Conheça histórias de pessoas que apostaram em Cursos diferentes da sua área de formação para fazer a sua guinada profissional

Quem vê Gabriela Rios caminhando pelas casas históricas do Museu da Cidade de São Paulo, onde trabalha como curadora, não imagina que há poucos anos ela passava o dia dentro de um escritório de advocacia do qual era sócia.

As coisas começaram a mudar quando decidiu, aos 34 anos, se matricular na pós-graduação em História da Arte, na FAAP, para ganhar fôlego numa rotina dominada por processos e mais processos. “Fui me deixando levar pelo Direito, sem parar para pensar no que realmente queria”, diz. O interesse pela arte foi ganhando força e Gabriela tomou coragem de pedir demissão, além de engatar numa segunda pós, desta vez em Estudos e Práticas Curatoriais – o começo da construção do seu caminho até se tornar curadora do Museu da Cidade.

A trajetória de Gabriela tem se tornado cada vez mais comum. “O número de alunos que procuram uma área totalmente diferente da sua vem crescendo cerca de 15% ao ano”, afirma o professor Gley Xavier, coordenador- geral da Pós-graduação da FAAP, que oferece mais de 25 cursos, nas áreas de Administração, Direito, Artes e Comunicação. Segundo ele, as pessoas têm mais liberdade para escolher novos caminhos, e a pós acaba sendo um gatilho para essa mudança. “Não temos mais o pensamento: ‘Fiz Administração e preciso seguir nisso por toda a minha vida’.

A educação está se tornando cada vez mais compartilhada e multidisciplinar, e buscar um curso diferente ajuda a ter uma visão mais ampla das coisas” completa. Thiago Costa, coordenador da Pós-Graduação em Comunicação e Marketing Digital e professor, costuma dividir os alunos em três grupos: os que vêm para a pós e serão promovidos; os que abrirão uma empresa; e os que querem fazer outra coisa completamente diferente. “Falo que os que se encaixam neste último time têm a síndrome do Fantástico: ficam tristes no domingo à noite porque não estão felizes em suas profissões”, brinca.

TURNING POINT

Segundo ele, aproximadamente 30% dos alunos que procuram a pós em Marketing Digital estão em um momento de transição de carreira. “O curso abre a cabeça e ajuda muito nesse processo. Nenhum conheci- mento é descartável”, comenta. Para Marília Piccinini da Carvalhinha, coordenadora da pós em Negócios e Varejo de Moda, o curso é uma maneira de aproximar o aluno do mercado e mostrar como é esse ambiente profissional.

“A gente propõe trabalhos que são miniaturas do que está acontecendo no mercado, e as empresas buscam quem já tenha lidado com situações parecidas”, conta. “Além do contato com diversos professores, que atuam como executivos ou consultores no mercado, trazendo referências atualizadas do que acontece lá fora. Helene Hermes, fundadora e CEO do The Grid, empresa que atua em recrutamento de uma forma mais moderna, completa: “Quando você possui conhecimento em mais de uma área, tem mais ferramentas para apresentar soluções, e isso está sendo cada vez mais uma vantagem no mercado de trabalho”.

DO ESCRITÓRIO AO MUSEU

 O dia 23 de março de 2019 tem um significado importante para Gabriela Rios. Depois de 14 anos trabalhando como advogada, aquela foi a data em que inaugurou a sua primeira mostra como curadora do Museu da Cidade de São Paulo, Do cenário ao museu, no Solar da Marquesa de Santos. Na mesma data, seu trabalho de TCC na pós-graduação, em Estudos e Práticas Curatoriais da FAAP, foi aprovado. “Naquele dia, estava zerando o cronômetro da minha vida e recomeçando tudo de novo”, lembra ela, aos 39 anos.

Quatro anos antes, Gabriela decidiu fazer uma pós em História da Arte. Na época, ainda não sabia que aquele seria o começo de uma nova trajetória profissional. “Entrei no curso mais como curiosidade, porque sempre gostei de ir a museus. Não tinha nenhuma pretensão de trabalhar com isso”, diz ela, na época sócia de um escritório de advocacia. Mas o curso começou a abrir a sua cabeça.

Em pouco tempo, se sentiu fisgada pelas aulas. Largou o direito e mergulhou em uma segunda pós-graduação, incentivada pela coordenadora, Caru Duprat, que lhe chamou para ingressar na primeira turma de Estudos e Práticas Curatoriais. Foi aí que passou a encarar a arte como uma possibilidade profissional. “Nunca me vi pintando um quadro ou produzindo uma peça, mas a chance de trabalhar nos bastidores me interessou.”

O novo currículo, recheado com duas formações na área artística, foi fundamental para ser contratada como curadora. “Com o curso de História da Arte, aprendi de arte rupestre a moderna. E com o de Práticas Curatoriais, foquei na contemporânea. Meu conhecimento ficou amplo, o que ajudou a me recolocar profissionalmente”, diz ela, que teve aulas com os curadores Jochen Volz, diretor da Pinacoteca que trabalhou por anos no instituto Inhotim, e Veronica Stigger. “Sempre digo: a FAAP me proporcionou um novo olhar para a minha própria vida.”

MUDANÇA DE MARCHA

O gosto de Carolina De Mitry, 20 anos, pelo universo automobilístico vem da família. Seu avô, Antonio Adolfo de Mitry, teve um papel importante no projeto de desenvolvimento de veículos de marcas como Lafer, Puma e Willys e, o pai dela, formado em engenharia mecânica pela FAAP, também trabalhou no setor. Mas o interesse por moda falou mais alto quando decidiu prestar vestibular, em 2015. Durante o curso, começou a se sentir desiludida, porque continuava pensando em trabalhar com carros. Vira e mexe dava um jeito de incluir o tema nos seus trabalhos de Moda. Em um deles, por exemplo, criou uma coleção de uniformes para pilotos.

Começou então a fazer disciplinas do curso de Administração, pelo programa de Forma- ção Múltipla que a FAAP oferece – todos os alunos podem fazer até quatro disciplinas por semestre em qualquer curso da faculdade, sem custo extra na mensalidade. Cursando Gestão e Inovação e Branding, passou a considerar
a possibilidade de pedir transferência para Administração. “Fiquei uma semana em conflito antes de me decidir, mas me imaginei no futuro e vi que precisava mesmo mudar de área”, diz ela, que hoje estagia na área de pós- vendas da Porsche.

No trabalho, Carolina consegue aliar os conhecimentos dos dois cursos. “Na hora de ajudar a escolher acessórios para os veículos, como rodas, tapetes e adesivos, uso bastante o que aprendi nas aulas de tendência e criação do curso de Moda”, diz. E quando colabora com a montagem de planos de ação para problemas que os carros vendidos podem apresentar, ela aplica os conhecimentos das aulas de Administração.

“O curso se relaciona muito com o estágio. Às vezes, estou na faculdade e acende uma luzinha. Lembro que posso usar aquele ensinamento da aula de Gestão de Operações no relatório de fechamento do mês do trabalho”, exemplifica. “Estou muito feliz com minha escolha. Ainda bem que tomei coragem para fazê-la cedo.”

ERA UMA VEZ

Os sete meses de estágio em um banco foram uma boa experiência, principalmente porque serviram para Otávio Gomes perceber que não estava feliz no curso de Economia. Com isso na cabeça, partiu para um intercâmbio na Alemanha e o contato com culturas diferentes foi decisivo para ter certeza de que não seria mesmo economista: em vez de problemas financeiros de empresas, queria trabalhar com comportamento humano.

Formado em Economia, começou a trabalhar na Inesplorato, empresa pioneira em curadoria de conhecimento, e hoje está na agência de tendências Box1824, onde continua trabalhando com pesquisa de comportamento do consumidor. “O que aprendi em economia continua presente, especialmente as aulas de cálculo, sociologia e história da economia brasileira, que me ajudam a interpretar os resultados das pesquisas qualitativas que a agência faz”, diz.

Mesmo trabalhando numa área de que gosta, Otávio viu na pós-graduação em Escrita Criativa a chance de se aproximar de uma das suas vocações: escrever. “Escolhi o curso da FAAP por poder entrar em contato com profissionais importantes do mercado”, diz ele que já teve aulas com o escritor manauara Milton Hatoum, autor de obras premiadas como Dois irmãos, e Juliano Pessanha, vencedor do Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), na categoria Literatura, em 2015.

“Esse contato é muito impressionante. Um aprendizado enorme, que eu jamais teria se não fosse o curso. Os professores humanizam o difícil processo de escrever um livro, mostram que é real.” Um dos diferenciais da pós é ser focada no desenvolvimento de um projeto autoral. Por causa disso, aos 28 anos, Otávio traçou novos planos: “Já coloquei uns seis livros na gaveta, por falta de coragem. Agora que já dei o primeiro passo, espero publicar meu primeiro livro de ficção ainda este ano”.

PALETA COLORIDA

Quando criança, Susanne Schirato passava as férias em um sítio no interior paulista. O contato com animais despertou desde cedo a vontade de ser veterinária, convicção que levou até o momento de decidir qual vestibular prestar. Formada em medicina veterinária, trabalhou durante anos em uma multinacional do ramo farmacêutico.

Cansada do ambiente corporativo, que exigia uma dedicação enorme, parou de ver sentido em ocupar todo o seu tempo com os outros, sem olhar para si. E foi justamente nesse resgate das coisas que lhe davam prazer que reencontrou a cerâmica. “Minha avó era artista e meu tio trabalha com isso. Sempre me senti atraída pelo processo de criar peças com volume, peso, forma”, lembra.

Passou a estudar mais sobre a técnica por conta própria. Participou de grupos de estudo e cursos livres e começou a vender suas cerâmicas. Até que teve o clique de
que precisava expandir seus conhecimentos sobre arte. “Achei que estava deixando de descobrir outros escritores, pensadores e artistas, que poderiam ser referências para o meu trabalho”, diz. Matriculou-se, então, na pós em Práticas Artísticas Contemporâneas, aos 38 anos. “Às vezes a gente se impõe urgências, e eu estava nesse momento. Por ter vindo de outra área, a FAAP foi especialmente importante para mim.”

Durante o curso, ampliou as suas possibilidades de criação e descobriu novas linguagens, como o audiovisual. “Os professores, em especial Lívia Aquino e Thiago Honório, são de uma generosidade enorme, uma capacidade de olhar a pesquisa do outro e enxergá-lo como ser pensante. Isso sem falar nos laboratórios, que nos ajudavam a criar projetos”, conta.

Foi também durante a pós que a artista visual conseguiu incorporar na sua produção artística uma das atividades que pratica desde 2001: o mergulho em caverna. “Uma das leituras do curso era o filósofo Paul Ricoeur, que me ajudou a entender mais sobre a experiência do corpo que flutua na água, em um ambiente sob pressão, e descobri como trazer isso para as minhas obras.” Hoje, ela participa de exposições e seus trabalhos podem ser vistos em dois ateliês em São Paulo, com obras que vão além da cerâmica. “Impressionante como a pós abriu meu leque.”

SEMPRE DIGITAL

“Não foi fácil mudar de área, mas ou eu corria atrás do que sempre desejei ou ficaria só na vontade.” É assim que Lucas Massao Muraoka define seu processo de transição profissional. “Acho que a minha geração é mais questionadora e temos menos problema em nos adaptar a ambientes novos”, diz ele, que, aos 24 anos, percebeu cedo a vontade de mudar de área.

Formado em Jornalismo, trabalhava como repórter no Jornal do Carro, d’O Estado de S. Paulo, mas ficava sempre de olho na universo digital. “Tinha afinidade com a área desde pequeno, porque acompanhava meu pai, técnico em informática, montando computadores e visitando clientes. Mas, mais do que a parte técnica, eu queria mesmo era criar novas maneiras de comunicar e se relacionar com as pessoas”, explica.

Buscar uma pós foi o caminho natural que encontrou para dar o primeiro passo na mudança de carreira, além da maneira mais rápida de entrar em contato com um novo mercado. Começou o curso de pós em Comunicação e Marketing Digital da FAAP e, em menos de um ano, foi convidado para integrar o Núcleo Digital do Estadão. “A pós serviu como um carimbo para me olharem de outro jeito, porque eu conseguiria conversar tanto com os jornalistas como com os designers e programadores da equipe, juntando minhas duas formações”, diz.

Para ele, as duas graduações se complementam: “Como jornalista, consigo saber com quem estou falando, como devo falar e como criar esse conteúdo, conhecimentos fundamentais para o marketing – você pode ter uma grande estratégia de divulgação de um produto, mas, se não souber como passar a mensagem, não tem nada”.

Foi pela indicação de um dos professores do curso que Lucas ficou sabendo de uma vaga como analista de marketing de um grupo de medicina diagnóstica. E foi escolhido para o cargo. “Uso anotações da pós todos os dias durante o trabalho. E também acesso um drive com apresentações dos professores”, diz ele, que cuida de estratégia de redes sociais e inteligência de mercado. “Devo o que tenho hoje à pós.”