Apesar do seu talento para a música e da influência dos pais, o artista e ex-aluno Antonio Lee seguiu outro caminho e vem despontando nas artes visuais com suas pinturas figurativas e abstratas

Antonio Lee entra pela porta do cômodo que lhe serve como ateliê e logo retorna para a sala de sua casa com um quadro nas mãos. Retira a tela que está na parede e utiliza o mesmo prego para pendurar a pintura que acaba de trazer. “Aqui é o teste final, onde avalio o resultado”, explica, lamentando que uma das últimas peças que ali esteve pendurada acabou sendo vendida. “Mas foi para um casal de amigos. Ainda posso vê-la”, se consola o artista, confessando o seu apego pelas obras que cria.

Autodidata, Antonio aprendeu a pintar pesquisando sobre técnicas, tintas e solventes. Começou aos 28 anos, transpondo para telas as fotografias antigas que garimpava na internet. Aos poucos, foi se desprendendo do realismo e passou a explorar o caráter mais expressivo das cenas. “Minha preocupação não era acertar a proporção, mas potencializar algum elemento da fotografia. Escolhia algo que estava, às vezes, em segundo plano e criava uma tensão que não existia no original”, explica o artista, hoje com 35. Seus primeiros trabalhos fizeram sucesso entre a turma. Antes de chegar aos 30, em uma época na qual a maioria dos amigos estava deixando a casa dos pais para morar sozinhos, os quadros de Antonio passaram a habitar os apartamentos novos. E foi o dinheiro das vendas que possibilitou ao artista dar uma virada em sua carreira. Depois de trabalhar seis anos como diretor de arte – quatro deles em Londres –, ele abandonou o emprego em uma agência e passou a se dedicar somente à pintura.

O óleo sobre tela Recorte #1, de 2015, que Antonio vendeu no ano passado para um colecionador privado

No mesmo período, em 2012, Antonio também resolveu fazer na FAAP o Sequencial em Artes Visuais, curso de dois anos de formação complementar, no qual o aluno pode compor sua grade curricular com os conteúdos que mais lhe interessam. “Ele era um aluno bastante interessado nas minhas aulas de História da Arte”, lembra Marcos Moraes, professor e coordenador do curso de Artes Visuais da FAAP . No primeiro ano, foi contemplado com o prêmio Bolsa FAAP pelos trabalhos apresentados na 44a Anual de Arte. “A faculdade me ajudou a formar senso crítico, tanto para minha arte como para a arte dos outros. Foi também a primeira oportunidade de mostrar trabalhos em um ambiente de troca, que talvez seja a maneira mais eficiente de crescer como artista”, diz Antonio, que já em 2013 realizou sua primeira individual, na galeria Luciana Caravello.

O trajeto ascendente que vem trilhando, no entanto, nem sempre foi assim. No início da adolescência, nos anos de 1990, a primeira experiência com a pintura teve um resultado traumático. Embora estivesse acostumado a desenhar desde cedo – já na infância ele vivia com um caderno à mão e tinha sempre em casa material de pintura e desenho por perto –, Antonio quase desistiu de explorar as telas quando testou a tinta óleo. “Tudo ficava meio marrom, eu não tinha controle e também não sabia que a tinta demorava tanto para secar”, conta.

Antonio Lee entre as suas obras Sonho Moderno e A Colônia, expostos na 44a Anual de Arte FAAP

Em sentido horário, partindo do topo, os irmãos João, Beto e Antonio ao lado de Rita Lee, em foto de 1983

Antonio Lee acompanhado de Roberto de Carvalho e Rita Lee, na exposição do artista na galeria Zipper, em 2015

A tentativa frustrada só foi superada em  2009, quando ele se deparou com potes de acrílica esquecidos na despensa de sua então namorada, a escritora Camila Fremder, com quem hoje está casado. À base de água e com secagem rápida, a tinta permitiu a Antonio experimentar tudo que queria: “Eu colocava a primeira camada, mudava, pintava por cima. As respostas eram rápidas”, diz o artista, que agora utiliza tanto acrílica como óleo nos trabalhos que realiza.

OVELHA NEGRA

Filho dos músicos Rita Lee e Roberto de Carvalho, há quem brinque que ele é a ovelha negra da família – mais novo dos três filhos, ele foi o único que não seguiu o caminho dos pais. “Aprendi violão e guitarra porque queria tocar com os amigos, mas nunca houve pressão. Estava tudo sempre disponível”, explica. “Antes de ir pra Londres, Antonio fazia música, passava horas gravando. Chegamos inclusive a utilizar gravações dele na música ‘Nave Terra’”, diz o pai, ressaltando o talento do filho (veja box). Mesmo assim, o caçula preferiu seguir em outra direção. “Ele fez dos pincéis a sua música. Lembro da surpresa quando vi seus primeiros trabalhos, figuras psicodélicas num ambiente colorido. Minha hippie interior adorou”, conta Rita.

Foi o ambiente propício à arte que permitiu o contato com os grandes pintores desde pequeno. Antonio se lembra dos livros da editora Taschen espalhados pela casa e de como Roberto apresentava Wassily Kandinsky e Joan Miró como as grandes referências da pintura abstrata. De início, ele não entendia por que tais obras eram consagradas. “Compreendia Picasso, Dali, mas não sabia dizer por que Pollock era relevante. Hoje sei que é mais importante o que você quer dizer do que como irá dizer.” Ironicamente, Antonio também enveredou para a abstração. Em 2015, apresentou as primeiras telas abstratas na galeria Zipper e, ano passado, levou outros exemplos fotos: 1 fernando silveira / 2, 3 e 4 arquivo pessoal / 5 marcos vilas boas do gênero para Nova York, a convite da galeria Emma Thomas. Em contato com essas pinturas, a artista Regina Johas, antiga professora de Antonio na FAAP, aponta o crescimento em seu trabalho. “Quando ele chegou nas minhas aulas, tinha estruturas de composição e gestos já sedimentados e na Zipper vi que sua produção começou a apontar para novos caminhos.”

Durante a disciplina ministrada por ela, Antonio conta que era desafiado a sair da zona de conforto, explorando suportes com os quais não estava habituado. Foi ali que desenvolveu sua primeira escultura – um galão de água pintado de branco com um cone de papel por meio do qual cores primárias saíam como arco-íris. Atualmente, o artista vem pensando na possibilidade de desenvolver outras obras tridimensionais. “Sempre me vi como pintor, mas agora estou sentindo essa necessidade”, conclui,
revelando que o desafio dos tempos de FAAP de sair da zona de conforto deve continuar permeando sua arte.

A SURPRESA


ROBERTO DE CARVALHO, MÚSICO APAIXONADO POR ARTES VISUAIS, CONTA COMO DESCOBRIU QUE ANTONIO LEE PINTAVA

 

“Tenho uma admiração extra por pintura, principalmente por ser algo que não domino. Na nossa casa, havia muito estímulo às artes, como música e livros de arte por toda a parte. A Rita desenha lindamente e por isso sempre tinha um monte de material de pintura e desenho à volta. Apesar de não ser muito frequente irmos a museus, nossas idas sempre foram muito marcantes, principalmente durante as viagens. Conversávamos muito sobre arte, sobre a pintura brasileira, o caminho do figurativo para a abstração. Durante muito tempo, a gente trocava figurinhas por e-mail de pinturas e pintores novos. Aí um dia o Antonio me mandou umas pinturas que eu adorei, mas sem dizer de quem eram. Quando perguntei, ele respondeu: ‘São minhas’. Foi muito emocionante, fiquei chapado! Para mim, é uma realização gigante e inesperada ter um filho pintor.”