A nadadora Ana Mesquita, detentora do recorde sul-americano feminino do canal da mancha e ex-aluna do curso de Administração, encarou uma das travessias mais difíceis do mundo com o apoio da FAAP

Ana Mesquita tinha 8 anos quando entrou no mar pela primeira vez. Levada pelos pais de sua melhor amiga de infância, foi em Ubatuba, litoral norte paulista, que a garota do interior descobriu seu hábitat. “Lembro que fiquei com muito medo do mar. Mas não demorou para eu ficar à vontade”, recorda. “Gosto muito do movimento, da flutuação, da sensação de estar voando que a água proporciona.” Na piscina da fazenda onde cresceu, em Tapiratiba (SP), ficava horas imersa. Enquanto seus 11 irmãos brincavam, ela nadava. Com o tempo, revelou-se a única atleta da família – o pai, engenheiro como a maioria dos rebentos, queria que a décima filha fosse médica. Era natural que a aptidão de Ana para o esporte causasse certo estranhamento. Ninguém compreendia o fascínio da menina pela natação – exceto o primogênito, seu grande admirador. 

Pouco depois que iniciou as aulas de natação na adolescência, em São José do Rio Pardo, próximo a Tapiratiba, Ana já competia em águas abertas. “Mas eu abandonava todas as provas. Não por cansaço, mas por medo. Medo do fundo do mar, de tubarão, medo de me sentir mal e não ter ninguém por perto”, conta. Superados os temores, começou a se destacar e a ocupar os pódios dos campeonatos. Porém, por mais que fosse competitiva, vivia uma contradição. “Sempre queria ganhar, mas sentia a dor da derrota de quem perdeu. Isso foi uma das coisas que me fez insistir na natação de longa distância, que é menos competitiva. É uma natação que aproxima as pessoas”, explica. Seu técnico da época contava as histórias da paraibana Kay France, a primeira mulher brasileira que atravessara o Canal da Mancha, em 1979, e que ele havia treinado – no total, 19 brasileiros realizaram o feito. 

Ana tinha 23 anos quando cruzou a nado o Canal da Mancha – braço de mar que pertence ao oceano Atlântico e que liga o sul da Inglaterra com o norte da França. No dia 23 de setembro de 1993, às 5h32 da manhã, ela entrou na água a uma temperatura de 16 ºC e nadou por extensos 36 quilômetros. Braçada a braçada, conquistou o recorde latino-americano feminino da travessia com o tempo de 9 horas e 40 minutos. “É uma experiência marcante, forte, é uma prova de que a gente pode coisas que nem imagina.” Além do frio, do risco de hipotermia, do clima instável e das águas-vivas, Ana tinha um adversário maior para enfrentar: a decepção de não ter conseguido completar a primeira tentativa, um ano antes. “Vivi uma frustração tão grande que o maior medo é passar pela mesma coisa. Encarar isso é o mais difícil”, acredita. “Mas era o desafio de provar para mim que era uma boa nadadora”, relembra Ana, que escreveu o livro A travessura do Canal da Mancha (editora Grua, 2009), inspirada pelo interesse da filha, Ana Clara, hoje com 18 anos.

 

Nadando no Canal da Mancha, aos 23 anos, quando conquistou o recorde latino-americano feminino da travessia

Em Folkestone, na Inglaterra, antes da travessia, Ana Mesquita (à esq.), o treinador Claudio Plit, a nadadora Dailza Damas Ribeiro (falecida em 2008), o nadador argentino Gustavo Oriozabala (sem camisa) e seu assessor de imprensa

Na época estudante de Administração da FAAP, Ana, que já tinha feito uma graduação em Educação Física na USP, se dividia entre a faculdade, os treinos no Clube Pinheiros (SP) e as competições mar afora. Embora sem a convicção de que encararia o desafio novamente, precisaria de patrocínio – na primeira tentativa teve ajuda da família, especialmente a de um tio.  

É aí que entra em cena o professor de sociologia de Ana para mudar o rumo da história. Henrique Vailati Neto, então vice-diretor da Faculdade de Administração (hoje diretor do Colégio FAAP), passou para a diretoria da faculdade a vontade de Ana em seguir com seu sonho (leia box na pág. ao lado). “A FAAP me deu uma bolsa de estudos, pagou as passagens, as despesas da viagem. Do ponto de vista financeiro, mas principalmente pela autoestima, a importância que a FAAP deu ao meu sonho foi essencial. Isso não é comum no Brasil, é mais da cultura americana. Me senti muito acolhida”, conta Ana. “A FAAP dá valor para o atleta, assim como também valoriza iniciativas em outras áreas. Isso é muito bacana”, completa a ex-aluna, que se tornou fotógrafa.

Com o patrocínio em mãos, correu para avisar seu treinador, o nadador argentino Claudio Plit, cinco vezes campeão mundial em natação em águas abertas. Ele lembra que o preparo psicológico foi o diferencial da atleta. “Só um em cada dez terminam a travessia. Ana tinha determinação e foco, por isso conseguiu. Ela era forte, fazia um treino em que ganhava velocidade para competir. O bom ritmo e a experiência de nadar nas águas geladas de Mar del Plata e do Canadá foram seus aliados”, relata Plit, que a acompanhou no barco de apoio nas duas tentativas.

Ana ao lado da placa que indicava a temperatura da água do Canal da Mancha

No retorno da viagem, Ana foi recepcionada com festa na FAAP

Mas não apenas ele. Ana levou na lembrança a companhia do irmão mais velho. Morto em um acidente de carro dois anos antes, ele, um de seus maiores incentivadores, não chegou a vê-la nadar. “De certa forma, a travessia foi uma homenagem, ele deixou de herança essa vontade em mim. Durante todo o tempo pensava no meu irmão me dizendo: “Você tem nível, sim, continue treinando, você ainda tem muito para desenvolver”. Deu no que deu.

MENINA, MAS HEROÍNA
HENRIQUE VAILATI NETO, EX-VICE DIRETOR DA FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO, CONTA COMO DESCOBRIU QUE ANA QUERIA REPETIR O FEITO

“Uma das primeiras coisas que lembro é da Ana comendo barras e barras de chocolate na sala. Ela gastava muita energia nos treinos e precisava de muito carboidrato. Era excelente aluna, mas um dia me chamou a atenção porque a vi chorando enquanto fazia uma prova de sociologia, logo na primeira fileira. Pensei: ‘Não é possível, será que essa menina está nervosa porque está indo mal na prova?’. Perguntei: ‘Ana, por que você está chorando?’. Ela respondeu: ‘Eu nado 10 mil metros por dia e não consigo patrocínio para atravessar o Canal da Mancha’. Não sabia que ela queria tentar atravessar o canal de novo. Quando soube, fui na diretoria da FAAP pedir um patrocínio. Como é que uma menina como ela, extremamente persistente e concentrada, não tinha patrocínio? A FAAP sempre foi muito aberta a esse tipo de apoio. Durante a travessia, uma das irmãs da Ana ligava para nós constantemente. Lembro quando ligou para dizer: ‘Ela atravessou, pôs a mão do outro lado’. No retorno à FAAP, fizeram uma recepção digna de uma heroína. E a Ana voltou a mesma menina, com uma humildade indescritível.”