Formada em Relações Públicas na FAAP, a cantora Tiê usa o que aprendeu na faculdade para gerenciar a sua carreira de sucesso

Buda, Nossa Senhora, Iemanjá: “Tem espaço para a galera toda” no altar montado na casa de Tiê, 38 anos. Rituais como banho de descarrego com lavanda e meditação baseada em ensinamentos da autora Louise Hay também são usados para dar conta da rotina como mãe de Liz, 8, e Amora, 5, e cantora (são cerca de 80 shows por ano) e empresária – sua produtora, a Rosa Flamingo, cuida de três outros músicos. “Meditar é uma necessidade. Ajuda a me concentrar e também a tirar a pilha que as redes sociais nos trazem.”

Mas o que vale mesmo observar é que o cantinho espiritual da cantora diz muito sobre a mistura que compõe sua personalidade – e trabalho. No final do ano passado, ao lançar Gaya, seu quarto disco, viu uma legião de fãs mais fervorosos torcerem o nariz diante da parceria feita com o cantor Luan Santana na faixa “Duvido”. “Convidei o Luan com a mesma cara de pau que chamei o David Byrne no meu terceiro álbum, porque eu gosto do som dos dois. Me interesso por essa quebra de núcleos e bolhas idiotas, indie que não pode misturar com pop, que não pode misturar com sertanejo”, diz ela, que cresceu ouvindo música clássica, mas também Pink Floyd e Elis Regina.

EU VIM DE LÁ

Criada pela mãe e pela avó, Tiê viveu na infância algumas questões relacionadas ao feminismo que hoje fazem tanto barulho. Mais do que ter sido a protagonista do primeiro beijo na televisão, sua avó, a atriz Vida Alves (1928-2017), dividia com ela histórias sobre ter sido a única mulher de sua turma a se formar em Direito na São Francisco, ou sobre precisar pagar pensão ao marido – sem qualquer problema – depois do divórcio.

Com a separação dos pais ainda durante a gravidez e a mudança do pai para o Xingu, Tiê precisou ser levada por sua mãe, a personal coach de comunicação Thais Alves, para todo canto – por exemplo, para os bastidores de um grupo de teatro e de um programa de rádio. “Tiê foi criada com uma força feminina que veio pelas contingências da vida. Sempre ensinei que era importante ter coragem, mesmo nos momentos em que aparecem aquelas borbulhas interiores”, diz Thais.

Tiê com as filhas Liz e Amora

O medo apareceu, sim, algumas vezes pelo caminho e foi um dos motivos que fez com que Tiê custasse a acreditar que poderia viver da música. Ainda assim, ela entendeu cedo que era preciso correr atrás do que queria. “Nunca gostei de ficar um mês na praia nas férias como minhas amigas. Queria trabalhar para ajudar minha mãe.” Aos 13, participou do “antes e depois” da Capricho e, com a revista em mãos, foi bater na porta da Ford Models determinada a juntar um dinheiro. A carreira durou três anos e lhe rendeu duas temporadas no Japão, mas o vitiligo, doença autoimune que tinha desde a adolescência, piorou e ela acabou desistindo.

Tiê começou a cantar informalmente em um festival da escola, mas, na hora de ir para a faculdade – incentivada pela avó, ela guardava dinheiro desde a sétima série –, optou pelo curso de Relações Públicas na FAAP. “A escolha acabou sendo muito boa porque aprendi coisas como gerenciamento de crise e sistema autoral, que hoje uso na minha produtora”, explica. Para a amiga e apresentadora Roberta Martinelli, esse é um de seus diferenciais: “Fico impressionada com a forma como ela dá conta de tudo: canta, toca a carreira dela e de outros músicos. Tiê é uma artista do nosso tempo: faz música e negócios”.

A cantora conectada com a plateia no seu show no festival Lollapalooza, este ano

Foi na FAAP também que a artista conheceu seu primeiro grande amigo do meio musical, Demetrius Lulo, com quem passou a tocar em bares, eventos e até churrascaria. Ainda assim, ao se formar, decidiu abrir o Café Brechó, misto de bistrô e brechó ao lado da MTV que virou referência entre artistas. “Na época, minha avó brigou comigo, dizia que eu estava fugindo da música. Eu estava, mas acredito que as coisas realmente acontecem no tempo certo. Eu precisei passar por tudo que passei.”

Vida Alves sabia mesmo das coisas. Em uma tarde chuvosa, o cantor e compositor Toquinho apareceu no Café Brechó. Conversando com um dos garçons, descobriu que a proprietária do local cantava e pediu para conhecê-la. “Quando eu vi aquela graça de menina, disse: ‘Meu Deus, você também canta, que covardia!’. Ela me mostrou seu gosto refinado por música, em especial pelo Chet Baker. Além de tudo, gostava de sambas antigos, que poderiam ser tocados em bossa-nova. Eu a chamei para um teste no mesmo dia no estúdio onde estava gravando CDs com a história da bossa-nova”, relembra Toquinho. Deu tão certo que Tiê passou dois anos em turnê pelo Brasil e pela Europa ao lado do cantor.

ALGUÉM ME AVISOU

O clique que faltava para não largar mais o microfone veio aos 26, quando Tiê quase morreu ao passar por uma doença autoimune chamada lúpus. No auge da dor, começou a compor e entendeu que, independentemente do medo, o importante é gostar do que faz. “Antes, eu me preocupava mais com o que as pessoas pensam. Depois da doença, minhas decisões ficaram muito mais livres.”

Tiê com um mês de vida no colo da avó, a atriz Vida Alves

Em 2009, depois de juntar dinheiro fazendo jingles publicitários, lançou seu primeiro disco, Sweet Jardim, e acabou chamando a atenção do público e da crítica como uma das promessas da nova safra da música brasileira. “Tiê faz um som linear, joão-gilbertiano, com um toque especial, de uma delicadeza e leveza enormes”, define Toquinho.

Tanto é que, quatro meses depois do lançamento, a cantora fechou um contrato com a Warner com a condição de que poderia continuar desenvolvendo seu trabalho exatamente do jeito que acredita. “Tento realmente olhar para dentro e fazer tudo da maneira mais sincera possível para que eu fique feliz e satisfeita. Nunca para agradar alguém, porque não dá.”

Mas a verdade é que os fãs só crescem. Em 2014, a música “A noite”, do disco Esmeraldas, foi parar na novela I love Paraisópolis e Tiê ganhou também o grande público. “Ela nunca teve preconceito com o mainstream e sempre dialogou com um lado da música para o qual muitos torcem o nariz”, acredita Roberta Martinelli. Não é à toa que, em um mesmo dia, é possível que a casa de Tiê siga ao som da frequência Hertz ou de “Vai, malandra”, sucesso na voz da cantora Anitta que suas filhas adoram.

Tiê faz um som linear, joão-gilbertiano, com um toque especial, de uma delicadeza e leveza enormes – Toquinho, cantor e compositor

As aparições nos programas de televisão ficaram cada vez mais frequentes, mas Tiê não se deixa impressionar pelo hype nem abre mão de seus shows intimistas, como os que fazia na cozinha ou no jardim de sua própria casa ao lado de fãs e bons amigos, como Jorge Drexler. Este ano, ela também realizou um sonho antigo de cantar no festival Lollapalooza. O momento, ao lado do dia em que abriu um show da banda inglesa Coldplay, no ano passado, é um dos que ela pretende manter para sempre na memória. “Ela é muito focada profissionalmente, por isso vai abrindo os caminhos e chega nos lugares que quer”, pontua a amiga Rita Wainer, responsável por ilustrar a capa de todos os discos de Tiê.

Capas de dois CDs, ilustrados pela artista Rita Wainer

Se possível, em um futuro próximo, gostaria de adicionar a estas lembranças uma participação no festival Coachella e um retorno ao Réveillon da avenida Paulista. Em breve, Tiê ainda inaugura a Casa Clube Rosa Flamingo na antiga residência de sua avó. Com jeitão de casa, o espaço realizará shows, encontros, filmes, além de contar com uma produtora. Tudo no esquema despretensioso que é a cara de Tiê. “Ainda quero fazer muito show e ganhar bastante dinheiro, mas pretendo continuar indo ao supermercado e levando as filhas na escola com tranquilidade. O hype passa, eu pretendo ficar.”