Numa época em que as mulheres ocupavam poucos cargos executivos, a economista Denise Pavarina construiu um caminho sem precedentes em um dos ambientes mais conservadores do mercado. Hoje, é diretora executiva do Bradesco e conselheira de algumas das mais importantes empresas do Brasil

Denise Pavarina sempre foi movida pela convicção de que nada é exatamente o que parece. Preferia colocar os fatos em perspectiva a comprar ideias pré-estabelecidas. Perguntar “por quê?” e “por que não?” em situações corriqueiras foi a maneira que desenvolveu para entender as especificidades dentro de seus contextos – e, consequentemente, ganhar destaque onde estivesse. “O que me interessa é entender a lógica das relações, as motivações, o funcionamento de pessoas e de organizações de poder econômico ou político, além dos acontecimentos daquele momento”, afirma. “Entendendo as razões fica mais fácil lidar com as pessoas e atingir os objetivos, sejam eles quais forem. Dominar essa dinâmica amplia a nossa visão de mundo.”

Foi com essa disposição para enxergar além do que lhe era apresentado que Denise, formada em Economia pela FAAP, fez carreira como executiva do Bradesco. Primeira mulher a ocupar a alta liderança da empresa, hoje ela é diretora da BRAM (Bradesco Asset Management), braço do banco especializado em gestão de recursos de clientes. É também membro do conselho da Vale, gigante de siderurgia brasileira, e do conselho da B3, companhia que resultou da fusão entre a bolsa de valores BM&FBOVESPA e Cetip.

Em 2017, Denise tem apenas uma colega mulher (Walkiria Marchetti) na diretoria executiva do banco, de um total de 23 profissionais.Imagine, então, como era seu dia a dia há 32 anos. Sim, cercada por colegas de terno e gravata. Ela ingressou no banco no dia 4 de março de 1985, como auxiliar de analista da área de investimento. Fazia parte de um grupo de 60 jovens recrutados para compor a equipe de Roger Agnelli, que trabalhou no Bradesco até 2001 e foi presidente da siderúrgica Vale até 2010 (morreu em março de 2016 em um acidente de avião). Apesar de sempre conviver com muito mais homens do que com mulheres, isso nunca foi um problema. “Muita gente já me perguntou se nunca me senti diminuída ou algo assim”, diz. “Mas a resposta é não. É uma questão de postura. De como você se coloca nas situações. Os outros reagem a isso. Colocar-se como vítima está na mão de cada um e é um papel que não leva a nada.”

Sou muito racional. Gosto de dar às questões o tamanho que elas realmente têm. Nem mais, nem menos. É muito difícil ter uma vida equilibrada com a família quando você decide ter uma carreira profissional “sem escala”

Ela faz esta afirmação com o mesmo sorriso contido que a acompanhou durante 1 hora e 10 minutos, tempo desta entrevista. Sentada em uma das salas de reunião da diretoria do Bradesco, Denise vestia um terno azul-marinho risca de giz e passou a maior parte do tempo com as pernas cruzadas. Sua fala, em tom baixo e pausada, somada ao olho no olho que estabelece com o interlocutor, transmitem, ao mesmo tempo, firmeza e suavidade.

Durante evento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), instituição que Denise presidiu por quatro anos

Denise compara a subida na carreira à passagem por um “funil natural”, em que os requisitos são os mesmos para todas as pessoas, independentemente do gênero: trabalhar muito, ter disponibilidade, agregar valor, não ter receio de desafios e entregar resultados. “Claro que para dançar tango é preciso dois. O crescimento não depende só de você. Mas se não fizer a sua parte, quem está em cima não terá nem a possibilidade de enxergar o seu trabalho. Sempre fiz o que estava ao meu alcance e tive pessoas que reconheceram e me deram oportunidades.”

Luiz Paulo Lomonaco, que estudou com Denise na FAAP e ingressou no banco na mesma época que ela, lembra da postura da amiga, “determinada e focada”, desde os primeiros anos de trabalho. “Hoje se fala muito em ‘empoderamento feminino’, mas ela, há 20 anos, já tinha esse empoderamento. E sem a questão de machismo ou feminismo. A Denise nunca se ligou a ideias pré-concebidas. Sua forma de atuar era a seguinte: em tudo o que fazia, sempre entregava mais. É uma pessoa incansável.”

Regina Delalamo, amiga de Bradesco, ressalta a habilidade de Denise em gerir pessoas. Recentemente, uma colega de Regina estava prestes a ser demitida devido a uma reestruturação interna. “Eu disse a ela que conversasse com a Denise, que entendeu a situação e viabilizou sua ida para o Private Bank. Graças a essa capacidade da Denise na gestão de pessoas, o banco não perdeu esse talento para o mercado.”

Reunião do Financial Stability Board (FSB) sobre a força-tarefa de divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima, em janeiro de 2016, em Londres

Essa determinação garantiu uma linha fundamental do currículo de Denise: a fluência em inglês. No início dos anos 90, já num cargo de gerência, ainda sob a direção de Roger Agnelli, ela e cerca de sete colegas, todos homens, vivenciaram a reabertura do mercado brasileiro ao comércio exterior. Havia, portanto, um grande interesse do banco em estreitar relacionamento com investidores estrangeiros. Roger reuniu sua equipe e lançou um desafio: em um ano, quem falasse bem inglês iria ganhar curso de três meses em Nova York. “Dali em diante, eu estudei todos os dias”, conta Denise. “Não com sacrifício, mas com dedicação, pensando no objetivo, que era ganhar o curso e viajar para os Estados Unidos.” Ao final de um ano, os colegas já nem lembravam da proposta do chefe – nem o próprio, que nunca a cumpriu. Já ela, estava tinindo no novo idioma. “Eu era a única que dominava o idioma e ganhei tantas oportunidades, inclusive a de a ir para Nova York a trabalho depois, que o esforço valeu a pena mesmo sem o prêmio imediato.”

A determinação profissional de Denise cobrou seu preço. Ao longo da vida, ela reconhece que não escapou de fazer escolhas, mais ou menos conscientes, para chegar onde está. Por exemplo, a de ficar cinco anos sem tirar férias, no início dos 30 anos, e a indisponibilidade de estar com a família e amigos. “Meus amigos foram desistindo de me convidar para os eventos, porque eu nunca podia ir. Aos poucos, não recebia mais nem os convites. Mas os amigos que são amigos mesmos acabam voltando em outra fase da vida”, pondera.

Escolha consciente

Apesar dos prejuízos inerentes às escolhas, Denise afirma não se arrepender. Até porque as decisões derivaram da paixão pelo trabalho – a qual ela reforça em diversos momentos da conversa. “Sou muito racional. Claro que não são escolhas simples e triviais. Mas gosto de dar às questões o tamanho que elas realmente têm, nem mais nem menos. É muito difícil ter uma vida equilibrada com a família quando você decide ter uma carreira profissional ‘sem escala’.” Denise não teve filhos. Embora essa não tenha sido exatamente uma decisão, foi uma consequência natural da dedicação total ao trabalho. “A vida foi me levando. Primeiro, eu estava empolgadíssima com o início da minha carreira. Mais tarde, me divorciei. Não queria ter filhos se não fosse como parte de uma família, então o tempo passou.” Em 2011, ela reencontrou o primeiro namorado no Facebook. Marcaram um café e, desde então, não se largaram mais. Em 2012, casou-se pela segunda vez. “Estamos namorando tudo o que não namoramos durante o tempo que ficamos longe.”

Por trás da determinação que expressa, Denise carrega uma autoconfiança que atribui à educação que recebeu em casa. Filha de um comerciante e de uma costureira de classe média, ela nasceu em Santo André e mudou com a família para a capital paulista aos 7 anos. Define os pais como “pessoas muito inteligentes” e tem entre suas principais recordações o reconhecimento que recebia pelas pequenas conquistas, como o bom desempenho na escola. “Essa postura deles sempre me deu a sensação de missão cumprida e a segurança de que eu conseguiria ter uma vida melhor e ajudá-los.” Quando entrou na FAAP, a felicidade do pai foi “inacreditável” – provavelmente uma mistura de satisfação pela filha e de acerto de contas com a vida, já que ele mesmo não havia tido a oportunidade de estudar.

A escolha pelo curso de Economia foi resultado de seu raciocínio naturalmente lógico. “Pensei: gosto de generalidades e de matemática. Com Economia, tenho a possibilidade de fazer diversas atividades, vou usar a parte numérica e estudar história também.” Hoje, olhando para trás, reconhece que desde a infância dava sinais da vocação: sua diversão era receber o pai do trabalho e contar as notas de dinheiro do caixa. Com um histórico escolar impecável – Denise chorava quando tirava nota 7 –, não só passou no vestibular, como conseguiu bolsa parcial. “A FAAP tem visão, investe nos alunos que demonstram ter potencial. Serei sempre muito grata pela oportunidade que me deram.”

Abertura do Congresso ANBIMA de Fundos de Investimento, em 2015

A faculdade representou para Denise “uma mudança de patamar na vida”. Não só por marcar uma nova fase, mas também pela amplitudes de visão que o curso de Economia proporcionou. Ela deixou de ver cada disciplina isoladamente e passou a enxergar a conexão entre elas – a visão em perspectiva, que ela tanto aprecia. “Passei a entender a aplicação das teorias e a ver os fatos em contexto, entendendo as forças que movem as relações.” O ambiente que encontrou na FAAP ela descreve como “acolhedor”, tanto cultural e intelectualmente quanto do ponto de vista afetivo e pessoal. “Todos os professores que tive eram muito qualificados e reconhecidos, não tinha nenhum que você falasse: ‘Nossa, o que ele está fazendo aqui?’.” Nessa época, fez também amigos que perduram até hoje, como o Luiz, que trabalhou com ela no Bradesco.

Durante a faculdade, Denise fez estágio por um ano e meio na extinta rede de eletrodomésticos Brasimac. Passou ainda por uma construtora e outras empresas menores. Formou-se em dezembro de 1984 e, três meses depois, ingressou no Bradesco. Desde então, passou pela corretora de investimento do banco, participou de privatizações no setor siderúrgico e elétrico, da área de fusões e aquisições, entre outros projetos. Em todos eles, Denise reconhece que sua principal contribuição é o olhar para o que está por trás das aparências. A versatilidade de transitar por diferentes universos enxergando o que não está à mostra, mas que pode colocar de pé uma estrutura. Afinal, ela sabe que nada é exatamente o que parece.