Colocar os conhecimentos em prática e ajudar quem precisa: esse é o DNA do programa Alunos Ensinam, iniciativa de responsabilidade social da FAAP que acaba de completar um ano e que deve crescer ainda mais

O que é que as faculdades de Direito, Artes Plásticas, Comunicação e Marketing, Administração e Economia têm em comum? Além de uma ou outra coincidência na grade horária, o viés social é o que une todas essas profissões. “Em conversas com nossos estudantes, sentimos que eles queriam colocar em prática o que aprendiam em sala de aula. Queriam dividir esse conhecimento com outras comunidades. Para proporcionar essa experiência aos alunos, criamos em 2015 o programa Alunos Ensinam”, explica Andrea Sendulsky, coordenadora do FAAP Social e do projeto. “Estamos desenvolvendo projetos com os coordenadores para que alunos de todos os cursos possam participar”, reforça.

Quem deu o start nas atividades do programa Alunos Ensinam foi a turma de Artes Visuais. “Em parceria com a Associação Fala Mulher e a seguradora BB e Mapfre, fizemos um trabalho com mulheres vítimas de violência doméstica para ajudá-las a expressar seus sentimentos, retomar a confiança e aprimorar seus trabalhos artísticos”, explica o professor Marcos Moraes, coordenador do curso de Artes Visuais. O tema central foi a obra de Frida Kahlo, que já era de interesse das mulheres. Os próprios alunos desenvolveram aulas teóricas e dinâmicas práticas para colocá-las em contato mais profundo com o processo criativo da artista mexicana. “Depois de um ano, a FAAP recebeu uma exposição com os trabalhos feitos por essas mulheres”, orgulha-se Marcos Moraes. Além da Faculdade de Artes Plásticas, muitos outros cursos também se engajaram nesse primeiro ano do projeto e ampliaram os trabalhos de responsabilidade social. Para o ano que vem, a ideia é crescer ainda mais. “Além de conhecer e ajudar novas instituições, queremos dar continuidade ao trabalho e fazer acompanhamento frequente nessas comunidades,” planeja Andrea. A seguir, os alunos que participaram das iniciativas contam como as experiências contribuíram para sua formação.

ARTE VIVA
ALUNOS DE ARTES VISUAIS CRIAM OFICINA PARA FORTALECER VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA

Falar de temas tabus, como violência doméstica, demanda muita delicadeza. E não há caminho melhor do que a arte para tocar nesse assunto – pelo menos foi o que os ex-alunos de Artes Visuais João Fasolino e Fernanda Galvão concluíram depois de capitanear o projeto do Alunos Ensinam com a associação Fala Mulher, ao lado de outros colegas. “Fizemos uma visita educativa ao acervo do Museu de Arte Brasileira da FAAP com as mulheres assistidas pela associação e já sabíamos do interesse delas pela obra da Frida Kahlo, que foi uma mulher forte e à frente do seu tempo”, lembra João. “Preparamos uma aula sobre a vida da artista e o contexto histórico em que ela desenvolveu seus trabalhos, para que elas entendessem de onde veio a estética da Frida.” O foco acabou sendo nos autorretratos, tema recorrente na obra da artista mexicana e muito ligado a confiança e autoestima, pontos delicados para as mulheres da ONG. Por meio da técnica de monotipia – que usa uma base lisa (como vidro ou acrílico) na qual se aplica tinta – os alunos orientaram as mulheres a criar seus próprios autorretratos, que produziram desde representações mais fiéis da sua imagem a flores e outras figuras abstratas. “A gente queria que elas se sentissem bem. Ninguém estava ali para tocar na ferida, mas para ajudá-las a colocar para fora o que estavam sentindo”, completa Fernanda. A partir da aula, as mulheres aprofundaram a pesquisa sobre a artista mexicana e produziram novos trabalhos, expostos na mostra Fala Mulher, releituras de Frida Kahlo, que aconteceu no último mês de setembro, no 1o andar do prédio 1 da FAAP. “Foi emocionante visitar a exposição e saber que a gente fez parte disso. Foi uma troca intensa, de igual para igual, e isso tem um poder transformador – para nós e para elas”, comemora João.

CONTA NO AZUL
ALUNOS DE ADMINISTRAÇÃO DÃO CONSULTORIA FINANCEIRA A ONG

Também em parceria com a Associação Fala Mulher, o projeto social dos alunos de Administração foi organizar uma consultoria financeira para as mulheres assistidas pela ONG. “O conceito do Alunos Ensinam é exatamente uma devolutiva para a comunidade, uma chance de ajudar e de experimentar o mercado de trabalho”, revela Silvio Passareli, diretor da faculdade. “É o momento de o aluno falar, não do professor. Nós apenas orientamos se surge alguma dúvida.” No primeiro encontro, Ariel Fahel e Matheus Cuan, ambos no 6o semestre de Administração, coordenaram o trabalho de consultoria para mais de dez mulheres, esclareceram dúvidas sobre como definir os preços de um trabalho artístico, orientaram se elas deveriam ou não montar uma cooperativa e ajudaram a organizar as contas. “É impressionante como a gente aprendeu ajudando essas mulheres. Tivemos que entender a realidade delas e desenvolver um trabalho de consultoria sério, como faríamos no mercado de trabalho”, explica Matheus, que também é presidente da Jr. FAAP, empresa de consultoria sem fins lucrativos composta apenas de alunos da Fundação. “Nossa ideia é fazer um trabalho de acompanhamento com elas, para poder ver a evolução dos negócios e conseguir ajudá-las a crescer”, finaliza Ariel.

 

DENTRO DA LEI
ESTUDANTES DE DIREITO ORIENTAM BOLIVIANA A VOLTAR A ESTUDAR

Para ajudar uma jovem imigrante boliviana de 19 anos a voltar a estudar, Tatiana Duarte e Bruna Samaan, do 6o semestre de Direito, tiveram que juntar esforço e achar a solução para se desviar das burocracias. “O diploma do ensino médio era da Bolívia e ela não conseguia revalidá-lo porque sua situação no Brasil era irregular”, explica Bruna. “Além de orientá-la a fazer a regularização no consulado, tivemos a ideia de sugerir que ela se inscrevesse também no Enem para voltar a estudar, pois eles não exigiam comprovação de conclusão do ensino médio. Assim, ela não precisaria perder o ano enquanto corre atrás da documentação”, completa Tatiana. A história, que teve final feliz graças ao esforço das alunas – a jovem boliviana conseguiu fazer sua inscrição e agora espera o resultado da prova –, é fruto da atividade da Faculdade de Direito no Alunos Ensinam, em parceria com a ONG ABCD Nossa Casa, que atua no Bom Retiro e ajuda pessoas de baixa renda a resolver seus problemas jurídicos. “É uma excelente oportunidade para eles trabalharem fora do ambiente universitário”, reforça o professor Marcos Schahim, coordenador do curso e responsável por fazer a ponte com o programa. Além de ser uma ótima chance para praticar o que é ensinado em sala de aula, o cunho social do Alunos Ensinam também contribui para abrir a cabeça dos alunos que participam. “Ver uma pessoa lutar para estudar – algo que nós fazemos sem dificuldades – me comoveu”, conta Bruna. Em seu segundo encontro no ABCD Nossa Casa, ela doou livros para ajudar na empreitada de sua primeira cliente. “Muitas pessoas nessa situação também têm receio de se expor em órgãos legais, por isso iniciativas como o Alunos Ensinam fazem tanta diferença.”

SEM FRONTEIRAS
ALUNOS DE R.I. ORGANIZAM DEBATE SOBRE REFUGIADOS

Qual a melhor maneira de entender a questão dos refugiados, tão em pauta nos últimos tempos? Para a professora Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais, a resposta é uma só: direto da fonte. A proposta foi simples – mediar uma discussão e uma sessão de perguntas e respostas entre alunos de escolas públicas e refugiados acolhidos pelo Lar Sírio, instituição especializada em receber pessoas do Oriente Médio em situação de refúgio. “Queríamos gerar conscientização sobre o tema, tornar esse debate acessível para todos. Ouvir histórias verdadeiras é o melhor jeito de aprender de verdade e não sair por aí disseminando preconceito”, pontua Fernanda. A iniciativa foi bem recebida e atraiu mais de 40 alunos da FAAP em participar da dinâmica. Entre eles, Uara Varoli e Carolina Andreosi, estudantes do 4o semestre de R.I., que desenvolveram um trabalho de pesquisa para apresentar o tema aos adolescentes. “Na questão dos refugiados, a preparação do material é muito importante, para que todos já cheguem sabendo da situação deles e não deem nenhuma bola fora”, reforça Carolina. Outra tarefa das alunas foi atuar na mediação da conversa entre os estudantes e os refugiados depois da apresentação. “Mediar debates também é parte fundamental do nosso curso, porque nas relações internacionais, na comunicação entre países, é preciso sempre de um mediador. Foi uma boa maneira de experimentar uma das possibilidades do nosso mercado de trabalho”, conta Uara, que se surpreendeu ao perceber que todos os quatro sírios abrigados pela instituição tinham diploma de curso superior. “O perfil do refugiado que vem para o Brasil é diferente do que atravessa fronteiras na Europa. Os que vêm pra cá tiveram mais oportunidades, mais dinheiro. Só mesmo conversando com um deles para entender essa situação de perigo iminente, que os obriga a deixar o país onde viviam”, explica.