Como a economia criativa está transformando a forma de fazer negócios no mundo todo

Em 2012, o grafiteiro Mundano lançava um projeto que concilia arte, ação social, sustentabilidade e financiamento coletivo. 
O Pimp My Carroça surgiu com o objetivo de dar visibilidade aos catadores que ajudam 
a reciclar o lixo produzido nas cidades. 
A ideia era mapear os carroceiros que recolhem material reciclável e turbinar suas carroças com retrovisores, sinalizadores e outros equipamentos – a ideia foi inspirada e tira sarro de um programa sobre tunagem de carros, o Pimp My Ride, da TV americana. Primeiro, convidando artistas para grafitar as carroças, oferecendo comida, atendimento médico e odontológico aos catadores, que ainda ganhariam corte de cabelo, barba e roupas novas. Depois de tudo isso, haveria uma exposição das carroças grafitadas.

Em dezembro de 2014, Mundano subia ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, como um dos vencedores do Prêmio Brasil Criativo, que reconhece grandes iniciativas da economia criativa no país. O Pimp My Carroça recebeu vários outros prêmios, e Mundano foi escolhido como um jovem inovador no programa TED Fellow – programa do TED (Technology, Entertainment and Design), uma organização não governamental que disponibiliza palestras curtas na web para disseminar ideias que podem transformar o mundo. No TED Fellow, jovens inovadores de diferentes países formam uma rede colaborativa, recebem mentoria e entram em contato com profissionais aptos a ajudá-los a realizar seus projetos.

O Pimp My Carroça teve quatro edições realizadas em três cidades brasileiras, São Paulo, Rio e Curitiba. Contou com a participação de 150 grafiteiros e 750 voluntários e com a doação financeira de mais de 1.300 pessoas por meio de crowdfunding. Os vídeos das edições tiveram 100 mil visualizações em 150 países. “Estar inserido na economia criativa ajudou a viabilizar e dar visibilidade ao projeto”, diz a produtora cultural Daniela Teixeira. Ela trabalha na Parede Viva, empresa que cuida de iniciativas como o Pimp My Carroça e comercializa a produção dos chamados “artivistas”. Criada em 2011, a Parede Viva 
fica instalada em um coworking, não 
tem muitos custos fixos e cria equipes de acordo com a demanda.

Conhecimento, diversidade e cultura também são protagonistas para a Inesplorato, nome que significa desconhecido em italiano. Lançada em 2010, a empresa dos sócios Débora Emm, Roberto Meirelles e Luiz Alberto Martinez, o Cabé, tem como propósito fazer com que a humanidade avance por meio do conhecimento. Para isso, Débora inventou uma nova profissão, registrada na carteira de trabalho de seus funcionários: os curadores de conhecimento. Eles buscam encurtar a distância entre pessoas ou empresas e as informações que podem ser transformadoras para elas. Na Inesplorato, não há estrutura hierárquica. Ninguém manda em ninguém e todo mundo pode dar palpite em todos os projetos.

Tanto pelo produto e pelo serviço que oferecem como pela forma de se estruturar, o Pimp My Carroça, a Parede Viva e a Inesplorato são exemplos de empresas inseridas no contexto da economia criativa, um lugar na esfera da criatividade, das ideias, das habilidades, dos talentos, da cultura e da diversidade. Para seu maior entusiasta, o britânico John Howkins, autor do livro Economia criativa, a economia criativa é aquela em que a criatividade tem um papel predominante.

Uma de suas maiores vantagens é que ela lida com qualidades inesgotáveis. “Isso significa a possibilidade de quebra do problema da escassez, uma restrição da economia. Criatividade e imaginação são ilimitadas, fator extraordinário para a geração de negócios”, diz Luiz Alberto Machado, vice-diretor do curso de Economia da FAAP. É a economia da abundância versus a economia da escassez.

Há diversos exemplos pontuais da infinidade de possibilidades desse modelo de negócio inovador. No caso da Inesplorato, por exemplo, ela oferece dois produtos para pessoas físicas: a curadoria direcionada e as caixas de acervo. Na curadoria direcionada, a equipe prepara uma caixa cheia de conteúdos feita no formato ideal para o cliente, com livros, documentários, artigos ou até mesmo cartões de visita – se ele não gosta de ler, por exemplo, montam o kit com imagens e filmes, entre outros itens. Cada caixa custa 
R$ 1.500. Já as caixas de acervo são preparadas pelos curadores a partir de temas específicos, como empreendedorismo, música ou vinhos, e custam R$ 600. Para empresas, a Inesplorato oferece também curadorias temáticas, como “Culturas brasileiras” e “Infelicidade feminina”. Essas curadorias se transformaram em estudos contínuos, vendidos para marcas e adaptados de acordo com demandas específicas. Entre os clientes da Inesplorato estão Danone, Melitta, Globo e Whirlpool.

Criatividade e imaginação são ilimitadas, fator extraordinário para a geração 
de negócios — Luiz Alberto Machado, vice-diretor do curso de Economia

O projeto Pimp My Carroça também 
se desdobrou em outras atividades para se manter vivo e crescer. Criou, por exemplo, o Desafio Pimp, uma espécie de gincana para empresas em que equipes vão para as ruas com os catadores e experimentam o que é ser catador por um dia. Uma companhia pode comprar a atividade como uma ação de desenvolvimento para seus funcionários. Há também o Pimpex, para dar escala ao projeto, em que qualquer um pode ajudar um catador. E um aplicativo, ainda em desenvolvimento, que conecta catadores com quem tem lixo reciclável para entregar.

Na linha do tempo

O conceito da economia criativa surgiu pela primeira vez na Austrália, em 1994, com a publicação do documento Creative Nation. Nele, aparece a ideia de que “uma política cultural também é uma política econômica”. E de que a criatividade determina nossa capacidade de adaptação a uma nova economia.

Três anos depois, o Reino Unido tomou a primeira iniciativa governamental de olho na criatividade como ferramenta econômica valiosa. Liderado pelo então primeiro-ministro Tony Blair, um grupo formado por representantes do governo mapeou áreas economicamente promissoras que têm a criatividade como principal recurso. Do estudo saíram as chamadas Indústrias Criativas, ou os 13 setores da economia criativa: artesanato, arquitetura, artes cênicas, artes e antiguidades, cinema, design, editorial, publicidade, moda, música, software, software interativo de lazer (vídeo e games) e rádio e televisão.

De lá para cá, o termo se popularizou e ganhou o mundo. Não é fácil mensurar todas as iniciativas inseridas nesse modelo de negócio e qual o seu impacto real. Em primeiro lugar, pela própria abrangência do termo. Há inúmeros desdobramentos desse conceito e, ao ganhar diversos países, as áreas de atuação são adaptadas de acordo com a realidade de cada um. Além disso, diversas atividades consideradas da economia criativa não são reconhecidas assim por quem as faz.

Segundo relatório britânico sobre economia criativa, “é difícil defini-la e por isso economistas e estatísticos nunca pararão de debater seus conceito e estimar seu valor. (…) Muitos participantes ativos e representativos do setor acreditam que não fazem parte de nenhuma indústria. Eles estão mais predispostos a se definir como criadores, empreendedores, artistas ou ativistas sociais. 
E podem ainda não definir suas atividades 
em termos econômicos”.

Marginal

Segundo relatório de 2011 da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), a economia criativa no Brasil movimenta R$ 110 bilhões, ou 2,7%do total produzido no país. São cerca de 
250 mil empresas que fazem parte do setor.

Em 2012, foi inaugurada a SEC (Secretaria da Economia Criativa) do Ministério da Cultura, com a missão de contribuir para que a cultura se torne um eixo estratégico nas políticas públicas de desenvolvimento no país. Na definição da própria secretaria, sua missão é “conduzir a formulação, a implementação e o monitoramento de políticas públicas para o desenvolvimento local e regional, priorizando o apoio e o fomento aos profissionais e aos micro e pequenos empreendimentos criativos brasileiros”.

Por aqui, as atividades criativas são divididas em quatro grandes pilares: Consumo (arquitetura, publicidade, design, moda), Cultura (patrimônio e artes, artes cênicas, música, expressões culturais), Mídias (editorial, audiovisual) e Tecnologia (biotecnologia, pesquisa e desenvolvimento, tecnologia da informação e comunicação – TIC).

No país, áreas como moda, arte e gastronomia começaram a despontar no cenário internacional como iniciativas de economia criativa, dando grande destaque a profissionais como a artista plástica Adriana Varejão, os grafiteiros Osgêmeos e o chef Alex Atala, e a eventos como o São Paulo Fashion Week. Exemplos em que a criatividade é transformada em negócio. Porém, de modo geral, o Brasil ainda tem 
uma atuação limitada. Ainda há grandes desafios para que essa seja uma bandeira em território nacional. “Falta percepção do alcance da economia criativa. Ela ainda é vista como um setor marginal, enquanto pode ser carro-chefe”, analisa Machado. “A criatividade ainda é vista como um dom, enquanto ela pode ser trabalhada, estimulada. As escolas formam para que as pessoas sejam mandadas, não para que empreendam. Ainda há muito espaço para a economia criativa crescer.”

[No Brasil] Falta percepção do alcance da economia criativa. Ela ainda é vista como um setor marginal, enquanto pode ser carro-chefe — 
Luiz Alberto Machado

Para Ariel Birnkott, sócio da escola de atividades criativas Perestroika, que oferece cursos em São Paulo, Porto Alegre, Rio, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília, as pessoas que estão mais preparadas para trabalhar no cenário da economia criativa “são aquelas com capacidade de se reciclar, proativas, empreendedoras, que procuram desafios, 
e não apenas empregos, e que estão em busca de criar coisas novas, e não apenas de executar tarefas”. Na Perestroika, há um ciclo de cinco fases para transformar todo funcionário em empreendedor. E boa parte deles acaba virando sócio da empresa.

Todos por um

Se ainda há muito a avançar, um movimento liderado por empreendedores criativos está fazendo a sua parte para que uma nova economia, uma nova forma de fazer negócios – mais colaborativa, mais consciente, de valor compartilhado e impacto positivo – ganhe cada vez mais espaço e relevância. São pessoas interessadas em criar para si um tipo de negócio que tem a ver com propósito, ou seja, que faça sentido para a vida. Um trabalho que esteja diretamente relacionado a seus valores mais essenciais. E, por conta disso, acabam criando seu próprio empreendimento e inventando novos produtos e serviços. Empreendimentos em que a criatividade, o capital intelectual, os talentos e os processos ocupam lugar de destaque. Onde ter sustentabilidade financeira é importante, mas dar lucro é consequência, e não objetivo. Nesse modelo, o sucesso se mede de outras formas: contam o tipo de projeto, as pessoas envolvidas nele, as conexões, a diversão, o prazer, o legado, a construção de um futuro melhor.

Para Carol Romano, jornalista e idealizadora do portal de notícias positivas AsBoasNovas.com, “trabalhar com criatividade não é apenas uma fonte de sucesso e renda, mas também de satisfação pessoal, o que comprova que se trata de um ciclo virtuoso em que o fazer alimenta o ser e vice-versa”. Ela e o marido, Igor Botelho, são responsáveis pelo portal, que, além de publicar conteúdos que inspiram na construção de uma realidade mais otimista, também presta consultoria para empresas interessadas em negócios inovadores. Para Carol, a nova economia está transformando tudo à sua volta, não apenas os negócios, 
mas também a forma de fazer, de pensar, 
de viver e de aprender. “O capital financeiro é um recurso finito, enquanto a potência 
da cooperação, dos movimentos e da economia que vem sendo nomeada como criativa é generosa e fluida”, completa Igor.

Há 20 anos, quando o primeiro documento colocava a criatividade como um dos protagonistas da atividade econômica, começava um movimento de transformação sem volta. Mas, ao que parece, a economia criativa é só o começo e abriu as portas para que, a partir dela, outros movimentos viessem – e que, de certa forma, estivessem inseridos no próprio contexto da economia criativa. Como, por exemplo, a economia colaborativa, compartilhada, do propósito.

Em todas elas, cabe a ideia de que somos todos fazedores, inventores, com capacidade de conexão e de organização em rede. 
E de que, afinal, podemos inventar um futuro onde haja mais cuidado com os recursos naturais do planeta, com a saúde, 
o bem-estar e a felicidade das pessoas. 
Ou, nas palavras do jornalista e economista britânico Will Hutton, “as ideias com valor expressivo geram novos pontos de vista, prazeres e experiências, constroem conhecimentos, estimulam as emoções e enriquecem nossas vidas”.

 

Entrando na onda

Dicas para quem quer saber mais sobre o assunto

1_ Economia criativa, 
de John Howkins, 
publicado pela M Books

2_ De baixo para cima, 
de Eliane Costa e Gabriela Agustini, sobre economia criativa 
www.livro.debaixoparacima.com.br/apresentacao/

3_ Empreendedorismo criativo, de Mariana Castro, publicado pela Companhia das Letras

4_ A plataforma criativa It’s Noon, espaço em que pessoas e empresas compartilham aprendizado, trabalho e remuneração 
www.itsnoon.net/home

5_ Projeto Draft, projeto digital dedicado a cobrir a expansão da inovação disruptiva no Brasil www.projetodraft.com.br

Reflexões inspiradoras

5 Táticas para empreender dentro do conceito da economia criativa

1_ Identifique uma causa. O seu trabalho deve ser coerente com os seus valores.

2_ Em um lugar onde criatividade, habilidade e talento têm destaque, valorize o processo tanto quanto o resultado.

3_ Para começar, não tenha uma estrutura fixa cara. Seja flexível para poder acompanhar as mudanças do mercado.

4_ Tenha uma postura empreendedora. Faça acontecer.

5_ Criatividade e imaginação são matérias-primas inesgotáveis, com alta capacidade de gerar negócios. É a economia da abundância versus a economia da escassez.

 

Vai lá:

Pimp My Carroça www.canalpimp.catarse.me

Inesplorato www.inesplorato.com.br

Parede Viva www.paredeviva.art.br

As Boas Novas www.asboasnovas.com

Perestroika www.perestroika.com.br