Grandes empresas apostam na mentoria reversa, que inverte a lógica do aprendizado e coloca jovens profissionais para trocar conhecimento com executivos e diretores promovendo inovação em seus negócios.

Imagine a cena. Uma alta executiva de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo entra no escritório. Smartphone em mãos, sorriso no rosto e alguns “bons dias” distribuídos pelos colegas que cruzam seu caminho. Ela anda determinada para participar de uma importante reunião de mentoria que vai acontecer em sua sala. Agora pause e responda: quem seu  imaginário diz que será o mentor dela? Se você pensou em alguém mais velho, experiente e com lições de vida na ponta da  língua, infelizmente passou longe de acertar. Pelo menos no caso de Fiamma Zarife, diretorageral do Twitter Brasil. A executiva de 47 anos é uma das participantes – e entusiastas – da mentoria reversa, nome autoexplicativo para o processo de trazer jovens profissionais para atuarem como conselheiros de diretores,CEOs e outros profissionais de altos cargos em grandes corporações. “Costumo dizer que a arrogância do ‘tudo saber’ não leva ninguém a crescer. Devemos sempre nos aprimorar e aprender com as outras pessoas. Também acho importante humanizar a figura do líder, por isso vejo grande valor na mentoria reversa, que pode – e deve – ser feita independentemente do cargo ou da idade. Faço reuniões periódicas com jovens estagiários e recém-chegados ao mercado para ter contato com diferentes visões e opiniões sobre diversos assuntos”, explica.

Uma das mentoras que Fiamma teve desde que começou a participar do programa no Twitter no ano passado foi Beatriz Caproni, que começou como estagiária em agosto de 2016 e, desde junho de 2017, é efetiva no time regional de operações de vendas. A jovem de 25 anos confessa que, quando recebeu o convite para a mentoria reversa, a felicidade e a honra em participar do processo dividiram o palco com a preocupação. “Fiquei pensando quais tópicos poderia levar para otimizar nosso encontro. No fim, nossas conversas são sobre assuntos diversos, que vão desde inseguranças profissionais e pessoais, muitas vezes relacionadas a inclusão e diversidade, até sobre o que os jovens estão falando hoje em dia”, revela Beatriz, que recomendou à Fiamma séries como Coisa mais linda, produção original brasileira da Netflix, e o TED Talk “O poder da  vulnerabilidade”, de Brené Brown, que rapidamente entraram para a lista de inspirações da diretora. “Trabalhar com ela é uma sessão eterna de mentoria e aprendizado”, completa.

“Acho importante humanizar a figura do líder, por isso vejo grande valor na mentoria reversa, que pode – e deve – ser feita independentemente do cargo ou da idade. Faço reuniões periódicas com jovens estagiáriose recém-chegados ao mercado para ter contato com diferentes visões” Fiamma ZariFe, diretora-geral do Twitter Brasil.

Enxergar vulnerabilidade nos superiores, fugindo do estereótipo do chefe autoritário,e apostar em um jeito mais humano de liderar é mais do que uma forma amigávelde tratar a nova geração que chega ao mercado – é uma necessidade. De acordo com a pesquisa Millennials no Brasil e na Europa, desenvolvida pela Geometry, agência de pesquisa do grupo WPP, 38% dos jovens priorizam qualidade de vida, enquanto apenas 24% acreditam que a carreira é o mais importante. “Para manter um talento em  sua empresa hoje, é preciso investir em valores importantes para as pessoas. As carreiras precisam ter propósito, e mais, os jovens sentem necessidade de serem melhores”, explica David Whittaker, diretor da instituição.

Além disso, fatores socioeconômicos globais, como o envelhecimento da população, também afeta a forma como as relações de trabalho se dão e reforça a importância dessa troca entre gerações. Aqui no Brasil,o cenário não é diferente: de acordo  com dados do IBGE, o número de idosos no país deve dobrar até 2042, atingindo a casa de 56 milhões de pessoas. “A  senioridade vai estar cada vez mais presente no mercado de trabalho. Temos uma reforma da previdência no Brasil que  dificulta a saída de pessoas mais velhas do mercado. Então promover essa integração entre os profissionais mais velhos e mais novos é, além de positivo, necessário”, diz Rebeca de Moraes,sócia-fundadora da consultoria de tendências Soledad.

TROCA COM TROCO

Antes de chegar às grandes corporações e às startups, a troca entre profissionais de diferentes idades já acontecia na
FAAP. Ainda que com um nome diferente de mentoria reversa, o Núcleo Interdisciplinar de Professores (NIP) nasceu com um  propósito semelhante: formar novos professores e produzir uma renovação docente, colocando-os para trabalhar com veteranos e incentivando a pluralidade de ideias. “Essa é uma iniciativa rara no ambiente acadêmico, que não costuma proporcionar essa troca mais horizontal entre as gerações. Hoje, percebemos que o aluno mudou e a gente, que se formou há menos tempo, também já tinha mudado. Temos o papel de mostrar que os millennials funcionam de um novo jeito, que têm outras formas de dialogar”, explica Gabriela Corbisier Tessitore, professora da área de comunicação e integrante da primeira turma do NIP.

“[O nip] é uma iniciativa rara no ambiente acadêmico, que não costuma proporcionar essa troca mais horizontal entre as gerações. Hoje, percebemos que o aluno mudou e a gente, que se formou há menos tempo, também já tinha mudado.Temos o papel de mostrar que os millennials funcionam de um novo jeito, que têm outras formas de dialogar”, Gabriela Corbisier TessiTore, professora e integrante do núCleo interdisciplinar de professores da FAAP.

Uma das iniciativas que melhor representa essa preocupação são os workshops promovidos pelos novos professores para dividir com os mais velhos as metodologias ativas STHEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Humanidades, Engenharia Matemática). Todo ano, uma dupla do NIP viaja para os Estados Unidos e participa de congressos e de atividades para  aumentar a retenção da atenção dos alunos em sala de aula e introduzir novas plataformas e meios de avaliação que motivam os estudantes.

A professora Sasquia Obata, docente dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Química, enxerga essa interação com alunos e professores mais novos como uma oportunidade constante de melhorar sua forma de ensinar. “Não chegam a ser métodos que a gente desconheça, mas eles nos mostram a melhor forma de aplicá-los, dão a base para que a gente teste na  prática. Hoje, temos muito mais ferramentas do que antes e precisamos saber quais podemos usar para que o aluno aprenda  mais”, conta. Sasquia conta que a convivência com professores e o contato com os conteúdos aprendidos nesses workshops a  motivaram a usar o Facebook e o Instagram para compartilhar textos e imagens que complementavam com os conteúdos em sala de aula.

Nas redes sociais, ela percebeu que muitos dos alunos compartilhavam, curtiam e comentavam – virtualmente e na
sala de aula – sobre os posts da professora. “Também me inspirei em outros integrantesdo NIP para fazer provas on-line, usando imagens e recursos interativos. Os alunos podem até fazer pelo celular. O conteúdo é independente da ferramenta: quem sabe em uma, sabe em todas. Eu tento me aproximar ao máximo dessa nova geração e dessa nova cabeça.”

Foi com o objetivo de melhorar o ambiente e preparar todos os profissionais, dos mais jovens aos mais velhos, para o ritmo acelerado de mudanças do mercado que a Sanofi, uma das maiores farmacêuticas do mundo, adotou a mentoria reversa em 2016.  “O objetivo central é desenvolver líderes – atuais e futuros – e atuar na redução de conflitos. Nós compartilhamos o aprendizado de uma forma em que ambos os lados contribuem na troca de conhecimento, diferente do realizado em uma mentoria tradicional, em que um só passa os seus conhecimentos”, explica Pedro Pitella, diretor de Recursos Humanos da empresa. O projeto está no segundo ciclo, que termina neste ano e, ao seu fim, terá unido mais de cem funcionários da empresa em duplas de aprendizado. Uma delas foi composta pela gerente de comunicação externa Luciana Miranda, 48, e a gerente de grupo de produto Camila Serventi, 33. Elas se encontraram durante um ano e compartilharam os desafios, os obstáculos e as conquistas de suas áreas, sempre recorrendo uma à outra quando o processo parecia não funcionar da melhor forma.
“Diferentemente da sala de aula e do dia a dia, a mentoria reversa proporciona dar um tempo na teoria e na rotina para conversar sobre desafios reais do trabalho. Trocar ideias com minha mentora sobre como resolver um desafio, onde inovar, como fazer diferente é algo que traz riqueza no repertório de cada um de nós”, pontua Luciana. Camila concorda e complementa: “Todos, independentemente de idade,gênero, religião ou etnia temos muito para ensinar. E entendo que esse programa tem como objetivo intrínseco um encontro de pessoas que buscam ouvir e falar. A partir daí, existe um mundo de aprendizado”.

NOVAS ROTAS

Apesar de conectada ao que há de mais atual em gestão horizontal e novas lideranças, a mentoria reversa ainda não faz  parte da cultura de muitas empresas brasileiras. Neste caso, existem algumas soluções para obter resultados semelhantes. Enquanto o Bradesco se associou à rede de coworkings WeWork para criar o Inova, espaço que abriga o centro de inovação e novas tecnologias do banco, e a GOL escolhe concentrar seus esforços criativos no GOL Labs, unidade interna que atua para criar novos serviços e melhorar os já existentes da companhia, a solução encontrada pela FAAP foi unir duas de suas expertises: pensar junto e conectar profissionais. assim, no ano passado, nasceu o B.Hub, espaço que reúne alunos e ex-alunos empreendedores para prestar consultoria para empresas.A ideia é que o projeto hospede times de diferentes organizações por até 21 dias. “Os alunos conseguem trazer um olhar fresco, não viciado, para os projetos. Junto a isso, trazem toda uma leitura comportamental dessa nova geração, com uma pegada mais colaborativa. Outro ponto fundamental é que, com a diversidade de cursos de graduação que a FAAP tem, o potencial de formar equipes multidisciplinares, capazes de ter uma visão 360° do projeto, é gigantesco”, revela alessandra andrade, coordenadora e idealizadora do B.Hub.

Seja no ambiente acadêmico ou no corporativo,envolvendo apenas funcionários ou profissionais de diferentes empresas, promover a troca entre gerações parece ser um dos caminhos para olhar os obstáculos do dia a dia sob um novo ponto de vista e, assim, inovar na resolução. Uma consideração, no entanto, é válida: de acordo com a professora Sasquia Obata, o termo mentoria reversa precisa ser revisto. “Esse processo não é só reverso, mas difuso, multifacetado. Não apenas inverte o raciocínio, mas abre um novo caminho e mostra que o ambiente ideal é aquele que te dá oportunidade de aprender.”