Drones, inteligência artificial, internet das coisas: Especialistas explicam para onde o Brasil caminha na área do agronegócio e como a aposta em pesquisa é necessária para seguir avançando

Da próxima vez que você colocar um tomate no prato, olhe bem pra ele. O caminho desse fruto vermelho até a sua casa mudou tanto nos últimos anos, que se tornou um símbolo da evolução da nossa agricultura nesta década. Esse tomate esteve mais perto de drones, máquinas com inteligência artificial e IoT (internet das coisas) do que muita gente imagina. E não foi só ele. A produção do setor de agronegócios como um todo viveu anos de desenvolvimento intenso, como resume Celso Moretti, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa: “Houve um trabalho de transformar o país importador em exportador de forma sustentável que foi acontecendo através do desenvolvimento de tecnologias que ajudassem a garantir eficiência e sustentabilidade’’. Os bons resultados no setor ajudaram a economia brasileira a segurar as pontas durante a pior fase da crise econômica, com números expressivos na participação no PIB brasileiro em 2017, principalmente; e que devem seguir em destaque. O desafio, com tanto crescimento, é manter os bons resultados e seguir limitando o desmatamento de áreas florestais, o que é totalmente possível, de acordo com o professor de Gestão do Agronegócio da FAAP, Rafael Possik: “O Brasil tem leis claras e a tecnologia facilita a fiscalização e o desenvolvimento de processos sustentáveis,
melhores para o meio ambiente.”

DE OLHO NO MILHÃO…

Outro produto que deve estar em alta é o milho. Moacir Junior, Broker da Futura Investimentos, chama atenção para o etanol de milho, que deve dar saltos exponenciais de produção nos próximos anos. Os motivos são variados: começam na nossa abundância de milho e passam pelo potencial do grão que, em relação à cana, tem produtividade quatro vezes maior, além da demanda do nosso país por etanol. “A estocagem também é superior: ao contrário da cana, que deve ser imediatamente processada (cerca de 24 horas após a sua chegada à usina), o milho pode ser estocado durante vários períodos, e ser processado meses depois do seu recebimento. Se alguma empresa de etanol de milho entrar na bolsa (abrir o capital) merece atenção”, alerta ele.

RAFAEL POSSIK JR., pecuarista e professor de Gestão do Agronegócio da FAAP

MONITORADO

Rafael Possik Jr. é otimista em relação aos próximos anos para o setor e reforça que a preservação é uma realidade para os produtores rurais. Ele acredita que o bom desempenho do agronegócio no cenário nacional vem atraindo cada vez mais profissionais de diversas áreas para a especialização da FAAP. “A disciplina Gestão do Agronegócio não é uma exclusividade do curso de Administração. Alunos do Direito, Economia, R.I. e Engenharia também assistem a esta aula. Dividimos experiências práticas sobre os principais temas do setor, como a questão ambiental, a indígena, logística, aviação e muitos outros”, diz. “Esse olhar mais abrangente é muito valorizado no mercado de trabalho, seja como empresário, seja como executivo.’’

INOVAÇÃO

“O uso da internet no campo ainda é um grande desafio, já que muitas áreas não têm acesso a sinal. Se a gente pensa em produtividade, o agricultor brasileiro fez a lição de casa, aumentando de safra em safra e ainda conseguindo ser inovador. Hoje a tecnologia faz parte do setor e está presente em tudo: por exemplo, em sensores que medem a altura do capim, e conseguem calcular a produtividade do pasto. Tudo isso dá uma agilidade na tomada de decisão no começo do processo. A balança móvel é outro exemplo que permite pesar o gado todos os dias e ter uma informação rápida sem movimentar a boiada. Isso sem falar nas imagens de satélite: em alguns tipos, pela cor – mais escuro ou mais claro –, sabemos as regiões mais férteis. São exemplos já totalmente inseridos na realidade do campo.”

SUSTENTABILIDADE

“É totalmente possível crescer sem aumentar o desmatamento. Toda fazenda do Brasil é obrigada por lei hoje a manter preservada no mínimo 20% da área que usa. E a tecnologia é grande aliada na preservação: quanto mais eficientes as máquinas, menos consomem óleo diesel e menor a poluição. A eficiência resulta em preservação e fiscalização feita com mais facilidade. O Brasil mantém 62% do seu território intocado. Os Estados Unidos, 23% e a Europa, 0,2%.”

TEM QUE FICAR DE OLHO EM 2019

“A demanda chinesa por proteína animal é forte e deve continuar beneficiando o Brasil e outros países produtores, em meio ao confronto comercial entre o país asiático e os Estados Unidos. Por outro lado, precisamos acompanhar como esse conflito impacta a soja brasileira, que também aumentou as vendas para a China nos últimos tempos. O etanol de milho é a grande sacada e deve crescer cada vez mais com a implementação de usinas flex.”

MOACIR JUNIOR, Broker da Futura Investimentos

FORÇA MOTORA

Com mais de 35 anos de experiência nas áreas de comodities e financeira, Moacir atualmente é head de commodities agrícolas e moedas na Nova Futura Investimentos, com foco em Brasil, Estados Unidos e Europa. O especialista acredita que o agronegócio seguirá forte como um dos grandes pilares da economia nacional beneficiado pelas evoluções tecnológicas.

INOVAÇÃO

“Os últimos anos foram muito bons para o setor, temos passado por períodos ótimos, não só em termos de safras, mas também com desenvolvimento dos produtores cada vez mais capitalizados. Hoje temos quase tudo feito via satélite ou drones. A parte genética também tem acrescentado muito ao agro através do desenvolvimento dos GMO’s [alimentos geneticamente modificados], que aumentam a resistência às pragas (precisam de menos agrotóxico), além de aumentarem a produtividade.”

SUSTENTABILIDADE

“Vejo a tecnologia como grande aliada da sustentabilidade hoje. Já é possível, por exemplo, fazer marcações mais precisas via satélite e drones. O mercado está mais ligado nisso e a fiscalização também é cada vez maior no nosso país. A tecnologia só ajuda ainda mais a Polícia Federal a fiscalizar quem desmata, pois a lei já existe, o que era mais difícil era o controle.”

EM QUE FICAR DE OLHO EM 2019

“Já vivemos cinco anos climáticos muito bons. Durante os últimos 30 anos, não me lembro de ciclos tão positivos – principalmente para o milho e para a soja. Esses ciclos, de acordo com o que vemos na história recente, não costumam se repetir por períodos tão prolongados. O etanol de milho será o produto mais promissor para os próximos anos, com ênfase no Centro, Norte e Nordeste do Brasil. As fábricas de etanol de milho tomaram rapidamente o lugar das obsoletas usinas. Com ele, é possível trabalhar com várias safras ao mesmo tempo, o que aumenta a rentabilidade. Nos Estados Unidos, essa produção já domina faz um tempo. Se alguma empresa do setor etanol de milho surgir na bolsa, merece a nossa atenção.”

CELSO MORETTI, Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa

O TOMATE E A GENÉTICA

Celso Moretti – Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ligada ao Ministério da Agricultura, busca caminhos para potencializar o setor no país. “Para quem vive nas grandes cidades, a transformação no agronegócio nos últimos anos pode não chamar a atenção. Mas, no campo, podemos chamar de revolução o que aconteceu nas últimas cinco décadas na produção de alimentos no nosso país”, diz o engenheiro agrônomo, doutor em produção vegetal e especialista em engenharia de produção com ênfase em gestão empresarial. “Há alguns anos, dependíamos de importação de alimentos para comer. Quatro décadas depois, somos uma das maiores produções agrícolas do mundo e fizemos uma mudança geral no campo, do ponto de vista de produção de alimentos, realizada de forma sustentável”

INOVAÇÃO

“O crescimento do setor só foi possível por causa do investimento em ciência e inovação. Uma pesquisa da Embrapa, por exemplo, desenvolveu um novo tipo de tomate-cereja com três vezes mais licopeno do que a quantidade
considerada normal. A substância, que dá a cor vermelha ao alimento, funciona como um antioxidante para o organismo humano (vários estudos relacionam o licopeno à prevenção do câncer, principalmente o de próstata). Esse tomate, que já está no mercado, faz bem à saúde também por demandar menos agrotóxicos na produção, já que é mais resistente a pragas. Esse é um exemplo de como a genética clássica é usada na inovação da produção.”

SUSTENTABILIDADE

“Uma das revoluções recentes na agricultura e com grande impacto sustentável foi o sistema integrado de produção – entre lavoura, pecuária e floresta. Em uma mesma área, você entra com lavoura de milho, semeando capim
e gado e até alguma espécie florestal. A grande vantagem desses sistemas é garantir a neutralidade do carbono, já que o gás metano produzido pelo organismo do gado – e que leva ao efeito estufa – é consumido pelas plantas. Esse é o conceito da carne carbono neutro. Através dos sistemas integrados é possível recuperar pastagens degradadas que, no Brasil, chegam a 60 milhões de hectares.”

EM QUE FICAR DE OLHO EM 2019

“A introdução de novas técnicas para a alteração genética de plantas, a partir do conceito de edição gênica – em que enzimas identificam, cortam e substituem partes de DNA, sem alterar sua estrutura ou tamanho – devem avançar cada vez mais. Em termos de potencial de crescimento dentro e fora de Brasil, os chamados alimentos pulses estão com tudo – são eles sementes comestíveis de plantas da família das leguminosas: ervilhas secas, feijão, lentilhas. Eles são culturas fixadoras de nitrogênio que melhoram a sustentabilidade ambiental dos sistemas de cultivos anuais.”