Em sua obra “Ensinando a Transgredir” – publicada em 2017 pela editora Martins Fontes –, a autora, professora universitária e intelectual, bell hooks (sim, com letras minúsculas mesmo) aponta novos caminhos para a educação universitária. hooks já desafia as convenções da linguagem ao pontuar seu nome sem as iniciais em letras maiúsculas, afirmando que essa seria uma forma de dar enfoque ao conteúdo de seus escritos e não à sua identidade.

Contrariando os paradoxos da academia, hooks, de família pobre, mulher e negra, se tornou professora universitária e grande entusiasta de um novo tipo de educação, o conhecimento como prática da liberdade. A autora salienta que ao se trabalhar e operar na pedagogia, os pensadores críticos precisam aliar a teoria e a prática com o propósito de diluir as fronteiras disciplinares. E para isso precisam estabelecer uma nova relação com o poder identitário da nomenclatura “professor universitário”. Para muitos, ser professor é estabelecer uma identidade fixa, e não questioná-la. O não questionamento provoca um afastamento entre corpo e mente, incorporando, assim, uma noção de que o intelecto do professor tem uma importância muito maior do que seu corpo físico. De acordo com a autora: “A noção tradicional de estar na sala de aula é a de um professor atrás de uma escrivaninha ou em pé à frente da classe, imobilizado” (hooks, 2017, p. 184). Esso corpo de conhecimento estático se relaciona à imutabilidade da verdade. Não importa se esse corpo está vestido com roupas rasgadas, sujas ou amassadas, se a mente estiver funcionando, é isso que o torna plausível de apreciação.

Acho que uma das razões pelas quais todas as pessoas nesta cultura, e os alunos em geral, tendem a ver os professores universitários como gente que não trabalha é com certeza essa sensação do corpo imóvel. Parte da separação de classes entre o que nós fazemos e o que a maioria das pessoas nesta cultura pode fazer (serviço, trabalho, labuta) é que elas mexem o corpo. (hooks, 2017, p. 184).

hooks, a partir do que ela denomina como pedagogia libertadora, opera na transformação desse contexto. Para ela, o professor deve se apropriar de seu corpo em sala de aula, largando mão de sua posição de poder atrás do púlpito ou de sua escrivaninha e de alguma forma, exercendo uma relação mais próxima com seus alunos. E isso pode ocorrer por meio de uma simples mudança no posicionamento das carteiras, ou com a prática simples de incluir a experiência pessoal durante a aula, ou então, talvez um dos aspectos mais importantes: o de dar voz aos alunos, de reconfigurar esse papel e torna-los ativos na sala de aula. Além disso, cabe ao professor o papel de ensinar esses alunos a não só falar, mas também ouvir; ouvir uns aos outros. O saber, como muitos de nós já sabemos, é essencialmente troca. Nas palavras de hooks “Cresço intelectualmente ao lado deles, desenvolvendo um entendimento mais nítido de como partilhar o conhecimento e de o que fazer em meu papel participativo com os alunos” (2017, p. 204).

Nathalie Hornhardt, Núcleo Interdisciplinar de Professores