Ex-aluna de Artes Plásticas, Luciana Brito decidiu não ser artista. Hoje à frente de uma das principais galerias do país, representa grandes nomes, como Geraldo de Barros e Marina Abramović

Mineira de Uberaba, filha de fazendeiros pecuaristas, Luciana Brito foi pioneira na sua família ao se aventurar pelo mundo das artes plásticas. Seus pais não tinham ligação nenhuma com essa área, mas ela – desde pequena – quis estudar artes. Hoje, a ex-aluna da FAAP dirige uma das principais galerias de arte contemporânea do país. “Meu pai tentou mudar minha cabeça, ele se preocupava onde eu ia achar trabalho, não conhecia nada desse mundo. Eu disse: ‘De jeito nenhum’. E entrei na FAAP.”

Seu universo começou a se expandir na faculdade, onde se formou em 1983. “No meio da faculdade, percebi que era muito difícil ser artista e, quando estava no penúltimo ano, tranquei o curso e fui estudar história da arte na École du Louvre, em Paris”, conta. Impressionada com os projetos de arte-educação nos museus franceses, voltou empenhada em desenvolver algo com esse objetivo. Assim, fez seu trabalho de conclusão de curso em parceria com os colegas Monica Nador, hoje artista da Luciana Brito Galeria, e Martin Grossman, atual diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Idealizaram juntos a implantação de um serviço educativo no Museu de Arte Contemporânea da USP. Foram aprovados na faculdade e pelo MAC, que após conhecer a ideia os convidou a trabalharem lá para realizar o projeto. “Essas primeiras reflexões na arte dentro da faculdade têm muito a ver com o que faço hoje”, analisa Luciana, com a experiência de seus 54 anos. “Na minha visão, o galerista faz também um trabalho educativo. Represento os artistas, trabalho muito próxima deles, e minha missão é viabilizar suas ideias. A venda é uma mera consequência.”

Luciana Brito na reserva técnica da galeria, onde guarda as obras

Depois de cinco anos no MAC, decidiu trabalhar em uma galeria. “Foi também por uma questão de sobrevivência. Era difícil trabalhar em museu e viver daquilo”, explica. Pediu emprego na Galeria Raquel Arnaud, uma das mais importantes de São Paulo e que tinha os artistas de que mais gostava, como Lygia Clark, Mira Schendel e Waltercio Caldas. Ficou lá até 1992, quando resolveu trabalhar como marchand independente. Nesse momento, a rede de contatos que criou enquanto cursava a FAAP foi de máxima importância. Passou a representar artistas como Nelson Leirner e Regina Silveira, que foram seus professores na faculdade. A amizade com a artista Fabiana de Barros, sua colega de faculdade, lhe permitiu ser marchand da obra do pai dela, o pintor e fotógrafo Geraldo de Barros, um dos pioneiros da fotografia moderna no Brasil. “Tive a sorte de estar num momento muito importante de pessoas que trabalhavam na FAAP”, diz. Em 1997, juntou os trapos e os quadros com Fabio Cimino, seu namorado e parceiro como marchand na época, e abriu a Brito Cimino. Mas, com a separação do casal, em 2009, a dupla se desfez e o espaço ficou sob seus cuidados e com o nome de Luciana Brito Galeria.

Vista do salão principal da galeria

Marcos Moraes, coordenador dos cursos de Artes Visuais e da Residência Artística da FAAP, lembra que Luciana faz parte da chamada Geração 80, um dos principais momentos artísticos no Brasil. “Ela é uma das pessoas que não trabalhou como artista e hoje, depois desses 30 e tantos anos de atuação, dirige uma das principais galerias de arte contemporânea do país.”

O nome de peso internacional representado por Luciana é o da sérvia Marina Abramović, uma das mais importantes artistas de performance do mundo. Quando expôs no Brasil pela primeira vez, em 2008, Marina não era uma celebridade como é hoje. A aposta de mostrar a obra dela aqui foi de Luciana. “Já admirava muito o trabalho da Marina quando ela veio ao Brasil fazer uma palestra”, lembra. “A curadora que a trouxe era minha amiga, fomos apresentadas e daí veio o convite para fazer uma exposição. Acho que tive um pouco de visão de perceber que a performance estava tomando aquele caminho.” A parceria rendeu e culminou este ano na enorme mostra Terra comunal, em cartaz até 10 de maio no Sesc Pompeia, e na terceira individual da artista sérvia na Luciana Brito Galeria, a exposição Places of power, aberta ao público até 16 de maio.

Luciana ao lado da artista sérvia Marina Abramović, representada no Brasil pela ex-aluna da FAAP

São mais de 30 anos trabalhando com artes plásticas no Brasil e, hoje, ela vê um mercado ainda melhor para quem sai da faculdade. “Tem muito trabalho para quem está se formando, porque a gente precisa de mão de obra especializada para tudo, desde curadoria até o transporte da obra de arte”, afirma. “Acho que a gente está na melhor área, no melhor lugar do Brasil, e agora do mundo, para trabalhar com arte. Temos que aproveitar esse momento.”

ALTA PERFORMANCE

EX-ALUNA DA FAAP, PAULA GARCIA, É OUTRA GRANDE APOSTA DE LUCIANA

Formada em Artes Plásticas em 2005, Paula Garcia, 40 anos, é representada pela galerista há cinco anos. “Acredito na arte que ela faz. Estamos nessa viagem juntas”, diz Luciana, que conheceu melhor seu trabalho na exposição Galeria expandida, que contou com perfomance sonora. Nela a artista estava coberta de metais, e os ruídos eram emitidos pelos ferros ao caírem e baterem no chão.

Paula vem trabalhando com perfomance há vários anos. Sua trajetória começou no teatro: estudou no Teatro Escola Célia Helena e trabalhou com José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina. “Sabia que teatro não era a minha linguagem”, explica Paula. “Quando comecei a experimentar performance e via o Maurício Ianês [artista plástico] fazendo isso e estudando também na FAAP, percebi que ali seria um lugar onde eu poderia aprofundar um estudo e começar a desenvolver trabalhos nessa linha.”

Na faculdade, Paula também construiu sua rede de contatos: a curadora e crítica de arte Christine Mello foi sua professora e lhe apresentou Luciana Brito. “Paula sempre foi extremamente focada nos objetivos dela”, lembra Marcos Moraes, que também foi seu professor. “Havia uma certeza de que ela iria se dedicar efetivamente de corpo e alma, porque sempre se envolveu de uma forma muito intensa.”

Seus trabalhos recentes envolvem magnetismo e metais. Em 2014, apresentou na Suíça uma performance em que vestia uma armadura de metal magnetizada, na qual seus assistentes atiravam pregos e objetos metálicos.

Luciana ajudou Paula com um passo fundamental na carreira: a apresentou para Marina Abramović. Hoje, Paula vive em Nova York, onde trabalha no instituto de Marina. Na exposição da artista sérvia no Sesc, ela foi assistente de curadoria e ainda apresentou uma performance própria. “O galerista tem que acreditar no artista e viabilizar sua obra”, explica Luciana. “Seu último trabalho, na exposição da Marina, no Sesc, está muito bem executado. Muito forte.” Paula completa: “Sinto que estou construindo alguma coisa com Luciana e é uma construção de uma vida, a longo prazo.”