Fim da globalização, ressurgimento de ondas nacionalistas. Brexit e a saída dos EUA do Acordo de Paris. Lava Jato, impeachment e a falta de novas lideranças... Que mundo é este? O embaixador Rubens Ricupero e o cientista político Marco Aurélio Nogueira refletem, durante debate na FAAP, sobre essa questão

A sucessão de acontecimentos impactantes dentro e fora do país tem transformado a vida de todos no planeta, das mais diferentes formas. E a ebulição dos noticiários nacional e internacional anuncia que estamos longe de uma calmaria. É unânime que vivemos uma fase de profundas transformações nas mais diversas esferas. Antigos acordos estão sendo colocados em xeque, a exemplo da União Europeia e a saída do Reino Unido, da Parceria Transpacífico – maior acordo comercial da história – e do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, ambos deixados pelos Estados Unidos com a chegada de Donald Trump ao comando do país. Por outro lado, testemunhamos o nascimento de novas parcerias surpreendentes – quem poderia imaginar que uma eleição presidencial americana pudesse ser influenciada pela troca de informações secretas entre norte-americanos e russos?

Democracia também em crise: o conflito entre globalização e o ressurgimento de ondas nacionalistas vêm ameaçando a democracia popular em vários lugares do mundo – nos Estados Unidos, na América Latina e no Brasil, onde cada vez menos os cidadãos se sentem representados por seus governantes e onde uma encruzilhada política ganha tons mais dramáticos devido à ausência de novas lideranças que traduzam os anseios da sociedade.

Que mundo é este? E para onde estamos seguindo? Em busca dessas respostas, a Fundação reuniu o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e decano para assuntos institucionais da FAAP, e o cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor titular da Unesp, para discutir esses assuntos em um debate mediado por Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de R.I., como parte do ciclo de discussões contemporâneas em comemoração pelos 70 anos da FAAP. A seguir, os principais momentos dessa conversa.

Rubens Ricupero

FERNANDA MAGNOTTA_ O início deste século é marcado por muitas tensões, como o conflito entre globalização e o ressurgimento de ondas nacionalistas em vários lugares. Vimos manifestações desse processo nos EUA, na Europa e nos países latino-americanos. Como podemos caracterizar o momento que estamos vivendo?

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA_ O mundo atual é o resultado de um processo muito acelerado de transformação sem uma direção clara. Há muitos centros, muitas postulações, inclusive de direitos, sem uma capacidade institucionalizada de organização. Estamos assistindo a um choque agudo entre um processo de afirmação da modernidade e uma resistência muito grande da “vida tradicional”. A desindustrialização é a prova de que a vida tradicional está sofrendo. Por essas duas questões, vemos uma espécie de esgotamento dos pactos que deram sustentação às comunidades políticas. Como consequência disso, vêm o desentendimento, a polarização e um tipo de manifestação que podemos chamar de “cultura do ódio”.

FERNANDA_ A que atribui esse esgotamento dos pactos coletivos?

MARCO AURÉLIO_ Em relação aos partidos, houve uma destruição do que dava legitimidade ao sistema. As pessoas estão desconfiadas dos governos, não transferem lealdade aos partidos, à elite política. E a outras elites também, como as intelectuais, que não estão conseguindo se comunicar com a população. Há uma dificuldade de produção de ideias que deem uma direção para as pessoas. Quem está nos convidando para discutir o projeto nacional? É preciso criar espaços para que reflitamos e para que nos convertamos em cidadãos ativos. Esse é o grande problema de hoje.

RUBENS RICUPERO_ O sistema está muito abalado. Mas não o da Organização das Nações Unidas. A ONU tem tentado dar um sentido à história, ela acabou encarnando o programa de transformação da vida e da história que antes era encarnado pelas ideologias. Essas foram destroçadas e no lugar temos um ideário que a ONU vem impelindo, com quatro ideias-força: os direitos humanos, o meio-
ambiente, a ideia da igualdade de gêneros e a ideia da promoção do desenvolvimento como o fim da miséria, da ignorância e da doença.

FERNANDA_ Perante as necessidades não atendidas pelas instituições, estaríamos diante de um esgotamento – ou de um recrudescimento – das ideologias?

Marco Aurélio Nogueira

RICUPERO_ A grande crise das ideologias modernas vem com o fim do muro de Berlim [1989] e do socialismo. Implantou-se o capitalismo, mas hoje, mesmo no centro do mundo ocidental, nos EUA, a democracia representativa está em crise. Essa crise não conseguiu regenerar um novo tipo de socialismo. As esquerdas do mundo inteiro estão perdidas. Aqui, ficaram prisioneiras do passado. Em outros países, os socialistas não conseguem, na prática, oferecer uma proposta para organizar a economia que seja diferente do capitalismo.

FERNANDA_ Como podemos situar 
a crise do sistema político brasileiro dentro da crise mundial da democracia representativa? Mesmo dentro da América Latina, o Brasil é diferente da Venezuela, do Chile, do México. Por quê?

MARCO AURÉLIO_ A crise no Brasil é particular porque o país tem um histórico de relacionamento com a democracia muito recente e ruim. Não fomos educados para a democracia, diferentemente dos franceses. A crise da democracia representativa na França é a crise de um sistema que tem bases institucionais e estruturais de sustentação. Nós não temos uma coisa nem outra. Porque as nossas bases institucionais – a Constituição de 1988, as regras do sistema político, os partidos – são muito porosas, fazem água com facilidade e funcionam com muita dificuldade.

RICUPERO_ Alguns cientistas políticos brasileiros costumavam dizer que não havia nada de errado com o sistema político nacional, porque ele produzia decisões e, apesar da crise e da corrupção, o Congresso votava, o sistema Judiciário resolvia os problemas. Marco, você acha que o sistema político brasileiro é funcional?

MARCO AURÉLIO_ Eu não aceitaria essa ideia, desse ponto de vista o sistema não é virtuoso. Os partidos não conseguem mais competir de maneira razoável entre si. É um sistema que não produziu lideranças e, para mim, é o ponto mais grave de todos. O tamanho da corrupção é outro problema. 
O sistema político precisaria ser recriado, esse é o desafio. Como? Pelos seus agentes. Quem está no sistema é que deve se encarregar da recriação do sistema. Mas, se não temos boas lideranças e inteligência, como vai recriar a si próprio? Enquanto esse nó não for desfeito, vamos continuar mergulhados na crise.

FERNANDA_ Embaixador, como o senhor vê essa questão da renovação das lideranças no formato tradicional? O que podemos esperar sobre esse movimento da história?

RICUPERO_ Por que não há renovação no Brasil? A razão histórica tem a ver com os 21 anos do regime militar (1964-1985). Os jovens daquela época foram trucidados. Isso veio se superpor a uma questão estrutural mais grave, que ainda faz sentir seu efeito. Num país desigual como o Brasil, que na época da escravidão foi quase um país de castas, a prática da democracia sempre foi condicionada pelo poder herdado das grandes dinastias. Até hoje é assim: é um poder que se compra com dinheiro ou com notoriedade. Deve-se quebrar esse regime que nós temos. Por isso sou favorável à ruptura. Temos que lutar, não podemos aceitar esse sistema. A operação Lava Jato é um fenômeno majoritariamente positivo, mas também desestabiliza o sistema. Não sei se é bom ou se é mau. Mas, se alguma coisa não mudar até 2018, todos vão ser reeleitos.

A RAIZ DO PROBLEMA

RICUPERO_ Fomos ensinados que o país é abençoado pela natureza, não tem vulcão, terremoto. Em compensação, temos uma das piores histórias do mundo. O Brasil é produto da escravidão e de um sistema de castas. A escravidão não explica tudo, mas explica muita coisa. Por exemplo, em 1860, a Argentina fez da educação o ponto-chave do governo, enquanto no Brasil ninguém pensava nisso. É difícil construir uma nação que tem esse passado, leva a isso que estamos vendo.

POLÍTICA, TRABALHO E FAMÍLIA

MARCO AURÉLIO_ No Brasil, assistimos ao esgotamento de um pacto entre os brasileiros, que tem se expressado sob a forma da competição eleitoral intensa. Mas não é só o sistema político que gira em falso. Há um aumento do desentendimento entre os brasileiros. A primeira explicação seria a virulência do progresso econômico, que tem se afirmado de maneira muito ávida e está desorganizando o mundo do trabalho. A tecnologia, a robotização… Tudo está afetando o modo como as pessoas trabalhavam. E isso afeta o emprego e, por consequência, a vida familiar. Então, se tem algo que afeta o trabalho e a família, o resto vem por extensão.

CHINA, A NOVA POTÊNCIA

RICUPERO_ O que está funcionando hoje é a China. Bem ou mal, o país está com o fantástico projeto One Belt, one Road e quer mudar o centro do mundo, o grande polo de produção e distribuição de bens. A China tem o poder financeiro, mas tem um sistema de valores complicado. O regime político não é democrático, tem aspectos de despotismo partidário de organização, mas é o país que aparenta estar mais sólido, que reage contra o protecionismo, que está até fazendo progressos em matéria ambiental.

ELEIÇÕES

MARCO AURÉLIO_ A paixão não é uma boa companhia para decisões de caráter político, como são as eleições. Ela não deveria prevalecer. Mas, num mundo que lateja, há um grupo enorme de pessoas em estado passional, querendo que algo seja imediatamente feito. E elas vão atrás daqueles que oferecem abrigo também passional. A [Marine] Le Pen oferece, o Trump… No Brasil, vários políticos, que disputaram ou não eleições, oferecem esse abrigo afetivo, que estará em 2018, seja qual for o desfecho do cenário político hoje.