Saiba o que esperar do cenário econômico nessa reta final de 2018. Quatro especialistas trazem sua visão sobre avançar, esperar, ou recuar nos negócios e iniciativas

Não é de hoje que a economia brasileira vive um vaivém entre euforia e depressão. A gangorra que, no fim dos anos 50, pendia na era de ouro da expansão econômica, e, pouco depois, tombou violentamente numa crise institucional rumo ao desequilíbrio fiscal nunca soou tão familiar. Depois de 20 anos em que, já recuperados de outrora, demos um imenso salto, e o país protagonizou suas maiores taxas de crescimento da história – também em termos sociais, demográficos, de expectativa de vida, educação, saúde e distribuição de renda –, vivemos hoje uma profunda desorganização e fragilidade da economia, mais uma vez. “A política econômica se desarticulou de modo geral: a dívida pública subiu fortemente; as principais estatais do Brasil foram abaladas; desarrumou-se o setor elétrico, que estava indo bem; o desemprego está altíssimo; e nos desmoralizamos com a corrupção. É um fardo muito difícil de superar”, afirma Carlos Kawall, economista-chefe do banco Safra. Agora, com a volatilidade das eleições presidenciais que se aproximam, o momento é de reflexão em torno das expectativas do país se reerguer e a necessidade de uma mudança que nos defenda de mais uma rodada negativa de natureza essencialmente econômica. “O nível de esgarçamento do Brasil é preocupante. O momento atual acompanha um compasso de espera, e o resultado das eleições será fundamental pra definir se teremos investimentos mais fortes ou se será consolidada a total falta de segurança”, diz Ana Carla Abrão Costa, presidente do conselho de Gestão Fiscal de São Paulo.

Por outro lado, o momento é também de renovação de ânimos. Há lentes que ampliam a força catalisadora das adversidades em energia criadora, e basta munir-se de um pouco de otimismo para enxergar a oportunidade de reinvenção do país. Para Silvio Passarelli, diretor da Faculdade de Economia da FAAP, o cenário delicado aponta para uma nova era, em que, apesar de desmotivado pelo governo, o empreendedor encontra um ambiente mundial renovado, com outras alternativas para dar corpo à criatividade. “Vivemos o esgotamento do ciclo da sociedade industrial e estamos entrando num período pautado mais pela tecnologia e a inteligência artificial que pelo consumo, em que vale mais a vivência, a experiência, o prazer. É um momento de trabalhar mais para se adaptar a essas novas demandas e possibilidades.” Já para o economista Claudio Porto, consultor em construção e análise de estratégia, gestão e cenários econômicos para governos e instituições públicas e privadas, é possível agora detectar áreas mais pulsantes, com potencial para fazer o brasileiro parar de desperdiçar oportunidades e quiçá tirar o país do cheque especial: “As melhores oportunidades estão se deslocando para as cidades médias, onde é possível conjugar qualidade de vida com custo baixo. Outra mira é a economia de serviços avançados, tanto no campo da tecnologia como da educação. Além dos pequenos arranjos de profissionais, como hubs criativos formados por freelancers. É aí que vão se desenvolvendo as oportunidades”.

CARLOS KAWALL

Ex-secretário do Tesouro Nacional, Kawall aponta o consumo, bem aquém do que esperado pelas estimativas econômicas, como grande responsável pela frustração em relação ao crescimento de 2018. “Isso se dá sobretudo pela fraqueza do mercado de trabalho. O desemprego, de 12%, tem caído menos que o imaginado. E a taxa de juros também deveria ter sido mais baixa.” Ele descreve o momento como “a maior recessão da economia da nossa história”, que mistura uma situação fiscal crítica à falta de investimentos em infraestrutura. Para ele, apenas se crescermos 1,5% este ano e 3% em 2019, conseguiremos, ao fim do ano que vem, voltar ao PIB que tínhamos quando essa crise começou.

Reforma da previdência

“Não há plano B ou qualquer alternativa à reforma da previdência. E o debate eleitoral está positivo na medida em que a maior parte dos candidatos assume essa necessidade. A agenda de reformas é capaz de gerar uma retomada da confiança e, só a partir daí, será possível partir para uma base de crescimento econômico sustentável, que faltou nos últimos anos. Essa crise só se resolve com educação, com o amadurecimento das pessoas para que compreendam que há questões estruturais de longo prazo que precisam começar a ser resolvidas o quanto antes.”

Empreendedorismo & Investimentos

“Claro que, se houvesse um ambiente econômico mais previsível, as oportunidades para empreender seriam mais amplas. Porém temos condição de alterar esse cenário. Vale lembrar que o consumo depende de três variáveis: crédito (que está indo bem); venda (que não está); e confiança (que só se restabelecerá à medida que o mercado de trabalho for ganhando força). As águas estão turbulentas, mas sejamos otimistas.”

Dicas

“Acompanho e gosto muito de dois articulistas da Folha de S.Paulo, Samuel Pessôa e Marcos Lisboa, e também do americano Ben Bernanke, um dos melhores economistas deste século, na minha opinião. Ele tem um livro de memórias que fala da crise de 2008 e é interessantíssimo, The Courage to Act. Outra leitura importante que cai agora como luva é Stress Test: Reflections on Financial Crises, do secretário do Tesouro do Governo Obama, Timothy Geithner.”

Destaque

Essa crise só se resolve com educação, com o amadurecimento das pessoas para que compreendam que há questões estruturais de longo prazo que precisam começar a ser resolvidas

ANA CARLA ABRÃO

Ex-secretária da Fazenda de Goiás e sócia do braço brasileiro da empresa de consultoria americana Oliver Wyman, a economista acredita que o que interrompeu a tímida caminhada de recuperação econômica do início do ano foram a ausência de reformas e a intensificação das dúvidas em relação à conjuntura eleitoral. Para ela, só esse resultado será capaz de definir as expectativas para o cenário econômico nos próximos meses: “Esta é a eleição mais importante que já tivemos”.

Reforma da previdência

“Nossa situação fiscal é grave. Se o Brasil quiser sair dessa trajetória de colapso, será preciso aprovar essas reformas, tanto da previdência, como tributária, as microeconômicas… A ameaça da ascensão de uma figura populista mora na eventual negação a esses arranjos.”

Empreendedorismo & Investimentos

“Encaro os empreendedores da mesma forma como os outros investidores: de maneira geral, estão em compasso de espera. Sou otimista por natureza, então, insisto na esperança. No entanto, não dá para negar que, nos últimos dez anos até agora, nossa elite, acadêmica e empresarial, foi extremamente omissa, do ponto de vista econômico e político, o que nos custou caro. O empresariado precisa se engajar para entender que é este o momento de definição do que queremos como país.”

Dicas

Sou muito ativa no Twitter, que é bastante amplo e fidedigno. Sigo do Bolsonaro ao Boulos, além dos perfis de O Globo, Washington Post, Estadão e Folha. Não podemos cair na armadilha de seguir só quem a gente gosta, on e off-line. Está aí a riqueza da democracia.

SILVIO PASSARELLI

Também diretor da Faculdade de Administração da FAAP, Passarelli voltou este ano a dirigir a Faculdade de Economia da Fundação, da qual esteve à frente também entre 1990 e 1997. Com faro aguçado, está por trás da criação de outros cursos, como Relações Internacionais e Moda, além dos MBAs de Gestão do luxo e Gestão da empresa familiar. “Os momentos de crise, de incerteza, têm de fato uma energia criativa, potencial para a criação de soluções libertadoras.”

Reforma da previdência

“Para não mexer tão a fundo na previdência, seria preciso uma reforma mais profunda, que diminuísse em pelo menos 1/3 a presença do Estado nos setores. Nossa extração tributária não é a maior do mundo, como muitos colegas economistas têm errado em afirmar. A máquina pública que é muito maior do que deveria ser. E, como não podemos dizer que haverá um próximo presidente que trabalhará pela redução do tamanho do Estado, a previdência precisará sofrer uma reforma.”

Empreendedorismo & Investimentos

“Apesar de revezes poderem funcionar como catalisadores de energia criadora, é preciso lembrar que o Brasil faz tudo que pode para matar o empreendedorismo: não há crédito nem apoio tecnológico ou técnico; para abrir uma empresa, demora-se meses, para fechar, é impossível. Isso tira a pujança da economia – e faz do empreendedor brasileiro um verdadeiro herói.”

Dicas

As ideias de compartilhamento fazem todo o sentido. Melhor que ter automóveis, é usar apps como Uber ou alugar um. O momento é propício para se desmaterializar, eis o futuro do agente econômico.

CLAUDIO PORTO

Fundador e presidente da empresa de consultoria Macroplan, Porto é analista econômico há mais de 40 anos e organizador do livro Propostas para o governo 2015-2018 – Agenda para um país próspero e competitivo. “Até o início de 2019, o cenário está dado pelas perspectivas de crescimento: toda semana, as projeções diminuem”, diz.

Reforma da previdência

“O paradoxo é o seguinte: nos últimos 20 anos, o país melhorou muito, só que o resto do mundo melhorou muito mais. A crise que vivemos agora é totalmente made in Brazil. Se, entre 1980 e 2015, a produtividade do trabalho cresceu aqui em média 0,2% ao ano, mantendo esse ritmo, só daqui a um século teremos um padrão de vida semelhante ao de Portugal hoje. O Estado é o principal obstáculo para um crescimento sustentável. Até o fim do ano, é possível manter o fôlego da Bolsa sem a aprovação da reforma da previdência. Mas, se houver uma perspectiva de polarização só no campo do populismo, haverá muita especulação, e ela despencará. Minha expectativa é de que, no início de 2019, o que haverá ainda serão resquícios dessa herança maldita do caos econômico. Por outro lado, se conseguirmos emplacar uma agenda de reformas, podemos voltar a crescer.”

Empreendedorismo & Investimentos

“Há muita imprevisibilidade e instabilidade econômica, e, num cenário desse, o crescimento não se sustenta. Não existe disposição dos investidores. Acompanho de perto as questões econômicas do país desde a década de 70 e nunca me deparei com uma crise tão prolongada e difícil. Apesar de todas essas mazelas e dificuldades, temos ativos que são muito valiosos no mundo globalizado, um mercado integrado e rapidamente acessível, estoque de recursos naturais valiosos, capacidade de produção de alimentos. Somos uma economia que tem áreas de dinamismo valiosas, como São Paulo, Santa Catarina, Goiás e Espírito Santo, cenários pungentes e bons para empreender. Também, para o empreendedor, é essencial valorizar o que não seja de grande capital, privilegiando a economia da conveniência. Caso dessas vendas de orgânicos, lojinhas e restaurantes veganos; tudo ligado à economia do século 21. Além de ideias que foquem em experiências de bem-estar, prazer e saúde, campos que têm crescido – por exemplo, a criação de academias especializadas na terceira idade.”

Dicas

“Recomendo o portal da Endeavor e a leitura Collor Presidente, de Marco Antonio Villa, sobre o ex-presidente eleito após acusar Lula do confisco que ele mesmo cometeu. Mas a melhor fonte que existe no campo de análise de economia ainda é a revista The Economist, porque sabe apresentar conteúdos densos com humor e elegância. Vale o investimento.”

Apesar de todas essas mazelas e dificuldades, temos ativos que são muito valiosos no mundo globalizado, um mercado integrado e rapidamente acessível, estoque de recursos naturais valiosos, capacidade de produção de alimentos