Ela quase foi médica, quase cantora, mas o destino – e um professor o ensino médio – puseram a professora Náila Ferreira Nucci na rota do direito. Na FAAP desde 2001, ela ajudou a construir e a consolidar um curso com forte formação humanística. “Aqui falamos de ética, de retidão e de caráter”

Com 15 anos, Náila Cristina Ferreira Nucci já sabia aplicar injeções e medir a pressão com aparelho e estetoscópio. Teve um bom professor: seu pai, o clínico geral Telmo da Costa Ferreira, que sonhava ver a filha de jaleco, como ele, e fez de tudo para convencê-la a seguir a carreira médica. Náila só contou ao pai sobre seus planos reais quando já estava aprovada no vestibular para a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em São Paulo. A reação, como se pode imaginar, foi dura – mais ainda porque a estudante, nascida no Rio de Janeiro, mas criada entre duas cidades do interior de São Paulo, a pequena Itaí e a maior Avaré, teria que se mudar para a capital.

Acontece que Náila estava decidida e, já de posse da capacidade de argumentação que, com o tempo, lhe valeria o sucesso na carreira de advogada, convenceu o pai de que o Direito combinava mais com seu jeito extrovertido e com seu talento para a escrita. Na tradicionalíssima São Francisco, envolveu-se em política estudantil no apagar das luzes da ditadura, cavou um estágio logo no segundo semestre e apaixonou-se pelo curso. “Eu tinha aulas com um ilustre jurista, já falecido, Goffredo da Silva Telles Jr. Quando ele falava, eu ouvia, fascinada, pensando: ‘Meu Deus, que coisa interessante!’. Ele tratava da fusão do Direito com a arte, a religião, a filosofia, e eu ali, vidrada”, recorda-se.

 

Com 5 anos, na casa da família em Itaí

Réveillon em Avaré: o coração balança entre a Medicina e o Direito

Com as filhas Amanda (à esq.) e Natália, em duas épocas diferentes: dedicação e cumplicidade. No destaque (à dir., no alto) divertindo-se com amigos

Anos mais tarde, em 2001, quando veio para a FAAP a convite do hoje vice-diretor do curso de Direito, José Roberto Neves Amorim, Náila trouxe na bagagem essa visão humanística do Direito, aplicando-a ao curso que ajudou a pôr em pé. Professora da disciplina de Processo Penal, coordenadora de atividades pedagógicas da faculdade, ela está por trás de iniciativas como assistência jurídica a ONGs, visitas a presídios e viagens de estudo a Brasília, onde os alunos se aprofundam no funcionamento das instituições do Estado. “A FAAP me acolheu como se aqui fosse a minha casa, com respeito e prestígio”, afirma Náila, que se divide entre o trabalho na faculdade e o escritório de advocacia que toca com duas sócias. Sobra pouco tempo para o convívio com as filhas, Amanda, 28 anos, advogada criminalista, e Natália, 27, administradora de empresas, e para hobbies como ir ao cinema – é cinéfila declarada. “Eu trabalho muito, mas sou a mulher mais feliz do mundo.”

Com tanta pressão para fazer Medicina, como você foi parar no Direito?
Por influência de um professor do ensino médio em Avaré. Chamava-se Nelson Serrano e dava aulas de português, literatura e redação. Ele gostava do que eu escrevia, do que eu falava, mas quando soube que eu pretendia fazer Medicina, para seguir os passos de meu pai, lamentou. Disse que eu tinha o dom de persuadir as pessoas, e me sugeriu o Direito. Não era do meu universo, não tinha advogados na minha família, mas aos poucos fui me convencendo de que era o melhor para mim.

“Nosso curso de Direito é jovem, mas se posiciona rapidamente no mercado. Buscamos trazer conteúdos contemporâneos, com questões da nossa época, mostrando o Direito de forma viva. Na FAAP, conhecemos cada aluno, sabemos o que ele espera da carreira”

Você cursou uma faculdade muito tradicional. Quais diferenças vê entre o curso de Direito que fez e o curso que coordena hoje na FAAP?
São vertiginosamente diferentes. A faculdade que eu fiz respira tradição, inclusive na oferta de conteúdo. Na época, era também o coração político do país, refletindo toda a polarização entre direita e esquerda que se via na sociedade. O simples fato de ingressar ali já oferecia uma chancela, e, portanto, éramos uma massa. A faculdade se orgulhava de seus “filhos”, mas não cuidava deles. Nosso curso de Direito da FAAP é jovem, mas se posiciona rapidamente no mercado. Buscamos trazer conteúdos contemporâneos, com questões da nossa época, mostrando o Direito de forma viva. E, na FAAP, conhecemos cada aluno, sabemos o que ele espera da carreira.

 

Em viagem à Patagônia argentina: boas ideias para o curso de Direito vêm nos momentos de lazer

Durante evento sobre segurança pública na FAAP em 2013: conteúdos contemporâneos

Vivemos uma intensa revolução tecnológica, e diz-se até que as profissões do futuro nem sequer existem ainda. Nesse cenário, o Direito continuará sendo relevante?
Não tenho dúvida sobre a importância do Direito. Pense em qualquer período da história da humanidade; sempre houve e haverá questões afeitas ao Direito. O relacionamento humano sempre gerou –  e continuará gerando – conflitos e competições. Logo, o Direito, em períodos diferentes, de formas diferentes, sempre existirá, ganhando a feição de cada momento da sociedade e adaptando-se a ele. Tem uma característica de perenidade, de permanência. E sempre na condição de ciência humana, no meu entender, porque, por mais tecnologia que tenhamos, não conseguiremos jamais enquadrar a diversidade e a complexidade humanas em equações.

Ser bacharel em Direito é muito mais do que ter um diploma; é entender como o mundo funciona, como é importante saber ouvir e ser tolerante. Só quem sabe ouvir entende a razão do outro e consegue encontrar uma forma de defendê-lo. Se fizer tudo de forma muito técnica e fria, o resultado não será o melhor possível

E como preparar o aluno para uma carreira tão complexa?
Mostrando a ele que ser bacharel em Direito é muito mais do que ter um diploma; é entender como o mundo funciona, como é importante saber ouvir e ser tolerante – porque, na minha opinião, o operador do Direito tem que ser assim. Só quem sabe ouvir entende a razão do outro e consegue encontrar uma forma de defendê-lo. Se fizer tudo de forma muito técnica e fria, o resultado não será o melhor possível. A lei muda. Sempre procurei mostrar aos meus alunos que o que está na lei passa ao sabor dos tempos e das reviravoltas sociais. O que precisamos ponderar está por trás dela. Tenho a pretensão de imaginar que quem faz um curso de Direito precisa ser orientado até em questões que envolvem a formação do caráter. Ser professora passa por isso. Estou falando de crimes que não sujam mãos. Que se cometem com uma caneta. Que prejudicam milhões de pessoas.

Como a boa faculdade de Direito consegue tratar também disso, para não ficar só na letra fria da lei e orientar os alunos para o melhor manejo do Direito?
Mostramos a importância da retidão e da ética em todas as esferas da vida. Fazemos isso no dia a dia em sala de aula, pois nossos alunos nos trazem questões do cotidiano, nas quais o Direito se insere, e sempre têm muitas perguntas. Recentemente, dois deles foram parados em uma blitz na madrugada. Os policiais queriam fazer o teste do bafômetro, mas eles se recusaram, argumentando que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. O policial acusou-os de desacato, mas eles não deixaram por menos: observaram que apenas conhecem a lei e que não eram absolutamente desrespeitosos. Foi aberto contra eles somente um processo administrativo. Em sala de aula, abordando esse caso, falamos da questão do manejo do Direito. Do ponto de vista da lei, a argumentação dos alunos era perfeita, mas será que é ética? Se eles estivessem de fato um pouco “altos”, não deveriam dirigir.

Trabalho 15 horas por dia. É uma jornada cansativa, mas eu cumpro com muito entusiasmo e alegria porque eu amo o que faço. Desejaria que todas as pessoas tivessem essa mesma relação com o seu trabalho

Seu escritório valoriza muito a conciliação. Isso é uma tendência no direito?
Sim. A possibilidade da conciliação sempre existiu, e o Judiciário sempre a incentivou, mas o profissional do Direito não valorizava as etapas intermediárias. Eu mesma fui formatada para resolver conflitos recorrendo à justiça. Até o dia em que passei a ministrar uma disciplina chamada Solução Alternativa de Conflitos, e tive que estudar conciliação, mediação e arbitragem. Gostei! Hoje é uma bandeira do Brasil. O Conselho Nacional de Justiça encampou essa campanha e há legislação sobre a matéria. Quando somos procurados por um cliente, a primeira coisa que dizemos é: “Vamos chamar todos os envolvidos e buscar a possibilidade de uma acomodação sem briga, em torno dos melhores interesses e do respeito aos direitos”.

Conciliar as aulas e a coordenação na FAAP e o escritório exige jornadas muito longas de trabalho, não é?
Trabalho em média 15 horas por dia. Saio muito cedo de casa e volto tarde da noite. É cansativo, mas cumpro com muito entusiasmo porque amo o que faço. A FAAP me abrigou como se fosse a minha casa. Aqui sou respeitada por funcionários, alunos, diretores, professores. Todos são atenciosos, prestigiam e apoiam meu trabalho. Desejaria que todas as pessoas tivessem essa mesma relação, tão respeitosa e prazerosa, com seu trabalho.

O que descansa a sua mente?
Para relaxar, gosto muito de ir ao cinema. Sou cinéfila! Também gosto de teatro, de leituras, de moda, de natureza, de criança, de bater papo com amigos, de sair e dar risada. Tenho sede de ler e aprender para a cabeça não ficar pequena. Tudo isso rejuvenesce! Mas é curioso: como tenho essa relação tão especial com o trabalho, é comum que veja um filme e pense logo em propor aos alunos algo envolvendo certa questão do Direito. Isso vive acontecendo. Na segunda-feira sempre chego com muitas ideias!

O que é mais fascinante: advogar ou ensinar?
Ser professora é o que mais gosto de fazer na vida. Vou contar uma passagem. Na nossa última viagem a Brasília, em abril, uma aluna conversou muito comigo sobre a importância de participar da vida política nacional. Eu disse a ela que havia muitas maneiras de participar, e a mais eficaz era ingressando em associações de classe, que tinham mais força e representatividade. Ela disse que fará isso, “porque senão a gente fica inútil na vida, não é, professora?”. Aí a menina fez uma pausa e me perguntou: “E a senhora? É útil como?”. Parei para pensar, mas só por uns segundos. Respondi a ela: “Eu dou aula. Tento passar todos esses conceitos para vocês”. 

POR UM TRIZ

COMO A PROFESSORA DA FAAP NÃO VIROU UMA CANTORA PROFISSIONAL

Carioca criada no interior de São Paulo, Náila Ferreira Nucci fazia viagens frequentes de trem entre a capital paulista e o Rio de Janeiro para visitar familiares. A menina gostava de ficar correndo entre os vagões-leito e o vagão-restaurante, sempre… cantando. “A vida toda gostei de cantar, nasci com isso”, conta Náila, que adora caraoquês e se define como uma pessoa de gosto musical eclético – fã de Chico Buarque e de Ivan Lins, mas também da banda sueca Abba. Uma dessas viagens, quando tinha 10 anos, ficou gravada de modo particularmente intenso na memória da professora da FAAP. Um desconhecido a ouviu cantar atentamente e perguntou quem era seu pai. Náila levou-o até o vagão onde estava sua família e começou então uma conversa que hoje talvez pudesse ser definida como surreal. “Sua filha tem um dom, tem uma voz linda. Ela precisa estudar canto. Quero cuidar disso”, pediu o desconhecido. “Eu só ouvia, apaixonada pela ideia de cantar. Mas claro que meu pai não deixou”, recorda ela. O desconhecido insistiu, os ânimos se exaltaram, mas não houve acordo. “Sou uma cantora frustrada.” O desconhecido? Era Sergio Mendes, um dos mais festejados músicos brasileiros no exterior.

BOLA DE CRISTAL

ÁREAS DO DIREITO QUE SEGUIRÃO VIGOROSAS NOS PRÓXIMOS ANOS, SEGUNDO NÁILA NUCCI.

CÍVEL E PENAL_ “Essas grandes áreas não perderão terreno. Em nosso país, tão carente e desigual, a delinquência seguirá ocorrendo, infelizmente, e demandando, cada vez mais, o trabalho de advogados éticos e tecnicamente bem preparados.” Destaque para as relações trabalhistas, que geram grande número de processos, sem perspectiva de melhora nos próximos anos.

DIGITAL_ Compra e venda de produtos pela internet, romances virtuais, uso indevido de imagens em sites: no Direito, as questões do mundo digital estão candentes. “Não há muitos profissionais trabalhando com essas matérias. É um campo aberto e muito expressivo.”

INTERNACIONAL_ Ele ganha projeção no momento em que o Brasil recebe tantos refugiados. “Essas pessoas precisam de habilitação, reconhecimento, identidade. Suas necessidades abrem espaço para a atuação de muitos operadores do Direito. Inclusive no terceiro setor, que cresce na ausência do Estado.”

SUCESSÃO_ O ramo de planejamentos sucessórios, empresariais e de família: “Uma área fantástica que sempre ficou ao deus-dará. Já se demonstrou a necessidade de as empresas planejarem a sucessão para continuar dando lastro a empreendimentos construídos com tanto trabalho e dedicação”.

SESSÃO PIPOCA

NÁILA INDICA CINCO FILMES PARA APAIXONADOS PELO DIREITO

1_ Doze homens e uma sentença (EUA, 1957)_

Reunidos em uma sala, a portas fechadas, 12 jurados tentam chegar a um veredicto sobre um crime de assassinato. “O filme mostra a fragilidade do ser humano no tocante à interpretação dos fatos e à maleabilidade de suas conclusões, dentro de sua esfera de conhecimento, de seus padrões e opiniões, com expressiva discussão dialética.”

2_O juiz (EUA, 2014)_

Pai juiz e filho advogado reveem décadas de relacionamento turbulento quando o pai é acusado de assassinato e conta com o filho para defendê-lo. “A obra retrata a falibilidade humana e os desafios impostos aos operadores do Direito no convívio com suas origens, suas paixões e seus rancores.”

3_ As duas faces de um crime (EUA, 1996)_

O assassinato chocante de um arcebispo mobiliza um advogado bem-sucedido, que, ao defender o acusado, desvenda segredos sórdidos. “Uma reflexão sobre o desafio, não poucas vezes enfrentado, de esbarrar em um dilema ético-profissional.”

4_ Justiça (Brasil, 2014)_

Documentário que mostra o cotidiano dos funcionários do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. “Obra corajosa e bastante realista do cinema nacional sobre as pessoas que operam o sistema judiciário, a realidade social, cultural e econômica dos infratores da lei e as condições em que se desenvolvem os processos que autorizam a aplicação da pena.”

5_ O sol é para todos (EUA, 1962)_

Um advogado íntegro aceita defender um homem negro sobre quem pesa a acusação de estuprar uma mulher branca. “História de densidade humana essencial para a formação em Direito, abordando uma acusação de crime grave e tendo com pano de fundo temas como racismo, empatia, tolerância, respeito ao próximo e a necessidade de o ser humano estar sempre aberto a novas ideias e perspectivas.”