Coordenadora do curso de Engenharia Civil desde 2011, a professora Thelma Lopes Lascala defende que o foco no futuro é a única saída para a crise no país — e para a árdua formação de um engenheiro de primeira linha

Quando conheceu a FAAP, em 1971, no primeiro dia de aula como aluna do curso de Engenharia Civil, Thelma tinha 20 anos. Era uma garota que amava matemática e física, e já pensava em construir algo que fosse além de tijolos e concreto. Depois de pegar dois trólebus em direção a Higienópolis, avistou o prédio principal da faculdade. Assim que pisou no átrio do museu, ergueu o olhar para os vitrais e as esculturas de Aleijadinho e quase não acreditou no que viu. “Meu Deus, que escola maravilhosa. Quem me dera ser professora deste lugar um dia”, pensou.

Até hoje, aos 66 anos, ela narra esse episódio com os olhos cheios d’água, emocionada não apenas pelo desejo realizado, mas especialmente por tudo o que veio depois daquele dia  –  uma carreira de quase 50 anos na FAAP, construída à base de muitas horas de estudo, debruçada sobre cálculos que ainda aterrorizam os estudantes. Aos poucos, foi colecionando títulos que trouxeram a admiração geral: em paralelo com a atividade docente, a professora transitou por diferentes áreas do conhecimento e foi além da tradicional cartilha mestrado-doutorado, que rege o mundo acadêmico. Além de especialização em Tecnologia da Educação na FAAP, fez licenciatura e bacharelado em Física, especialização em Saúde Pública, mestrado em Arquitetura e Urbanismo e doutorado em Energia.

Em 1971, caloura do curso de Engenharia Civil

Mas foi por seu louco amor ao trabalho que ganhou o que considera “a maior gratificação de todas”. Em 2012, o Diretório Acadêmico do curso de Engenharia da FAAP foi nomeado Diretório Acadêmico Profa. Dra. Thelma Lopes da Silva Lascala. A homenagem foi concluída três anos depois, quando os estudantes organizaram um evento surpresa para ela, com direito a depoimentos de alunos, ex-alunos, pais de alunos e funcionários no Centro de Convenções da FAAP. “Essas coisas que o dinheiro não paga”, diz.

Nascida na Mooca, a paulistana vive no mesmo bairro até hoje, na companhia do marido, o administrador José Fernando Lascala, e da mãe, Ivana. Para as filhas  –  Cynthia, 33 anos, e Cybele, 31 – Thelma sempre foi categórica: “A mulher tem de ganhar sua autonomia. O mais importante na vida é você se realizar naquilo que faz”.

Quais são suas memórias do tempo de aluna da FAAP nos anos 70? Fico emocionada só de lembrar. Fiz parte da quarta turma de Engenharia Civil da FAAP. Naquele tempo, só existia o prédio 1. Éramos 330 alunos na turma – havia, no máximo, cinco mulheres. As salas, imensas, ocupavam o espaço do atual Centro de Empreendedorismo. Havia um grande quadro-negro e as cadeiras eram distribuídas em declive, como num teatro. Sempre adorei física, tanto que ganhei bolsa e fui monitora dos laboratórios de Física, do segundo ao último ano.

Sempre acreditei que a mulher tem de ter uma profissão. Ganhar sua autonomia. Você tem de se realizar no que faz

De onde vem seu interesse pelos números? Não tive influência da família. Meu pai era comerciante e, minha mãe, do lar. Mas sempre gostei de matemática, de desenhar, fazer croquis ilustrativos. Estudei no Ginásio Estadual Plínio Barreto, na Mooca, o ensino lá era excepcional e eu amava os experimentos de física – antigamente, as escolas estaduais eram fortíssimas. Na hora do vestibular, foquei em engenharia.

Na sua colação de grau da faculdade

Mas você quase se tornou uma artista da música. Como foi isso? Na minha família –  de ascendência portuguesa, italiana e espanhola –, sempre gostaram de música, cantavam, tocavam alguns instrumentos, como piano, cavaquinho, violão. As festas eram animadas, todos dançavam. Antes dos números, o meu primeiro interesse, foi pela música. Meus avós paternos, viajaram para a Europa e me trouxeram de presente um acordeão Scandalli e aos 7 anos comecei a cursar aulas particulares. Só aos 11 anos fui para o Conservatório Brasileiro de Acordeão e lá me formei aos 15 anos. A música favorece o raciocínio, pois é preciso fazer divisões de tempo através das notas musicais, que possuem certa duração: breves, semibreves, mínimas, semínimas… Portanto o interesse pelos números se tornou muito atrativo após vários anos de “cálculos” musicais. É evidente que isto ajudou, em muito, o entusiasmo para cursar engenharia, pois a “mania de calcular” já estava arraigada na minha personalidade.

Como foi fazer esse curso naquela época? Sempre fui muito focada naquilo que queria fazer. Durante a graduação, nós, mulheres, sentávamos na primeira fileira. Estudávamos muito mais que eles. Eu não passava cola. Detestava emprestar meus cadernos [risos], tenho que confessar, porque ralava muito. Não tinha sábado nem domingo, não havia esse negócio de sair. Na minha casa, havia um único telefone, mas imagine se alguém mandaria minha mãe me chamar! Ela já dizia: “A Thelma está estudando”. Engenharia sempre foi um curso difícil e complexo. Eu praticamente só estudava, passava horas calculando. É um sacrifício, não dá para ser de outro modo.

O fato de estar num meio predominantemente masculino nunca a intimidou? Não. Sempre acreditei que a mulher tem de ter uma profissão. Ganhar sua autonomia. Foi isso que passei para as minhas filhas. Você tem de se realizar no que faz. Nunca fui uma mãe do tipo: “Meu Deus, será que elas vão se casar logo?”. Mesma coisa para mim. Meu pai faleceu muito cedo. Minha mãe ficou viúva com 36 anos. Eu tinha 14. Praticamente tive de me virar sozinha e servir de exemplo às minhas irmãs. Acho que por isso me tornei independente. Quando me formei na FAAP, já trabalhava na Sabesp e dava aulas aqui.

O curso em si exige o mesmo de todos, homens e mulheres: várias horas de estudo e muita pesquisa. Porém, na sala de aula, as mulheres são mais dedicadas, têm um maior espírito de renúncia, o que as torna mais persistentes e melhores alunas que os homens

Como foi a experiência de atuar como engenheira de obras da Sabesp? No quarto ano, havia a disciplina Saneamento Básico, lecionada pelo professor Oscar Felomeno Lotito. Naquela época, em 1974, ele era presidente da Sabesp. Um dia, na sala dos professores, ele me abordou dizendo que eu era muito esforçada e me ofereceu um estágio. Meu único trabalho na engenharia foi na Sabesp, durante 20 anos. Atuei na construção de redes coletoras de esgoto em São Paulo – parece simples, mas há etapas da obra que envolvem tubulações enormes – , assentamos esgoto em vários bairros, trabalhei no emissário submarino de Santos. Foi muito legal.

Em 2012, na inauguração do Diretório Acadêmico do curso de Engenharia da FAAP, que leva seu nome

E como você avalia o aluno de hoje? Ele é mais imediatista: você está dando aula, fazendo um cálculo, ele está consultando as mesmas informações no celular, tudo é muito rápido. Isto é muito bom porque o torna mais participativo trazendo para a aula informações enriquecedoras. A grande vantagem do aluno de Engenharia é que hoje ele conta com uma série de softwares que simulam a realidade em obra, fazem o cálculo estrutural, levantamentos topográficos, plantas em 3-D etc. Antigamente tudo era mais difícil, fazíamos os cálculos em régua, em pequenas calculadoras e todos os desenhos eram feitos à mão. A FAAP sempre esteve atenta às mudanças, inovações, novas tecnologias na fronteira do conhecimento, tornando o curso de Engenharia sempre atual e competitivo no mercado globalizado.

Hoje já existem mais alunas e mulheres engenheiras que antes, mas ainda é uma grande minoria. A engenharia exige muito da mulher? Hoje, no curso de Engenharia da FAAP, cerca de um terço são mulheres. A proporção tem aumentado nos últimos anos – as engenheiras são determinadas, cansaram de fazer apenas aquilo que era conceituado para mulheres. Segundo dados do MEC de 2013, o numero de mulheres cursando Engenharia cresceu 67,8% em 20 anos –  em comparação, o número de homens subiu 38,7%. O curso em si exige o mesmo de todos, homens ou mulheres: várias horas de estudo e muita pesquisa. Porém, na sala de aula, as mulheres são mais dedicadas, têm um maior espírito de renúncia, o que as torna mais persistentes e melhores alunas que os homens.

O que pode ajudar os alunos a enfrentar essa demanda tão alta do curso? Quando a gente estuda acústica, aprende que a música é composta de tons que dão origem às escalas musicais, e tom é um som puro, constituído por uma única frequência, por isso você se sente bem. Ao escutar Vivaldi, por exemplo, aquele estresse do dia a dia vai embora. Você fica em paz. Sou formada em acordeão e fiz parte da Ordem dos Músicos do Brasil. A música me inspira para tudo, até para corrigir provas (veja box na pág. 76).  Digo aos alunos: vocês não conhecem ainda o prazer de chegar em casa, vestir uma roupa confortável, acender um abajur, colocar uma música e estudar. Primeiro, tente resolver um exercício de qualquer disciplina. Se não conseguir, durma pensando nele. No dia seguinte, a mesma coisa. Até acertar. Aí sente aquele prazer interior.

Entre as disciplinas que ensina, qual é a mais desafiadora, em relação à demanda atual de nosso planeta? A de planejamento energético sustentável. Na Engenharia Civil a gente ensina a fazer projetos de instalações elétricas a partir do uso da energia gerada pelas hidrelétricas. Só que isso vai ficar cada vez mais difícil porque a construção de uma hidrelétrica envolve polêmicas socioambientais. Então você precisa estudar alternativas à energia elétrica da forma como é produzida hoje. O aluno faz um pequeno projeto de instalações elétricas prediais com energia elétrica, e faz o mesmo projeto numa escala menor com solar-fotovoltaica, solar-térmica, eólica. Isso é o futuro. A matriz energética brasileira está sempre mudando e se tornando mais sustentável.

A FAAP sempre esteve atenta às mudanças, inovações, novas tecnologias na fronteira do conhecimento, tornando o curso de Engenharia sempre atual e competitivo no mercado globalizado

Qual seria a solução ideal para o Brasil, na sua opinião? A matriz energética nacional já pode ser considerada sustentável, comparada a outros países. Além da energia hídrica, outras fontes de energia limpa vêm sendo mais utilizadas, como solar, eólica e biomassa (energia gerada 
a partir de matéria orgânica, como cana-de-
açúcar). Temos alto índice de incidência de radiação solar. No Nordeste, a energia eólica 
é privilegiada por fortes ventos. O problema é
o custo da geração dessas energias, que não 
é competitivo. Fora isso, muitas vezes não há linhas de transmissão suficientes. Acredita? O Brasil já possui experiência no aproveitamento da energia vinda da biomassa graças ao Proálcool, um dos maiores programas comerciais de biomassa do mundo. É um dos líderes no mercado mundial de etanol de cana-de-açúcar. O ideal é pluralizar a matriz com incentivo às energias alternativas.

Os prédios eficientes energeticamente são uma promessa real no Brasil? Existe uma certa camada social que já paga mais caro pelo metro quadrado de construção para ter soluções sustentáveis. É uma tendência real. Hoje, o projeto tem de ser eficiente, energicamente falando. Tem de proporcionar as mesmas condições de conforto que outro oferece, consumindo muito menos energia. Isso melhora todo o meio ambiente, todas as emissões, efeito estufa, camada de ozônio, degelo das geleiras etc. Ao optar por uma construção desse tipo, você contribui para a preservação ambiental do planeta, pois ele não nos pertence, apenas o emprestamos aos nossos filhos e netos.