem mais famosa virar série de TV, no canal GNT. Lili, a Ex, protagonizada pela atriz Maria Casadevall, ganhou universo próprio, num processo de adaptação intenso. Caco, então, foi a fundo na personagem, para descobrir todo seu background. “Estava precisando de um trabalho coletivo”, diz ele, em contraponto ao ofício solitário de um cartunista. “A primeira coisa que percebi lendo o texto do Caco foi o ritmo frenético dos diálogos, que dava a sensação de as personagens falarem umas sobre as outras, como fazemos na vida real. Isso me fez querer filmar os diálogos em sequência, sem cortes, dando oportunidade aos atores de alcançarem aquele ritmo com a cena, e não com a montagem. Foi a essência do pensamento do formato da série”, conta o diretor Luis Pinheiro. A parceria da dupla se repetiu no recém-lançado Mulheres alteradas, longa protagonizado por Alessandra Negrini, Deborah Secco, Monica Iozzi e Maria Casadevall, baseado na obra da cartunista argentina Maitena. “Essa adaptação não foi fácil”, conta o roteirista. “A Maitena é precursora do movimento feminista, mas o material dela retrata uma mulher dos anos 90, frágil, que sofre por ter celulite e por causa de homem. Hoje, não faria sentido abordar essas questões. Ao mesmo tempo, há outros dilemas geniais e atemporais. Fomos atrás disso”, detalha. Antes de começar sua incursão pelo cinema e pela televisão, escreveu duas peças, uma delas incentivada pela atriz Martha Nowill, chamada Meninas da loja, dirigida por Fernanda D’Umbra. “Sempre gostei de dramaturgia e via como um plano B. Olhava a carreira do Millôr, que é um gênio e também escrevia para teatro. Percebia que tinha uma conversa entre o cartoon e a dramaturgia”, conta.

Atualmente, Caco está organizando uma coletânea de 400 páginas que vai ser lançada pela Cia. das Letras até o fim do ano. Será um compilado de duas décadas de seus quadrinhos. “O livro vai se chamar Cinco mil anos, que é o tempo que estou trabalhando”, diverte-se. “Estou há dez anos sem lançar um trabalho consistente, sou relapso com a minha carreira. Chegou a hora de organizar essa bagunça”, diz. O amigo e diretor Luis Pinheiro não o vê assim. “Brinco com o Caco que ele é ‘neat’, ou certinho. Você chega na casa dele e está tudo limpinho, organizado, arrumadinho. Quem vê seus personagens, tipo o Chico Bacon, não imagina isso”, conta. No sobrado onde costuma reunir os amigos, também passa o tempo com as filhas, Tarsila, 20, e Sofia, 14. “As duas desenham muito bem, embora quisesse que fossem advogadas ou qualquer outra coisa. Mas não vai ter jeito”, brinca.

Uma de suas tirinhas, publicadas ao longo de 20 anos na Folha

Caco Galhardo indica as obras de seus cartunistas preferidos

Life in Hell, Matt Groening_ Pouca gente no Brasil conhece os cartuns semanais do criador dos Simpsons. Nos anos 90, foi o que me deu inspiração para sair desenhando tirinhas.

Saul Steinberg Masquerade, Inge Morath_ Sou alucinado pelo trabalho do Steinberg. Esse livro que estou indicando não é dele, mas da fotógrafa Inge Morath, que fez várias fotos do Steinberg e de amigos com máscaras que ele estava desenhando para uma peça. Gênio!

É… , texto teatral do Millôr Fernandes_ Além de ser um deus do humor gráfico, Millôr era excelente dramaturgo. Ele escreveu essa peça para a Fernanda Montenegro nos anos 70 e continua atualíssima.

Tiras da Laerte na Folha de S.Paulo_ Para começar bem o dia.

Blues, Robert Crumb_ Robert Crumb já desenhou a bíblia, mas se saiu bem melhor desenhando sua bíblia do blues. Dentre várias histórias, a HQ sobre o Robert Johnson é um dos seus melhores trabalhos.