A Filmoteca da FAAP é um dos maiores centros de pesquisa cinematográfica do Brasil. Lá estão guardados 4 mil películas – entre elas, uma raríssima restauração de filme com Noel Rosa –, 6 mil cartazes, 12 mil fotos e muito mais

Henri Langlois (1914-1977), fundador da Cinemateca Francesa e considerado o papa da preservação cinematográfica, costumava dizer que filmes são como tapetes persas: “A melhor maneira de preservá-los é simplesmente usá- los”. O poeta Antonio Cicero escreveu, no poema “Guardar”, algo parecido: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la./ Em cofre não se guarda coisa alguma./ Em cofre perde-se a coisa à vista./ Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”.

Na Filmoteca da FAAP, essas ideias, de Langlois e de Cicero, são tomadas ao pé da letra. Dividida em três espaços (o maior deles dentro da Biblioteca da FAAP), a instituição “guarda” 4 mil películas, 6.200 cartazes e 12 mil fotos – além de 3.200 DVDs, 2 mil VHS, 400 Blu-ray e antigos equipamentos de cinema. “Hoje estamos entre os três maiores centros de pesquisa cinematográfica do Brasil, ao lado da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e da Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro”, afirma o professor Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e 
Marketing. “Conseguimos transformar o curso de Cinema e a nossa Filmoteca em referências de ensino e de pesquisa no Brasil.”

Um dos segredos do sucesso do curso de Cinema foi deixar os tesouros da Filmoteca ao alcance de todos. Os filmes são projetados com frequência no cineclube organizado pelos alunos; a maior parte dos DVDs pode ser retirada tanto por professores quanto por estudantes; os curtas feitos por alunos entram para o acervo ao lado de clássicos do cinema; e todas as películas são desenroladas, lavadas e projetadas regularmente para não se deteriorarem. “É uma instituição viva”, diz Máximo Barro, supervisor da Filmoteca que foi professor de Cinema da FAAP por cinco décadas. “A Filmoteca foi criada para servir o aluno, para despertar nele a importância da preservação. Se ele está se preparando para ser cineasta e também fazer parte da história, é preciso aprender a preservá-la.”

A história da Filmoteca começa em 1978. Adhemar Carvalhaes era um professor da faculdade que tinha um acervo de 800 títulos em 16 milímetros com o qual percorria o interior de São Paulo e outros estados para fazer cursos e ciclos sobre o início do cinema. Com a morte de Carvalhaes no final de 77, Máximo visitou a viúva – que não tinha ideia do que fazer com os filmes – e recomendou que a FAAP comprasse tudo: películas, cartazes, fotos. A Filmoteca nascia, assim, com um acervo já imponente: entre os tesouros de Carvalhaes, havia alguns dos primeiros filmes da história, feitos por Thomas Edison (1894), os irmãos Lumière (1895) e Georges Méliès (1896); 31 títulos cômicos de Charles Chaplin, 10 de Buster Keaton e 10 de Harold Lloyd; os primeiros filmes sonoros feitos entre 1927 e 1929; e 10 títulos dirigidos por D.W. Griffith, incluindo o clássico Intolerância (1916).

O acervo inicial contava ainda com cópias em 16 milímetros de algumas das primeiras animações da história, como o americano 
Humorous Phases of Funny Faces (1906), de 
James Stuart Blackton; e os franceses 
Fantasmagorie e Un Drame chez le Fantoche (1908), de Émile Cohl. “Levando em conta os DVDs que compramos depois, temos praticamente toda a história dos desenhos animados aqui”, diz Eliseu Lopes Filho, professor de Animação.

Ao longo dos anos, o acervo da Filmoteca foi sendo enriquecido por doações e compras reunidas sobretudo pelos professores Máximo e Rubens e por cartazes assinados por dezenas de atores e cineastas que deram palestras na Fundação. A próxima assinatura “célebre” já tem data marcada: em setembro, a atriz italiana Sophia Loren estará na Fundação para prestigiar uma retrospectiva de seus filmes.

Entre os próximos planos do professor Rubens para a Filmoteca, está uma mostra das raridades do acervo – entre elas, Vamos fallá do Norte (1929), único registro audiovisual com Noel Rosa, restaurado pela FAAP, e Se a cidade contasse (1954), encomendado para celebrar o IV Centenário de São Paulo, primeiro longa montado por Máximo – e outra dedicada aos primeiros curtas de alunos que marcariam o cinema brasileiro – como Aurora (1987), de Beto Brant, e Cartão vermelho (1994), de Laís Bodanzky. “Nosso objetivo é que a filmoteca se torne cada vez mais pública”, afirma Rubens, ciente de que a melhor maneira de “guardar” a história do cinema é iluminá-la ou ser por ela iluminado.