Do improviso à frente das câmeras como o homem do tempo ao cargo de diretor de conteúdo e parcerias do YouTube no Brasil, o ex-aluno de rádio e TV Eduardo Brandini vem revolucionando os lugares por onde passa com sua paixão por tecnologia

Antes de completar 10 anos, Eduardo Brandini se deparou com um objeto definitivo para sua carreira: uma filmadora Panasonic M3, modelo em VHS, comprada pelo pai para uso da família. A partir dali, entusiasmado, Eduardo passou a ser jornalista doméstico e cinegrafista de festas de aniversário. “Registrava as cenas do dia a dia, fazia entrevistas com os parentes e filmava os encontros. Aprender a mexer na câmera me deu gosto pela coisa”, lembra Brandini, formado em Rádio e TV pela FAAP. O interesse por essa tecnologia nunca mais o abandonou. Tanto que conhecer as máquinas com que se maneja a informação tornou-se o grande distintivo do profissional, que, aos 35 anos, já passou por quatro grandes emissoras de televisão e hoje ocupa uma posição que muitos gostariam de ter: o de diretor de conteúdo e parcerias do YouTube no Brasil.

Na sede da plataforma de vídeos, em São Paulo, dedica boa parte do tempo a se reunir com executivos de televisão e “celebridades” do YouTube. Seu trabalho é dar suporte a donos de grandes canais e fechar acordos com a mídia tradicional. “Aqui faço as duas coisas que mais gosto: discutir conteúdo e respirar tecnologia”, diz Brandini, no cargo há pouco mais de um ano. Para ele, estar no YouTube é o pico de uma trajetória singular que uniu conhecimento técnico, bom networking, espírito de liderança e talento jornalístico. “Apesar de tímido, ele se destacava da maioria. Muito curioso, ele colava nos operadores de som e se envolvia muito além dos 50 minutos de aula. Não é todo mundo que é assim”, lembra o professor da FAAP Alexandre Tondella, que lhe deu aulas de sonoplastia. “Estudar na FAAP fez toda a diferença. Seu parque tecnológico é fantástico, nas aulas a gente tinha acesso ao que se usava no mercado. E, mais que isso, a FAAP é garantia de um bom networking”, diz o ex-aluno.

Percebi cedo que as coisas estavam mudando e não queria estagnar. vi que esse lado da internet ia bater na tv e o que fiz foi ler muito sobre isso. enxerguei no digital uma chance de me destacar – Eduardo Brandini

Foi, inclusive, uma colega de sala que o indicou para o primeiro trabalho, em 2000, no SBT – casa de seu grande ídolo, o apresentador Silvio Santos, de quem guarda um autógrafo. Os tempos eram de crise e o chefe Raimundo Lima, hoje diretor técnico e de operações do SBT, não tinha uma grande equipe. “Era editor executivo de jornalismo e trabalhava suportado basicamente por dois estagiários, o Eduardo, um deles”, lembra. Essa dificuldade foi um ótimo terreno para identificar o talento do rapaz. “Passei a dar tarefas muito acima do cargo e eles me devolviam como profissionais. Deu certo.” Brandini ficou os quatro anos seguintes no canal e foi promovido. Quando Lima partiu para a Band, contratou o ex-pupilo como coordenador de produção.

Arquivo Pessoal

O HOMEM DO TEMPO

Ao chegar na Band, a casa fazia ajustes para se adaptar à virada do milênio e uma das novidades foi o uso do cenário virtual, o chroma key. Muito usada na previsão meteorológica por permitir que o apresentador interaja com o mapa do Brasil, por exemplo, a tecnologia começava a ser implementada em 2004. Brandini se envolveu na mudança desde o início e, por causa de um imprevisto, teve de mostrar jogo de cintura, além de conhecimento. Ele era um dos únicos familiarizados com a operação – feita às cegas, num estúdio todo pintado de verde – quando a então moça do tempo se feriu num acidente de carro. “Por três meses virei literalmente o homem do tempo”, diverte-se Brandini, sobre a sua breve e única experiência em frente às câmeras.

A verdade é que, apesar de preferir trabalhar nos bastidores, Brandini sempre encarou bem os desafios. “Ele topa qualquer parada. Nunca o ouvi dizer ‘não faço isso ou aquilo’.

Nas redações, pessoas que colocavam a mão na massa, como ele, costumavam sofrer preconceito de quem só quer produzir o conteúdo. O Brandini entendeu que as duas coisas eram essenciais: dar a informação correta e transmiti-la bem. Ter feito Rádio e TV o ajudou muito nisso”, afirma o ex-chefe Lima. Fernando Vieira de Mello, na época diretor de jornalismo na Band, também engrossa a lista de elogios ao comunicador. “No dia da morte do [papa] João Paulo II, começamos uma transmissão ininterrupta, com dois correspondentes na Itália. Tivemos de nos multiplicar por aqui. Eu fui para o switcher e o Brandini ficou como editor. Ele foi pegando os conteúdos da redação e botando no ar, orientando o [Carlos] Nascimento com um timing muito bom. Aquilo chamou a minha atenção. Não tinha nada programado, ele foi fazendo. Na hora pensei: temos um talento na casa.” Quando isso aconteceu, em 2005, Brandini tinha apenas um ano na Band. “Essas situações não previstas, que têm a pressão da emergência, são a minha parte preferida no jornalismo.”

DE OLHO NO FUTURO

Mais tarde, quando a chefia do jornalismo ficou vaga, Vieira de Mello quis modernizar o canal e apostou no jovem com quem já trocava figurinhas sobre o futuro. “Começávamos a viver o mundo digital e eu precisava de alguém que me desse um olhar preciso sobre a tecnologia”, lembra. Na época, transmissões internacionais dependiam 100% de satélites e fazer coberturas ao vivo tinha seu preço. “Era tudo caro e eu queria soluções baratas. Dava a minha demanda e o Brandini ia atrás de viabilizar”, afirma. Uma das ações que surgiram foi o Band Repórter Celular, uma experiência com um primitivo aparelho da Nokia com funções de imagem. “O Brandini e o produtor Juliano Nunes trabalharam no software e passamos a mandar o repórter Pedro Mota para a rua com um celular. Na época ninguém fazia isso. Toda vez que ele entrava ao vivo, a audiência invariavelmente subia”, lembra Mello.

Está no dna da FAAP formar alunos empreendedores e o brandini era um deles. É um cara jovem e bem realizado profissionalmente que serve de modelo para os alunos – Vagner Anselmo Matrone, professor e coordenador do curso de Rádio e Tv

O interesse pela tecnologia vinha desde a infância de Brandini. Dezesseis anos mais novo que a única irmã, desde pequeno brincava com câmeras e lia tudo o que encontrava sobre carros, interesse que dividia com os amigos.

Nos estúdios da faculdade, a coisa tomou forma. “Percebi cedo que as coisas estavam mudando e não queria estagnar. Vi que esse lado da internet ia bater na TV e o que fiz foi ler muito sobre isso. Enxerguei no digital uma chance de me destacar. Deu certo.”

Marcos Vilas Boas

Como coordenador de tecnologia e produção na Band, o rapaz de 25 anos participou de mudanças significativas na emissora, como a extinção das fitas de vídeo, os VTs. Da captação de imagens à edição, tudo passou então a ser feito pelo computador. Era algo para que vinha se preparando. “Comecei a encher o saco do chefe para me mandar às feiras internacionais. Desde 2006, fui anualmente à NAB, a National Association of Broadcasters Show [nos Estados Unidos]”, diz Brandini, que nunca abandonou o lado estudioso. Antever o futuro e, mais ainda, estar pronto para ele, passou a fazer parte do seu currículo. “Se você consegue ver para onde o equipamento caminha, prevê para onde avança a produção. Steve Jobs dizia que daqui a dez anos as pessoas vão usar produtos que não conhecem hoje. Se eu contasse a você sobre um celular com internet, câmera e TV antes, você me diria ‘para quê?’. Em 2007, legal era ter o menor aparelho possível.”

Além de suas passagens pelo SBT e Band, Brandini também passou pela TV Cultura, levado pelo antigo chefe Vieira de Mello, que assumiu a vice-presidência de conteúdo em 2010. Lá, como coordenador de novas mídias, continuou com suas façanhas com
a missão de modernizar a TV pública. “Naquela época, em 2010, a atenção do telespectador, que já se desdobrava com o celular, ganhou mais uma atração, o iPad. O que muitos enxergavam como concorrência, precisava ser visto como oportunidade”, diz Brandini. Sua estratégia foi juntar os dois mundos e apostar na interação entre telespectador e TV. “Se a pessoa já vai ter um device na mão, que seja para conversar com o nosso conteúdo.” Assim, a emissora entrou no mundo da second screen, ou “segunda tela”, o que inclui convidar o telespectador a participar de ações no site ou a usar o celular para enviar mensagens em tempo real à redação. Assim, o Jornal da Cultura e o programa infantil Cocoricó fizeram alguns dos primeiros usos da dinâmica digital. “A TV não vai acabar por causa da internet, não acredito nisso. O que muda é a forma de transmitir.”

TROCANDO PAPÉIS

Com dois anos de casa, Brandini – com então 30 anos – foi convidado para assumir a vice-presidência de conteúdo. E, da noite para o dia, virou o chefe de pessoas com décadas de experiência, entre eles, os dois ex-professores da FAAP Alexandre Tondella e Vilmar Bittencourt. “Não precisa dizer que ele é o chefe, Brandini tem uma liderança natural”, diz Tondella. O menino prodígio usou a nova posição para dar liberdade e testar soluções. “Nunca se teve tanta tecnologia como na época dele. A sua sala tinha cinco monitores, todos sempre ligados. Foi ótimo trabalhar com ele”, diz Tondella. Lá, fez parcerias com o YouTube, que passou a transmitir todo o conteúdo do canal, e bolou um debate com o jornal O Estado de São Paulo nas eleições para prefeito de São Paulo em 2012. “Ser livre para arriscar e ter novas ideias é o que me leva a ter empatia com as pessoas. O Brandini é assim. Ele tem muita curiosidade”, afirma o cineasta Cao Hamburguer, criador do Castelo Rá-Tim-Bum, programa da TV Cultura. “Cresci assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum e, de repente, me vi trabalhando na mesma casa que os meus ídolos. Foi demais!”

Ser livre para arriscar e ter novas ideias é o que me leva a ter empatia com as pessoas. O brandini é assim. Ele tem muita curiosidade – Cao Hamburguer, cineasta e criador do Castelo Rá-Tim-Bum

É com lembranças da infância, época em que jogava Atari com os amigos, via os programas infantis da Cultura e pedia para o pai assinar a revista Quatro Rodas, que Brandini constrói sua visão sobre a comunicação nas nossas vidas. O futuro da informação soa sempre como bem-vindo. Seja ela produzida por grandes emissoras de televisão ou pulverizada em vídeos de internet que nos ensinam a fazer de um tudo, enquanto nos divertem e nos influenciam. “Ia adorar se, na minha época, pudesse assistir a alguém passando de fase no videogame”, diz, referindo-se a um nicho gigantesco no YouTube, em que mestres do jogo se filmam sozinhos ou competindo. O maior campeonato on-line, o League of Legends, chegou a ter assombrosos 36 milhões de espectadores em uma final – mais do que a NBA, a liga de basquete americana.

Marcos Vilas Boas

Brandini se prepara para assumir outro papel importante, agora longe das câmeras e vídeos. Em novembro, ele se casa com a relações públicas Renata Torres, que conheceu em 2011, quando atravessava a rua. “Estou numa fase muito feliz. Há seis anos deixei o jornalismo diário das emissoras de TV, aquela arena eletrizante e de sacrifício – e que eu adorava –, para encarar novos desafios nas mídias digitais, mas não só por isso. Também queria ter mais tempo para mim e para minha família. Agora, quero mais do que nunca.”

DE VOLTA ÀS ORIGENS

Desde 2011, Brandini voltou a frequentar as salas de aula da FAAP, mas agora vivendo um outro papel – o de professor. “Desde que me formei, queria dar aulas. Tenho a influência da minha mãe, que era professora de educação artística e música”, conta. Para a FAAP, convidá-lo para ser professor era algo mais que esperado. “Está no DNA da FAAP formar alunos empreendedores e o Brandini era um deles. É um cara jovem, bem realizado profissionalmente e que serve de modelo para os alunos”, avalia o professor Vagner Anselmo Matrone, coordenador do curso de Rádio e TV.

Além da inspiração familiar, outro aspecto o motivou a seguir por esse caminho acadêmico. “Ser professor é a melhor maneira de aprender e me manter atualizado. Meu desafio é encarar jovens de 17 a 21 anos que têm muito mais tempo que eu para acessar informações. Eles são provocativos, trazem questões sobre ferramentas que, às vezes, surgiram naquela mesma semana. Me sinto forçado a me atualizar”, diz. Na área da inovação tecnológica, a idade importa menos do que a vivência. “Respeito os jovens. Dou aula pensando que esse moleque vai ser meu chefe ou vou perder o emprego para ele. A barreira da idade não é importante, o que vale é o knowhow.”