Dá para melhorar a mobilidade urbana? E o Minhocão, deve ser demolido? Como projetar uma cidade que promova a democracia? Para discutir essas questões, a FAAP reuniu Elisabete França, professora da FAAP, e Otavio Zarvos, ex-aluno e empresário, no útimo debate comemorativo dos 70 anos da fundação

Nos últimos quatro anos, São Paulo experimentou um debate fervoroso sobre sua organização urbana. A faísca que botou fogo no cenário político do país inteiro acendeu em junho de 2013, quando o Movimento Passe Livre protestou contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade. Encurralado por constantes manifestações da população civil, o então prefeito, Fernando Haddad, recuou no aumento. No entanto, intensificou a partir dali um plano de mudança do transporte: tirou o espaço e a velocidade dos carros e cedeu terreno aos corredores de ônibus, às ciclovias e ao pedestre – fechando grandes vias para o lazer aos fins de semana. Parte da população abraçou as mudanças, mas a maioria reagiu nas urnas na última eleição. O atual prefeito, João Dória, tinha como uma de suas bases de campanha atender as reivindicações de quem estava insatisfeito com o novo panorama. Em meio a toda essa turbulência, ainda foi discutido, votado e aprovado, em 2014, o novo Plano Diretor de São Paulo – que aponta as diretrizes de ocupação urbana da cidade até 2030. Anos de discussões intensas em mesas de bares, debates políticos ou almoços de família em que o urbanismo era o protagonista.

O assunto rende muito, como foi possível comprovar no debate “Urbanismo e a nova relação das pessoas com a cidade”, promovido pela FAAP em comemoração aos seus 70 anos. Os convidados para essa discussão foram Otavio Zarvos, graduado em Administração pela FAAP e hoje à frente da incorporadora Idea!Zarvos, e Elisabete França, Diretora de Planejamento e Projetos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP, que foi mediada por Rodrigo Serafino, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP.

“A gente tem uma coisa em comum: eu tenho que tentar viabilizar bons projetos de arquitetura autorais no mercado imobiliário, o que não é fácil, e ela tem que fazer isso com o poder público, que é muito mais difícil”, afirma Otavio. Elisabete conheceu Otavio quando trabalhava na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo. “Um dia fui no Secovi-SP [Sindicato da Habitação] e falei que tinha conhecido o Otavio. O pessoal falou: ‘Esse não tem futuro…’. Respondi que o público estava entrando no século 21”, conta Elisabete. “Hoje, tem várias pequenas empresas que estão seguindo esse modelo da Idea!Zarvos.” Confira agora os momentos mais marcantes deste encontro.

RODRIGO SERAFINO_ Algo que me chama a atenção é a mudança de estilo de vida, pensar nas pessoas e em como posso contribuir para a vida delas. Já vi empreendimentos onde se cria uma área comum de trabalho. Por que você precisa ter uma furadeira se a gente vai usar isso uma vez por ano? Por que a gente não tem uma furadeira coletiva? São novas formas de interagir como seres humanos e que geram espaço, desenho, economia e formas de as pessoas se relacionarem. Como é que vocês enxergam essas novas formas, nos dois lados, tanto olhando pelo Estado, quanto pelo empreendimento?

ELISABETE FRANÇA_ Acho importante discutir como é esse sujeito pós-moderno. Não tem na cidade mais branco e preto, esquerda e direita, homem e mulher, tudo mudou. Você tem tribos nas cidades. Acho que caberia ao poder público pensar nessas tribos, mas é muito difícil isso. O que é fazer uma casa para motoqueiro? E as famílias? Como são as famílias hoje? Dois filhos, dois quartos? Nem dá para conceituar o que seja uma família hoje em dia. Mas o poder público ainda insiste: dois quartos, sala, lavanderia. Alguém usa lavanderia hoje em dia em casa? As mulheres gostam de lavar roupa? Não, né. Na escola, a gente tem que abrir as mentes. No Estado já é mais difícil porque mudar a gestão pública não é uma tarefa fácil. É tudo muito consolidado. E na iniciativa privada é mais fácil. Gostaria que os alunos se formassem com essa ideia na cabeça.

Na escola, a gente tem que abrir mentes. No Estado já é mais difícil porque mudar a gestão pública não é uma tarefa fácil. Gostaria que os alunos se formassem com essa ideia na cabeça – Elisabete França, professora da FAAP

OTAVIO ZARVOS_ Tenho um desafio como empreendedor: preciso fazer uma coisa que tenha um resultado meio que imediato. Isso significa sonhar, projetar, construir e vender. Ao mesmo tempo, procuro, como cidadão e como pessoa, deixar um legado, imaginar como aquilo pode ficar para as gerações futuras. Sempre procurei ter um norte que me ajude dos dois jeitos. As grandes cidades são esse norte para mim. Acho que a gente entrou em uma era em que, cada vez mais, as pessoas estão procurando o encontro e, obviamente, isso é muito mais fácil quando a gente tem densidade. O que a gente precisa é preparar a cidade para ser um terreno fértil para que isso aconteça.

PLATEIA_ Existem três discussões recorrentes que tiram o sono de todas as últimas administrações municipais, que acho que podem ser emblemáticas do ponto de vista de transformação social, para fazer com que o cidadão paulistano possa se envolver. Eu citaria o caso do Estádio do Pacaembu, da Cracolândia e do velho Minhocão (veja box na pág. 49). Como ampliar essa discussão para que a cidade compre a ideia de transformação, de mudança?

ELISABETE_ O Pacaembu é aquela coisa, “não no meu quintal”. É claro que tem que ser transformado em um supercentro esportivo, mas aí o morador acha que faz barulho, vai lá no Ministério Público e o MP diz que está proibido.

Quando a gente vai fazer um prédio, é importante ter flexibilidade porque você não sabe como vai ser a cidade daqui a dez ou cem anos. Um prédio tem que servir para morar, para ser uma biblioteca, uma escola, um escritório, ainda que, no primeiro momento, tenha uma perda de eficiência – Otavio Zarvos

OTAVIO_ O estádio do Pacaembu é o típico exemplo de uma infraestrutura feita em um determinado momento, com uma geração, que, vamos dizer, meio se apoderou desse ambiente aqui. O bairro se tornou um lugar de classe alta e o estádio foi deletado. Nele poderia ter encontros, eventos, uma série de coisas. Pela infraestrutura que tem, aquilo é um lugar pra ter gente o dia inteiro.

ELISABETE_ Quanto ao Minhocão, acho que ele tem que ser demolido. Claro que não vai ser demolido amanhã, mas deveria existir um plano de médio ou longo prazo porque é preciso ter um exemplo de que é possível destruir estruturas que causam mal à cidade.

OTAVIO_ Falar sobre o Minhocão é fácil porque ninguém daqui mora lá. Não mora mais rico lá, mora o pessoal mais pobre. Então, se vai virar um parque ou se vai demolir, tudo bem, pra gente não faz diferença. Acho que a minha geração e a geração acima da minha têm uma incapacidade de refletir e de tomar esse tipo de decisão. Somos incapazes de tomar um rumo correto pelo preconceito, pela cabeça das pessoas.

ELISABETE_ Já o caso da Cracolândia, acho que isso é tratado com uma simplicidade de dois lados. Eu trabalhei lá em um programa de cortiços por quatro anos. Aquilo ali é a porta do inferno. Fiz umas vistorias no ano de 2008 com um diretor. Na quarta vistoria, não aguentei. Você entrava em um cortiço e tinha dez pessoas drogadas e um rato comendo o pé da pessoa. Aí você entrava em outro lugar e tinha meninas de 12 anos fazendo programa. É um lugar que não deveria existir. Aí você abre o jornal e vê “internação compulsória ou não”. Não é assim a discussão, é um negócio muito difícil. Aqueles cortiços têm que ser demolidos. Aquilo lá é um antro da exploração, da droga, os traficantes dominam tudo aquilo – eles são os piores que têm na cidade de São Paulo e são de uma violência… O que eles matam de gente lá por dia a gente desconhece – não sai no jornal porque não interessa a ninguém! Claro que o poder público tem que ter um superprograma para atender essas pessoas, mas acho que a gente está na fase infantil dessa discussão. Não dá para admitir que exista isso na cidade de São Paulo. A gente tem riqueza o suficiente para resolver.

O QUE A GENTE QUER

ELISABETE_ É muito difícil conceituar o mundo hoje. O instituto Locomotiva, do Renato Meirelles [ex-aluno de Publicidade da FAAP], fez recentemente uma pesquisa e juntou com outra que a fundação Perseu Abramo, do PT, fez para entender os eleitores. E é engraçadíssimo: o eleitor quer ser classe média, quer enriquecer, quer estudar. Tudo isso que a gente imagina – que o brasileiro gosta do Estado ajudando, dando bolsa isso, bolsa aquilo – as pessoas mais pobres não querem. Querem que os seus filhos estudem, que virem empregadores etc. Acho que essa aproximação com essa 
pós-modernidade é fundamental.

Acho que o Minhocão tem que ser demolido. É preciso ter um exemplo de que é possível destruir estruturas que causam mal à cidade – Elisabete França

PENSE NISSO

OTAVIO_ Eu citaria quatro coisas importantes para vocês, como arquitetos, ficarem pensando um pouquinho. Primeira coisa: juntar ricos e pobres. Trazer a população mais pobre para onde estão os melhores empregos, a melhor educação na cidade, de modo que isso catalise uma mudança de ambos os lados. A segunda coisa é pensar individualmente nos bairros com relação às suas vocações. A cidade é um produto. Você tem que entender qual é a vocação dela para dar o remédio certo e colocar energia no lugar certo. A terceira coisa é que uma cidade grande tem a escala econômica que proporciona ter equipamentos que, às vezes, você não pode ter em cidades muito menores: uma grande universidade, um centro de tecnologia, polos de exposições. Isso é uma coisa que, infelizmente, ficou fora do Plano Diretor. Em 15 anos, é enorme a probabilidade de que áreas grandes, que ainda são poucas, mas que existem em São Paulo, desapareçam, dando lugar a um condomínio de prédios residenciais e comerciais. Daí, erroneamente, as pessoas começam a levar esses equipamentos para outras cidades que não têm escala para ter isso e são, de certa forma, concorrentes da nossa cidade. A última coisa é: quando a gente vai fazer um prédio, é importante ter flexibilidade porque você não sabe como vai ser a cidade daqui dez, 20 ou cem anos. O ideal é que a edificação permaneça porque ela custou para ser feita e demolir e fazer de novo é uma perda de energia absurda. Um prédio tem que servir para morar, para ser uma biblioteca, uma escola, um escritório, ainda que, no primeiro momento, tenha uma perda de eficiência.