Em um momento de mudanças profundas, a expert em macrotendências Iza Dezon olha para o presente e aponta em qual direção estamos caminhando

De certa forma, o trabalho de Iza Dezon é antecipar o futuro – ou possíveis futuros. A paulistana pesquisa macrotendências socioculturais e esboça o que está por vir nos negócios e em todas as formas de nos relacionarmos com o mundo. Iza é parceira no Brasil da Peclers Paris, uma agência francesa de previsão de tendências fundada ainda na década de 70, onde trabalhou por oito anos, em Paris, depois de estudar styling de moda em Milão e Londres e passar por marcas como as italianas Prada e Moncler. “Estudei e trabalhei com moda e, na Peclers, passei a atender mercados que eu jamais imaginei, como educação e mobilidade”, conta. Ao lado de uma equipe de 40 pessoas da agência – que inclui sociólogos, designers e artistas –, ela desenvolve o Futur(s), uma publicação anual de macrotendências socioculturais para um período que oscila entre os próximos dois e sete anos. “Buscamos entender o que o nosso
comportamento está dizendo sobre os nossos desejos e em que direção estamos caminhando”, diz Iza, que, entre muitas palestras, leciona há dois anos um curso livre na FAAP sobre cool hunting.

“Vivemos um momento de de incertezas, em grande parte à revolução digital, que é de extrema velocidade e que ampliou nosso olhar sobre o que está acontecendo no mundo. A nossa noção de sucesso e de felicidade, por exemplo, mudou. Tudo está em transformação.”

A seguir, Iza identifica mudanças comportamentais presentes nos dias de hoje e que apontam novos caminhos para o futuro.

Redefinindo identidades

“Parâmetros tradicionais deixarão de definir nossas identidades. Antes, ser uma mulher de 30 e poucos anos, que nasceu aqui e cresceu ali, desenhava um perfil. Hoje, o que realmente importa são as aspirações de cada um e seu estilo de vida, em vez de marcadores socioeconômicos. Devido a inúmeras oportunidades de hiperespecialização, uma pessoa que se dedicar a um assunto específico pode se tornar um expert, independentemente de sua idade, que deixa de ser o único parâmetro de experiência.”

Lixo zero

“Não podemos deixar de abordar a urgência da crise climática e a geração emergente, que chamamos de Nativos Ecológicos (liderada
pela sueca Greta Thunberg). Os jovens antenados já estão deixando de consumir produtos que não são ecoconscientes. Eles não querem desculpas, estão saindo da escola para se manifestar: ‘Não vou à aula hoje porque não terei futuro, caso eu não proteste sobre a crise climática. Não existe planeta B’. O movimento lixo zero é de extrema importância para repensarmos os produtos, processos e os negócios de amanhã. Mesmo que todos pratiquem a reciclagem, não será suficiente. Precisamos abordar com rapidez e seriedade
a hiperecologia (a adoção de práticas éticas e sustentáveis de forma macro e estrutural).”

Pós-mindfulness

“Estamos vivendo o hype do wellness (ou bem-estar), em meio a longas jornadas de trabalho e do desejo constante de sempre render mais. No entanto, temos que começar a olhar para os efeitos a longo prazo. Até 2050, estima-se que 25% da população mundial terá mais de 60 anos. Alguns chegarão aos 80, 100 anos, e as próximas gerações, até os 120 anos. Como vamos lidar com isso? Passamos
o tempo todo conectados e exaurindo a mente. Falamos muito de mindfulness, de consciência mental plena, mas estamos usando nosso corpo? Para nos mantermos saudáveis, precisamos começar a exercitá-lo e a escutá-lo. O corpo fala, não só a mente. Quando comemos, como nos sentimos? Quando andamos, como o corpo responde? Não é apenas uma questão de se exercitar, mas de verdadeiramente conectar-se com o corpo e suas capacidades sensoriais.”

Em busca do localismo

“Hoje, ao viajar para as megalópoles mais conhecidas do mundo, tudo parece estar homogêneo e pasteurizado: todo mundo está andando de patinete, comendo poke e fumando cigarros eletrônicos. Nasce então o desejo de conhecer destinos mais improváveis,
como o Butão ou Jalapão, para descobrir paisagens remotas onde existe diversidade cultural. Passamos a dar atenção e valor para aquilo que é local como uma nova forma de prestigiar e enaltecer saberes e tradições que, caso não sejam estimuladas, podem se extinguir.”

Propósito individual × coletividade

“Há muito tempo, buscamos o nosso próprio objetivo. Nunca falou-se tanto em propósito – uma tendência pós-millennials.
Mas será muito complicado realizar grandes objetivos se todos focarem exclusivamente no seu propósito individual, se não trocarmos e alinharmos esses objetivos. Como podemos capitalizar esse propósito de forma coletiva? Como fazemos para pensarmos e construirmos juntos?”

A importância das utopias

“É importante sonharmos, sermos otimistas. Ficamos esgotados com a enxurrada de notícias negativas que transitam em nossos dispositivos e nos jornais o dia inteiro. Isso afeta a nossa autoestima, positividade, o desempenho no trabalho e as nossas relações. Desafio todo mundo a procurar uma notícia boa por dia, pelo menos. Temos que construir espaços de reflexão para conseguirmos imaginar o dia a dia e o futuro de uma forma construtiva. Precisamos arquitetar um amanhã mais frutífero e interessante para todos, não só para o nosso benefício individual. É uma responsabilidade de todos.”

O negócio do amanhã

“Não deveria ser necessário comunicar que uma empresa tem impacto social, todas elas deveriam investir no bem-estar (pessoas,
comunidades, meio-ambiente…). Um negócio de impacto social não é uma ONG nem uma empresa que só pensa em lucro e resultado. É uma estrutura que consegue gerar receita ao solucionar problemas do coletivo. Este é o imperativo das empresas prósperas do futuro.”

Os favoritos

Psfk e Springwise
A PSFK é uma empresa novaiorquina que acompanha e relata tendências. Já a inglesa Springwise tem a inovação como foco. “São lugares onde busco inovação, novos materiais, novos projetos, protótipos, coisas inéditas que podem ser inspiração para
todo tipo de mercado”, diz a especialista.
www.psfk.com
springwise.com

The Good Life
A revista francesa trata de economia à arquitetura, passando por música e viagens. “Leio quando quero variar do universo de revistas
femininas, de moda ou de tecnologia.”
thegoodlife.thegoodhub.com