Depois de alcançar o topo da carreira em agências de publicidade, a ex-aluna da FAAP Gleidys Salvanha decidiu trocar a zona de conforto pelo imprevisível mundo digital — E virou diretora de negócios do Google Brasil

Todos os dias, Gleidys Salvanha se levanta às 6h15 para acordar a filha, Sophia. Assim que a garota de 14 anos vai para a escola, às 7 horas, ela medita por 20 minutos. Com a mente inspirada, segue para a sede do Google, em São Paulo. Ali, a diretora de negócios se divide entre análises de performance dos clientes, liderança da equipe e produção de projetos com os times de métricas, de produto e de suporte, além de treinamentos para gestão de pessoas, reuniões com os clientes e com o chefe, Fabio Coelho, presidente do Google no Brasil. Três vezes por semana, Gleidys ainda tem gás para praticar à noite no parque do Ibirapuera a mahamudra, atividade que mistura treino funcional, crossfit, corrida e ioga.

Desde que embarcou neste ritmo, há três anos, sua vida virou do avesso – do jeito que ela queria. Depois de duas décadas nas mais prestigiadas agências de publicidade, em que passou de estagiária a diretora-geral de mídia e atendimento, a publicitária de 47 anos mudou o foco. “O mobile talvez seja a maior revolução tecnológica da história após a internet. Toda sua vida está aqui”, diz, apontando para o smartphone. “Como é que você não vai se dedicar ao digital?”, questiona ela, que só desacelera nos fins de semana, quando viaja para a casa de campo com o marido, o cabeleireiro Nando Ardessore, sócio-proprietário do salão L’Officel 3.

 

Gleidys, no hall do Google, onde trabalha

O pique ela mantém desde os tempos de bailarina em Votuporanga, no interior paulista, onde viveu até os 18 anos. A executiva vem de uma família de artistas (seu pai é trompetista, um irmão toca saxofone, outro, violão) e feras em matemática – a mãe é professora e os irmãos se formaram na área de tecnologia. Antes de se mudar para São Paulo, Gleidys dava aulas de balé. A princípio, seu sonho era dançar e prestar vestibular para engenharia genética em Ribeirão Preto. Mas, durante o cursinho, resolveu prestar Publicidade e ficar na capital paulista. Em 1990, entrou no curso da FAAP. Logo conseguiu o primeiro estágio, no departamento de marketing dos Biscoitos São Luiz, na Nestlé. Um ano depois, a estudante trancou o curso para estudar francês na Suíça. De volta ao Brasil, em 1991, a Nestlé a convidou para retomar o estágio, mas ela só seria efetivada dali a três anos, depois de formada. Recusou. Enquanto encarava uma árdua procura por trabalho, recebeu uma ligação em casa. Alguém queria falar com a Vera. Ela explicou que a Vera não morava mais ali, mas o interlocutor insistiu até descobrir que não estavam falando da mesma pessoa. “Mas quem está falando?”, Gleidys perguntou. “É o Marcelo Nepomuceno, da W/Brasil.” Ela mandou: “W/Brasil? Então, deixa eu te falar. Estudo Publicidade e gostaria muito de um estágio. Já estagiei na Nestlé e morei na Suíça. Posso conhecer a W?”.

ALÔ, ALÔ, W/BRASIL

“Quanto mais trabalho, mais sorte tenho” é uma frase de Washington Olivetto que acabou virando o mantra de Gleidys desde que ela pisou na W/Brasil e ganhou seu primeiro estágio em agência, resultado de uma ligação por engano e certa cara de pau. “Vim do interior, não tinha ninguém para me indicar”, ela explica. E a garota logo deixou claro o que queria: trabalhar em mídia, ao contrário da maioria, que preferia criação. “Se não entendesse de mídia, ou seja, dos veículos em que as campanhas deveriam ser veiculadas, jamais poderia trabalhar com marketing novamente”, afirma. Na época, a teoria da faculdade a ajudou na prática. “Adorava as aulas de mídia da professora Elenice na FAAP. No terceiro ano, já na W/Brasil, tirava as dúvidas com ela”, lembra. “A Gleidys sempre me chamou a atenção porque já demonstrava muito interesse pela área de mídia naquela época, o que não era tão comum”, comenta Elenice Rampazzo, hoje também coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda.

 

 

Ao lado de Léo Macias, chief creative officer do Grupo DDB Colômbia, e Eco Moliterno, vice-presidente de criação da agência África, como jurados no Festival de Cannes em 2009

No fim, Gleidys trabalhou por 12 anos na agência de Olivetto, em três fases distintas: na primeira, ao longo de seis anos, foi de assistente a supervisora de mídia; na segunda, em 2000, voltou como diretora de mídia, após uma temporada como gerente de mídia na DPTO (“a agência mais digital da época”); e, na terceira, depois de três anos à frente do grupo de mídia da McCann Erickson, assumiu o posto de diretora-geral de mídia da W/Brasil, em 2007. Em 2008, ela ganhou o prêmio Caboré como profissional de mídia do ano. No ano seguinte, foi escolhida como a representante brasileira do júri de Media Lions no Festival de Publicidade de Cannes.

O mestre Washington Olivetto, hoje chairman da W/McCann, comenta sua evolução: “Acompanhei a Gleidys desde garota até as consagrações. Um dia, ela recebeu uma proposta da McCann, que agora se uniu à W, e foi porque era uma agência internacional. Falei: ‘Quando quiser voltar, você avisa’. Ela voltou. Em 2009, eu a indiquei para ser jurada em Cannes por seu profissionalismo”. Gleidys fala com afeto sobre a postura do mentor, de quem herdou o hábito de jamais chegar atrasada numa reunião: “Ele sempre defendeu o time dele e jamais resolveu problemas internos na frente do cliente. Fico feliz por ter crescido nessa cultura de respeito e ética”.

Patrícia Viotti, ao lado do marido Washington Olivetto, Gleidys e Paula Gartenkraut, em festa da W/Brasil

Gleidys ainda passou pelas superagências Young & Rubicam e Publicis, até que veio a inquietação. “Nas agências, talvez não estivesse tão aberta à oportunidade do digital. Mas isso estava passando na minha frente e, se não mudasse o curso, envelheceria.” Assim que tomou a “decisão drástica”, encarou o exigente processo seletivo no Google. Em 2013, entrou como diretora de desenvolvimento de agências do Google Brasil. Sua missão: levar as plataformas do Google – em especial, o YouTube – para a linguagem e as métricas dos profissionais de mídia das agências de publicidade. Deu certo.

Em 2015, Gleidys assumiu a diretoria de negócios nos segmentos de educação, mercado imobiliário e classificados. Agora, lidera um time focado em estratégias digitais das plataformas do Google para esses mercados e suas respectivas agências. E continua inquieta. “As tecnologias disruptivas aparecem aqui na mesma velocidade que ocorrem globalmente. Estar sempre correndo porque tem muita coisa nova pra ver é uma sensação ótima. A gente se pergunta o tempo todo: ‘E agora, o que vou ter de aprender?’.”

TIRO CERTO

CAMPANHAS QUE ACERTARAM O ALVO EM CHEIO, SEGUNDO GLEIDYS

MUITA COR
Para anunciar o lançamento de novas cores da marca mexicana de tintas Comex, esta campanha repaginou as fachadas de várias casas no México, utilizando ainda as ferramentas do Google Street View

NO RADAR
Esta campanha da Nivea distribuiu braceletes infantis com sensores para que as mães pudessem localizar os filhos na praia lotada, utilizando um aplicativo conectado ao acessório. Link perfeito entre a proteção das mães e do produto, com crossmedia entre digital e print.

BELEZA REAL
Criada a partir da Dove Real Beauty Sketches (Dove Retratos da Real Beleza), que ganhou notoriedade no YouTube e abocanhou 19 Leões em 2013, a campanha #MinhaBelezaMinhaEscolha prova que a iniciativa da marca continua consistente.