Depois de quase 30 anos como professora, a carioca Valéria de Melo Pereira volta a ser aluna e se reconecta com a leitura na pós em escrita criativa

“A primeira vez que respondi ‘presente’ na chamada, tive de me conter para não cair na gargalhada”, conta Valéria de Melo Pereira, que passou 28 anos seguidos como professora de língua portuguesa e agora ocupa o outro lado da sala de aula, como aluna da pós- graduação em Escrita Criativa.

A vontade de voltar a estudar sempre a acompanhou – assim como os textos feitos a lápis nos seus cadernos de capa dura. Mas a escrita precisa de um tempo para acontecer. “A gente vai trabalhando, segue outro rumo e deixa esses prazeres secarem.

Por isso, quando saí da escola onde trabalhava, procurar pela literatura foi algo natural”, diz. Aos 62 anos, ela tem a chance de passar a limpo as próprias escolhas. “Estou num momento de resgate daquele jovem estudante que fui. No fundo, eu sempre soube qual caminho seguir e isso se manteve até hoje”. A seguir, as influências literárias que costuraram a relação de Valéria com as palavras.

1
POÉTICA

de Ana Cristina Cesar

“A obra de Ana Cristina Cesar é básica na minha vida. Ela era uma das principais representantes da Geração Mimeógrafo, um movimento de poesia marginal que aconteceu no Rio no final dos anos 70 e durante os anos 80. Morreu muito jovem e deixou uma poesia moderna e pouco formal. Foi uma mulher produtora de cultura, isso é muito importante.”

2
DIREITO À LITERATURA,

de Antonio Candido

“Minha maior influência, aquela que fez cair toda as fichas, foi este ensaio do Antonio Candido. Li muito jovem e foi um norte pra mim. Pensei que era isso que eu queria fazer, por isso que eu iria lutar: tratar a literatura como algo tão importante quanto comer e beber, como um direito universal do qual todos devem poder usufruir. É um texto antigo, mas extremamente atual – e será pra sempre. Porque ele diz mais do que a literatura em si, mas sim de um jeito de estar no mundo.”

3
GRANDE SERTÃO: VEREDAS,

de Guimarães Rosa

“Se eu pudesse levar apenas um livro para uma ilha deserta, seria esse. Porque é uma obra que você lê aos 18 e tem uma visão. Depois lê aos 40 e tem outra. Aos 50, 60… Ele não se esgota. É isso: um livro inesgotável. A cada nova leitura, criamos novos sentidos e significados.”