À frente do próprio museu, Marcos Amaro é um reflexo do que se vê nos corredores da FAAP: amor à moda, às artes visuais e ao empreendedorismo para alçar voos mais altos

Wichita (Kansas, Estados Unidos), 1991

Numa das salas da sede da fabricante de aeronaves Cessna, três homens tratam de sua especialidade: aviões. Um deles é o CEO da empresa americana; o outro, Rolim Amaro, o lendário comandante-fundador da TAM; e o terceiro tem 8 anos de idade. Munido de lápis de cor e folha sulfite, enquanto os adultos discutem temas menos excitantes, Marcos espera o pai terminar de trabalhar desenhando aeromodelos cheios de detalhes.

O filho temporão o acompanhava a toda sorte de reuniões de trabalho. Encerrada a daquele dia, caíram a caneta de pai e filho, os papeis rabiscados ficaram por lá mesmo, e ambos voltaram a São Paulo.

Algumas semanas se passaram até que Rolim recebeu um inesperado feedback daquele encontro. Eram tempos de carta, e, ao abri-la, deparou-se com os desenhos do filho acompanhados de um convite: “Mande o garoto para cá! Será muito bem-vindo no curso de engenharia aeronáutica da Universidade de Wichita”, eram essas as palavras do presidente da Cessna. O pessoal da fábrica achou que Marcos levava jeito para construir aviões.

A arte me ajudou a dar vazão a sentimentos, pensamentos, vivências, como uma síntese entre passado e atualidade

Itu (São Paulo, Brasil), 2019 Em outra fábrica, a mais de 15 horas de voo de Wichita, no árido interior paulistano, 25 mil metros quadrados do que restou de uma tecelagem do século 19 abrigam quase 2 mil obras de arte. Entre esculturas, que vão de Aleijadinho (1738-1814) a Tunga (1952- 2016), telas de Almeida Júnior (1850-1899) a Luiz Zerbini, há também expostas peças enormes de avião, soltas, desconstruídas, recheadas por plantas e entulho, creditadas a Marcos. Mas não só isso, sua assinatura vai adiante: é ela também que estampa telas, desenhos e o contrato social desse museu a céu aberto recém-inaugurado. Mais do que a realização do convite da Cessna ao menino que desenhava aviões, a Fábrica de Arte Marcos Amaro (Fama) é a realização daquilo que Marcos chama de propósito. “A arte me ajudou a dar vazão a sentimentos, pensamentos, vivências, como uma síntese entre passado e atualidade. Mas isto aqui é para mim uma dessubjetivação: para outros poderem ter ser seus próprios processos e se apropriarem deles.”

Ele, em seu ateliê, em Itu, atrás de uma carcaça de avião – a matéria prima das obras que assina

Memória

Entre os 8 e os 34 anos, Marcos traçou muitas rotas que o fizeram chegar até a Fama. Não foram itinerários de todo calculados, mas que, juntos, levaram à concepção de si enquanto artista e empresário. No início da adolescência, quando engatinhavam os anos 2000, apaixonou-se pela moda. Assim como acompanhava o pai nas reuniões da TAM, de pequeno, vivia no ateliê da mãe, a estilista Sandra Senamo. Mas só quando se mudou com ela para uma temporada em Nova York se entregou de alma àquela arte, tão diferente dos desenhos no papel. Observava o estilo nas ruas, os vários tecidos disponíveis nas lojas, vitrines tão diferentes das que via no Brasil. Não é de se estranhar, portanto, que dali a uns anos, aos 20, tenha se dedicado com afinco ao setor. Só que focado em óculos.

Recém-saído do curso de Economia da FAAP, Marcos, lançando mão dos conceitos e do networking trabalhados em sala de aula, trouxe ao Brasil a linha de eyewear da relojoaria suíça centenária TAG Heuer. “Surgiu a oportunidade de negócio e pensei: a marca era muito consolidada, tinha todo um trabalho de branding já realizado, e, além disso, o setor de óculos vinha com boas margens.” Em menos de um ano, as peças da TAG estavam nas cem principais óticas do país.

Apesar do sucesso profissional, paralelamente, na vida pessoal, ele enfrentava a dor da ausência do pai. Pouco tempo antes, em 2001, numa manhã de domingo, a queda do helicóptero que Rolim pilotava tirou sua vida, aos 58 anos. Marcos, então com 17, ainda vivia o fim da fase adolescente rebelde. Àquela altura, o garoto briguento não via muita perspectiva nem responsabilidade; gostava mesmo era de ir a Itu com o pai, visitar – e pilotar – os aviões antigos da TAM que eram guardados no aeroporto da cidade. Era um programa família, também na presença dos irmãos mais velhos, sempre regado a alegria. Agora, ecoava o vazio.

Ele era um rapaz dinâmico, criativo, eu diria visionário. O mais importante é que não se deixava levar por isso. Ele tem a qualidade de saber ouvir – Daniel Mandelli, tio e ex-presidente da TAM

O baque desorganizou a cabeça de Marcos. E ele se viu voltando aos mesmo corredores em que acompanhava o pai nas reuniões, na infância. Dessa vez, como trainee da empresa da família. “A TAM vivia uma crise grande. Eu quis enxergar de perto os passos do meu pai e acompanhar a reviravolta – que felizmente aconteceu. A faculdade me dava um aprendizado teórico complementar ao que eu estava vendo na prática. Mas foi um momento sobretudo de autoentendimento”, diz.

No dia a dia na TAM, aos poucos, a rotina corporativa foi domando seu espírito transgressor. E Marcos decidiu por não seguir carreira na empresa, entendeu que tinha desejo por uma experiência mais ampla, erguida por si só. “Alcançar algo construindo minha própria história”, como diz. “A rebeldia ajudou muito. Ela tem o lado bom de te tirar do cercadinho e fazer enxergar o mundo de uma maneira diferente. Mas eu precisava de um direcionamento mais produtivo.”

Encontrou respaldo em Daniel Mandelli, marido da irmã de seu pai, que assumiu a presidência da companhia após a morte do comandante. Tio Daniel virou um conselheiro e espécie de tutor de Marquinhos, como se refere ao sobrinho até hoje. “Ele era um rapaz, mas já muito dinâmico, criativo, visionário, eu diria. O mais importante é que não se deixava levar por isso. Ele tem a qualidade de saber ouvir, sempre teve respeito. Tanto que, depois, eu que fui trabalhar com ele. E aprendi muito”, afirma Mandelli.

Marcos usou a herança deixada por seu pai para abrir um fundo de investimentos e, com a holding, vendeu a fatia que lhe cabia da empresa. Pôs-se a reinventar sua experiência no ramo óptico. “Mudei de área no setor e comprei a Óticas Carol, uma empresa familiar, do interior, que seguia o modelo de franquias.” Munido do que aprendeu da implantação da governança corporativa na TAM, montou um conselho em sua empresa, com executivos de ponta.

Com a mão na massa, usando peças antigas de aeronaves para dar forma a esculturas que chegam a pesar 1 tonelada

Marcos repetia a fórmula que tinha dado certo com a TAG Heuer. Assumiu não só uma companhia, mas uma história de sucesso, de branding e posicionamento consolidados (postura que mais tarde, mais uma vez, replicaria com a galeria de arte Emmathomas, que comprou em 2017 e que já existia há mais de uma década).

A Carol valia R$ 40 milhões, e, à frente dela, Marcos espelhou o processo de profissionalização a que assistira na TAM. Em cinco anos, fez o mix de produtos aumentar, assim como o número de lojas, que quase triplicou, de 200 para 550. Em 2013, vendeu a marca por R$ 108 milhões.

Autoral, não individual

A postura “não personalista”, como Marcos a chama e que carrega consigo em suas empreitadas, permitiu, em 2008, que se dividisse à frente da Carol e de novos interesses. Afinal, apesar do bagageiro cheio, ele tinha só 24 anos.

Certo dia, depois de terminar a leitura de Quando Nietzsche chorou (1992), best-seller do psiquiatra americano Irvin D. Yalom que narra um encontro ficcional entre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o médico vienense Josef Breuer, mentor de Freud, Marcos quis estudar filosofia. Fez cinco anos de aulas particulares, inclusive com a filósofa pop Viviane Mosé, e resolveu abrir o leque. Enveredou também para a literatura e, por fim, conheceu o artista visual Rubens Espírito Santo, que, aos poucos, foi despertando a veia artística do menino dos aviões.

De início, Marcos voltou aos desenhos. (Em 2012, vendeu uma obra pela primeira vez, via Instagram: um exemplar figurativo, feito de carvão). Mas logo deu o passo adiante. “Nessa fase, mergulhei na questão da materialidade”, conta ele, que extravasou às esculturas gigantescas, de até uma tonelada. Como se já tivesse se esvaziado e preenchido de tantos novos aprendizados do lado de fora e, por dentro da sua própria fuselagem, precisasse se desmontar, Marcos passou a compor esculturas com asas, cabines e motores de avião.

Nessa fase teve também mais contato com a obra do pintor, desenhista e escultor Nuno Ramos, sua grande influência. “A estética do Nuno, do desgaste e do derretimento, me ajudou a compreender melhor o tempo, a aceitar a finitude das coisas. Entendi, por exemplo, que havia deixado até então meu lado artístico adormecido, porque o pragmatismo dos negócios precisava emergir. Isso também é muito importante. Foi assim que aprendi a ter uma conduta autoral, mas não por isso individualista.”

Teve um ateliê em Miami, em 2016, fez grandes exposições e participou de feiras de arte – numa delas, de arte contemporânea de Zurique, em 2015, conheceu a pianista clássica russa Ksenia Kogan, com quem se casou. Mas ele não vê a carreira de artista como uma prioridade. “Não sinto a necessidade de levar minha obra ao mercado. O que tenho é a necessidade da produção. Sou um artista mais institucional.” De dois anos para cá, as esculturas diminuíram de tamanho drasticamente (hoje pesam cerca de 50 quilos: “Tem a ver com a carga emocional. Me sinto mais leve”, afirma). Na mesma medida, aumentou sua participação no mundo da arte.

O Marcos é um chefe exigente, mas sabe fazer isso com carinho. Ele polvilha para todo mundo o senso de comprometimento com o propósito da Fábrica – Raquel Fayad, artista plástica e diretora-geral da Fama

Assim que conseguiu desenrolar o processo de três anos para a compra da antiga fábrica de tecidos de Itu, onde já mantinha um ateliê, próximo das lembranças dos passeios de avião com o pai, implementou a figura de um conselho para a Fama, repleto de nomes incensados, como a crítica de arte Aracy Amaral, o museólogo e ex-curador-chefe do Masp Fábio Magalhães e o galerista André Millan. O pesquisador Ricardo Resende é curador do museu, e a artista plástica Raquel Fayad, diretora-geral. “O Marcos é um chefe exigente, mas sabe fazer isso com carinho. Ele polvilha para todo mundo o senso de comprometimento com o propósito da Fábrica”, diz Raquel.

Sobrevoo

Católico ortodoxo praticante, Marcos tem a fala mansa e baixa, e se diz mais romântico que religioso. Há alguns meses, vive com a esposa, Ksenia, e os caçulas de seus cinco filhos, Marie Emmanuelle, 1 ano, e Massimiliano, 3 meses, numa casa no bairro do Jardim Europa. Também considera seu o filho de Ksenia, Alessandro, 8, que mora na Bélgica. De um relacionamento anterior, teve Pedro, 9, e Nina, 3. Apesar do sotaque e da confusão que faz entre os verbos ser e estar, a pianista russa esbanja vocabulário em português e fala com fluidez admirável.

Marcos também tem uma cadeira no conselho do Museu Brasileiro da Escultura (Mube), assim como assumiu há pouco outra na fundação instituto Iberê Camargo, uma no Instituto de Arte Contemporânea, (IAC) e ainda outra no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba. “Este é um tempo que quero dedicar para ajudar as outras instituições de arte no Brasil. Não adianta só o meu projeto estar bem. Quero irrigar as artes visuais com o melhor que posso.”

Obra da artistas plástica Carmela Gross, formada em Artes Visuais na FAAP, exposta nos mais de 20 mil metros quadrados da Fama

A Fama ainda não está pronta. Faltam algumas reformas nos galpões, que são tombados – como acertos nas paredes, no teto e na ventilação (já que, no verão, o calor de Itu beira a secura jerusalêmica). Mas já é possível visitar as obras, que só se multiplicam: no início, Marcos levou parte de sua coleção pessoal, com nomes como Caciporé Torres, Mestre Didi e Tomie Ohtake. Mas novas peças vêm sendo adquiridas e expostas (destaque para as obras da artista Regina Parra, que ano passado venceu um edital lançado pela Fundação Marcos Amaro). Há também criações produzidas lá mesmo, por artistas que se hospedam ou fazem residência na Fábrica. Personalismos à parte, hoje, o orçamento integral destinado à Fama soma R$ 6 milhões – tudo saído do bolso de Marcos. Ele diz que, em algum momento, criarão um fundo patrimonial, mas as metas agora são outras: 10 mil visitantes ao ano (nesses primeiros seis meses de existência, foram 2 mil expectadores) e a implementação do que ele chama de “bilheteria simbólica”, com ingressos a R$ 2, mas preço sugerido de R$ 10, “assim como funciona lá fora. Isso ajuda a valorizar o nosso trabalho”.

Enquanto artista, atualmente, ele tem dez obras suas expostas na galeria Luis Maluf, no bairro do Jardim Paulista, e, em breve, marcará presença na Paulo Darzé, em Salvador. Para satisfazer a necessidade constante de criar, mantém um ateliê na Fábrica. No espaço, restos de aviões dividem a cena com uma pequena escultura de Nuno Ramos, que além de objeto de admiração, também tornou-se admirador: “Acho muito legal esse tipo de coisa que o Marcos faz, bicho. Vivemos num país tão autodestrutivo, e de repente nos deparamos com alguém a fim de criar museu – em vez de queimar museu. O movimento dele está na contramão, só espero que não continue tão isolado. Porque ou a gente vai pra esse caminho, ou a barbárie impera de uma vez”, afirma Nuno.

Vivemos num país tão autodestrutivo, e de repente nos deparamos com alguém a fim de criar museu – em vez de queimar museu. Ele está na contramão, só espero que não continue tão isolado – Nuno Ramos, artista plástico

Enquanto a atitude de Marcos não se prolifera entre outros, ele mesmo dá à luz um novo feito. O Museu da Escultura Contemporânea Latino-Americana (Mescla) já engatinha também no interior paulista, em Mairinque, em 100 mil metros quadrados reservados à mostra de grandes esculturas. E seguirá o conceito de Earth Art, em que as obras se sujeitam às intempéries locais. Mais um recurso que demarca a efemeridade como condição para a preservação da arte. Marcos assina embaixo.