Como fazer as escolhas certas num mundo inundado de informação, tecnologia e incerteza? É o que tentam responder Luiz Felipe Pondé, coordenador do curso de comunicação, e o psicanalista Jorge Forbes num debate exclusivo promovido pela FAAP

Não é raro ouvir que vivemos atualmente a maior revolução dos últimos 2.500 anos. Mas como podemos navegar nesse oceano de informação, tecnologia e incerteza onde, agora mais que nunca, somos responsáveis por nossas escolhas? Foi para falar sobre a complexidade do mundo contemporâneo que o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes e o filósofo Luiz Felipe Pondé, coordenador do curso de comunicação, participaram de debate promovido pela FAAP e mediado pela professora Gabriela Corbisier Tessitore, do curso de Comunicação e Marketing, parte de um ciclo de discussões organizado pela Fundação para comemorar os seus 70 anos.

Reconhecido como um dos maiores psicanalistas lacanianos do país, Forbes acha que o grande desafio hoje é conseguir transformar a angústia em um impulso capaz de abrir novas possibilidades. “Talvez a gente esteja vivendo o período mais criativo da raça humana, mas para usufruir dele não podemos ficar assustados, pois o medo é inimigo da criatividade”, observa. Para iluminar essa transição entre passado e presente, ele criou o programa Terradois, que apresenta desde março com a atriz Maria Fernanda Cândido, na TV Cultura, onde são discutidas questões como morte, mundo digital e relações afetivas.

Temas assim também são abordados de forma provocadora por Pondé em suas aulas na faculdade e na coluna semanal que escreve no jornal Folha de S.Paulo. Com a mesma verve, ele defendeu durante o debate que a liberdade de expressão é um mito em tempos de redes sociais e os jovens se angustiam cada vez mais pelo imperativo de sucesso pessoal e profissional. “Acho que nunca houve uma geração tão medrosa, insegura e em pânico em relação às escolhas do que a chamada geração do milênio”, cravou. Veja a seguir os principais momentos da conversa entre o psicanalista e o filósofo.

Talvez a gente esteja vivendo o período mais criativo da raça humana, mas para usufruir dele não podemos ficar assustados, pois o medo é inimigo da criatividade – Jorge Forbes, psicanalista

Jorge Forbes

TUDO PODE ACONTECER

Forbes_ Em vez de falar em “modernidade” e “pós-modernidade” prefiro usar dois termos: Terra Um, para definir o que vivemos no passado, e Terra Dois, sobre nosso momento atual (veja box na página 12). Em Terra Um, por exemplo, o futuro era uma projeção do presente. Ali nossos pais previam nosso destino: diziam que se quiséssemos “dar certo na vida” deveríamos ser advogados, médicos, engenheiros ou funcionários do Banco do Brasil. É curioso observar que muitos professores utilizam em vão essa mesma estratégia hoje em dia na tentativa de mobilizar os alunos. Entretanto, o jovem de hoje não vai responder a um mesmo tipo de padronização das gerações anteriores. Afinal, hoje as possibilidades são inúmeras e talvez ele não queira entrar na faculdade no ano que vem, mas sim ir para a Austrália aprender inglês enquanto surfa. Além disso, atualmente somos uma espécie de GPS que muda de rota a todo instante e, em geral, chegamos ao fim do dia sem executar o que planejamos de manhã. Em Terra Dois vivemos em um mundo de certezas temporárias, onde o futuro é uma invenção do presente.

AFINAL, SOMOS LIVRES?

Pondé_ Não acredito nesse mito propagado pelo capitalismo de que somos mais livres hoje do que há 500 anos. Na Idade Média, por exemplo, se você viajasse 300 quilômetros ninguém o achava, ninguém sabia quem você era. Agora basta passar um cartão de crédito para revelar sua identidade e localização geográfica. A meu ver, o mundo se tornou uma grande prisão a céu aberto, onde nunca sabemos se estamos sendo filmados e fotografados. A liberdade de expressão é outra ilusão, pois vivemos um controle absurdo do pensamento como nunca visto na história. A interatividade digital colocou as pessoas perigosamente muito próximas e isso acaba gerando a judicialização das relações. Assim, se eu usar uma palavra que desagrade alguém nas redes sociais, por exemplo, posso levar um processo.

“DESBUSSOLADOS”

Forbes_ Para ajudar a entender o momento atual, o filósofo francês Luc Ferry estabeleceu cinco grandes momentos históricos ao longo dos últimos 2.500 anos. No primeiro deles, na Grécia antiga, prevalecia a ética da natureza, em que cada um tinha seu lugar determinado, fixo. Assim, se eu nascesse artesão, morreria artesão, se eu nascesse guerreiro, morreria guerreiro… Na sequência passamos a viver a supremacia da ética religiosa, em que as posições sociais poderiam variar, pois todos seríamos iguais perante um deus e também teríamos a promessa da vida eterna, em que o melhor ainda estava por vir. Esse período se rompeu no século 18 com o surgimento dos filósofos iluministas, quando Deus foi substituído pela razão. Entretanto, a partir de 1870 esses três períodos foram questionados por Nietzsche e até hoje vivemos em um momento de desconstrução dos pilares da nossa batalha contra a angústia da morte. Em suma, passamos a viver “desbussolados”, característica essa que se agravou nos últimos 30 anos. A questão agora é antever esse quinto período: será que vamos ter um novo humanismo, como defende Ferry?

Acho que nunca houve uma geração tão medrosa, insegura e em pânico em relação às escolhas do que a chamada geração do milênio. O imperativo do sucesso é uma das fontes desse medo: hoje é preciso fazer escolhas certas o tempo todo para ser bem-sucedido – Luiz Felipe Pondé, coordenador do curso de comunicação

 

O PODER DA GRANA

 

Pondé_ Não se enganem: hoje o valor absoluto é o dinheiro. A própria ideia de economia colaborativa só funciona em projetos em que algum integrante do grupo tem dinheiro para investir naquele negócio. Os historiadores que estudarem nossa época daqui a 500 anos provavelmente vão nos definir como pessoas ressentidas, mimadas e crédulas de que podem comprar tudo com dinheiro. Se você conversar com um jovem europeu da geração do milênio, nascido após o advento da Comunidade Europeia, vai logo perceber que ele de fato acha que a vida é trabalhar um ano em Lisboa, estudar inglês em Londres ou francês em Paris no ano seguinte, e depois ir ajudar refugiados sírios na Alemanha por meio de ONGs ou associações que, em geral, cobram por essa experiência. Tenho certeza que uma criança do período paleolítico era mais inteligente do que nós. Aos 5 anos ela estava estudando o ambiente e fugindo de predadores, enquanto hoje temos crianças de 35 anos fazendo a terceira pós-graduação em Barcelona, tentando se achar. E a melhor forma de você se perder na vida é acreditar que vai encontrar seu eu.

A ANGÚSTIA DA ESCOLHA

Forbes_ Neste momento da história, o mundo é plano, líquido, fluido, instável, criativo, flexível. Vejam: são todas palavras que dizem respeito a um laço social em rede muito diferente do que vivíamos no passado, quando havia uma estrutura vertical, linear, hierárquica, progressiva. E quando saímos dessa estrutura vertical para uma horizontal, trocamos a disciplina de seguir preceitos pela responsabilidade de fazer nossas próprias escolhas. Ou seja, quando vivíamos em um mundo padronizado, que definia aonde precisávamos chegar, tínhamos menos responsabilidade sobre nossas escolhas. Tínhamos uma meta definida e a angústia residia no fato de não conseguirmos atingir o ponto almejado. Isso obviamente muda com a chegada da globalização, quando passamos a viver em uma realidade nada padronizada, onde a única certeza que temos diante de dez possibilidades é que vamos escolher uma delas e perder as outras. 
Fazer escolhas dá uma angústia danada!

Luiz Felipe Pondé

O IMPERATIVO DO SUCESSO

Pondé_ Há dois anos escolhi dez alunos do curso de Rádio e TV da FAAP para que ajudassem na produção do programa que apresento na rádio Bandeirantes [Conversa com Luiz Felipe Pondé]. Por escolha deles, dois temas nortearam a pauta: medo e insegurança. Ou seja, quem achar que os jovens estão ótimos, super bem resolvidos e prontos para construir um mundo melhor que seus pais é melhor começar a tomar remédio. Acho que nunca houve uma geração tão medrosa, insegura e em pânico em relação às escolhas do que a chamada geração do milênio. A meu ver, o imperativo do sucesso é uma das fontes desse medo e está em toda parte: hoje é preciso fazer escolhas certas o tempo todo para ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Certa vez li em uma matéria sobre desapego a história de uma mulher que resolveu se mudar de São Paulo para Tiradentes (MG) com a filha levando apenas duas malas. Mas não pensem que elas foram morar na periferia daquela cidade: elas foram, sim, para uma casa colonial no centro antigo, que é cara para burro. Assim, de acordo com essa reportagem, até para desapegar hoje você precisa ter sucesso.

JUNTO, SÓ QUE NÃO

Forbes_ Sou da geração Bossa Nova, quando a gente cantava as mesmas músicas e até o pedido de namoro era padronizado: naquela época, muitos costumavam tocar “Minha namorada” ao violão. Conto isso para dizer que minha geração dividiu as mesmas referências e, portanto, tem a mesma memória afetiva. Quando vi uma techno parade há poucos anos, com milhões de pessoas balançando o corpo de forma solitária, percebi que esse referencial havia mudado bastante. Aqueles jovens estavam estabelecendo o que chamo de “monólogos articulados”, em que é possível estar junto sem a necessidade de se compreender mutuamente.

NARCISOS EM AÇÃO

Pondé_ Hoje vivemos em um mundo que nega a sexualidade. Uma das provas disso é que sexo virou assunto político, discutido inclusive na escola. Há também a crença de que não existe diferença de gênero, pois tudo é construção social. O resultado disso é o crescente desinteresse dos homens, principalmente aqueles entre 25 e 45 anos, pelas mulheres em uma sociedade na qual as relações estão cada vez mais pautadas por uma gigantesca demanda de deveres e direitos. Por outro lado, como podem optar, as mulheres contemporâneas também não querem ter filhos, pois crianças demandam tempo e dinheiro, além de atrapalharem a carreira profissional das mães. Em suma, estamos cada vez mais narcisistas e sonhando com vínculos que não nos façam sofrer.