O mercado audiovisual brasileiro mais que triplicou de tamanho nos últimos quatro anos. Depois que a lei da TV paga entrou em vigor, o campo de trabalho para os profissionais de Rádio e TV não para de crescer

Após décadas da implantação da TV a cabo no Brasil, ela finalmente aprendeu a falar o bom português. O idioma nativo era um estranho em sua própria terra nas produções exibidas nos canais por assinatura. Dois fatores foram muito importantes para esta mudança: o aumento do número de assinantes, principalmente das classes B e C – entre 2004 e 2015 essa quantidade pulou de cerca de 3,8 milhões para 19,7 milhões –; e a implantação progressiva da Lei da TV Paga. Em vigor desde 2011, ela exige hoje que os canais exibam ao menos 3 horas e 30 minutos de conteúdo audiovisual brasileiro no horário nobre. “O que aconteceu pós-lei é que a gente produziu e aprendeu mais do que nos últimos 30 anos”, afirma Giuliano Cedroni, sócio e diretor de conteúdo da Prodigo Films, que realizou séries como FDP, para a HBO, Passionais e Copa Hotel, para o GNT.

Equipado com aparelhos de última geração, para captação e transmissão em HD, o Switcher é a sala de controle do que acontece no estúdio. Nele ficam o diretor do programa, o diretor de TV – que é quem faz o corte de uma câmera para outra – e os técnicos envolvidos na transmissão

A previsão é de que o mercado audiovisual brasileiro cresça 6,7% a cada ano até 2018, acima da média global, que será de 4,5% ao ano – essa estatística é da consultoria Pricewaterhousecoopers, conhecida como PwC e referência em auditoria e gestão empresarial. Na internet, o país já é o quarto maior mercado do site YouTube, segundo dados do mesmo estudo. E a Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão registra um crescimento entre seus associados. O número mais que triplicou entre 2011 e 2015: pulando de 130 para 545. “O mercado está aquecido e isso é importante para o aluno da FAAP, já que ele é preparado para ser um empreendedor”, diz Vagner Matrone, coordenador do curso de Rádio e TV. “É evidente que a lei auxiliou. Quando ela surgiu, nós incluímos no curso uma disciplina chamada Produção Executiva na Área de Business. Mas nosso aluno empreende há muito tempo. A gente estimula isso.” Em 1967, a FAAP começou a ensinar Rádio e TV e Cinema dentro do curso chamado Polivalente, que também compreendia as áreas de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. Desde meados da década de 70, as especialidades foram separadas em cursos próprios e seguem preparando profissionais de destaque.

De dentro do estúdio, o operador de câmera realiza a gravação do programa Salada mista

Mesa de áudio digital do Switcher HD

“Antes da lei, ou você trabalhava em emissora, ou estava fadado a fazer vídeo motivacional, publicidade, nada que fosse um formato exatamente televisivo”, conta Marina Filipe, 31 anos, gerente de produção da Endemol, uma das maiores produtoras de conteúdo do mundo e criadora do Big Brother. “Hoje, há uma maior possibilidade de trabalhar logo de cara com televisão. Isso, com certeza, dá uma experiência muito mais forte para os alunos que estão entrando no mercado.” Marina se formou em 2006 na FAAP e atuou numa época em que o mercado mudou e se ampliou. Foi produtora na TV Cultura, trabalhou na equipe de produção do filme Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, e já realizou conteúdo de forma independente para TV a cabo: foi uma das criadoras do programa Sexo no sofá, exibido pelos canais Glitz e Futura. “O grande diferencial da FAAP para mim é a formação de humanas. Disciplinas como Filosofia, Sociologia, Análise da Imagem, com professores muito bons”, reflete Marina. O apresentador Élcio Coronato concorda: “É importante ter toda essa base para ser um profissional de comunicação. É uma responsabilidade muito grande ser um comunicador, principalmente na televisão”. O coordenador Vagner Matrone diz que esta é a principal característica do curso: “Diferentemente de outros, o curso de Rádio e TV da FAAP prepara o realizador do audiovisual – o autor/roteirista, o produtor executivo e o diretor de programa. O profissional que tem uma visão global do processo”.

O mercado está aquecido e isso é importante para o aluno da FAAP, já que ele é preparado para ser um empreendedor – Vagner Matrone, coordenador do curso de Rádio e TV

Logo que se formou, em 2005, Élcio começou a explorar uma nova forma de difusão de conteúdo: a internet. “A iniciativa foi pensar numa maneira de as pessoas verem o que eu faço”, lembra. “Antigamente, mostrava os vídeos dentro da faculdade e ganhei alguns prêmios lá. Hoje, é meio óbvio isto: faz um vídeo e coloca no YouTube. Na época, ninguém falava em YouTube.” O espírito de faça você mesmo rendeu boas experiências profissionais. Élcio trabalhou no programa Legendários, da Record, e, atualmente, apresenta um quadro no Hoje em dia, da mesma emissora, além de ser repórter do Show do Kibe, no canal por assinatura TBS, e manter um canal no YouTube, o Coronhada.

Aluno opera a câmera, durante gravação do projeto de TCC

Na época da implantação da lei, as produtoras independentes tinham enorme dificuldade para realizar conteúdo audiovisual para canais abertos ou por assinatura. O ex-aluno e diretor Paulo Blassioli começou como assistente de direção na Volcano Hotmind. Hoje, o diretor de 30 anos também é sócio da produtora, tem no currículo programas como Mulheres possíveis (e também a versão masculina, Homens possíveis), apresentado por Ingrid Guimarães no GNT, e acompanhou o antes  e depois da Lei da TV Paga. “Foi uma mudança absurda, todas as produtoras, até de publicidade, criaram núcleos para fazer trabalhos para TV”, explica Blassioli.

Alunas gravando

Os futuros profissionais agora se preparam para as cenas dos próximos capítulos. “A cada semestre temos disciplinas nos cursos de Rádio e TV e de Cinema que apontam para essa direção das produtoras independentes, das leis de incentivo”, conta Rubens Fernandes Junior, diretor da Faculdade de Comunicação e Marketing. “Temos aqui também uma Pós-graduação em Roteiro há dois anos e meio. Todas as turmas lotadas, ninguém desiste. A gente criou esse curso pela demanda provocada pela Lei da TV paga.” Os alunos também ressaltam a importância da estrutura técnica da faculdade. “É o diferencial, junto com o corpo docente”, afirma Paula Duprat, 20 anos, aluna do 5o semestre de Rádio e TV. “Além de profissionais bem inseridos no mercado, a FAAP tem todos os equipamentos que o mercado usa. A gente acaba aprendendo bem na prática mesmo.” Eduardo Fernandes, 23, que está no 7o semestre do mesmo curso, completa: “Dá para aprender muito sobre a área que você gosta. Se curte edição, chama o professor e ele leva você até a ilha de edição e ensina, por exemplo”.

Bastidores do estúdio

Professor Vagner Matrone, coordenador do curso de Rádio e TV da FAAP

Os ex-alunos de Cinema da FAAP também se aproveitaram dessa mudança de roteiro no mercado audiovisual. O produtor André Gevaerd, 31 anos, começou sua Kinoosfera Filmes ainda na faculdade. Formado em 2007, André se especializou na produção para cinema. “A Lei da TV Paga veio a favorecer também os produtos audiovisuais de curta e longa-metragem”, explica. “A gente passou a vender mais para os canais de TV a cabo. Eu, que era um alucinado produtor de curtas, hoje posso negociar todo ano a exibição desses filmes.” Já Leonardo Hwan, 24, e Catharina Strobel, 27, sócios na Strada Filmes, se formaram em Cinema em 2011 e se juntaram para fazer a websérie A vida \o/ de Lucas Batista. “A internet foi o melhor caminho, porque permitiu contato direto com o público”, conta Leonardo. A série está parada por falta de dinheiro, mas já deu retorno aos dois. “O fato de ela ter sido veiculada na internet abriu um milhão de portas para a gente”, diz Catharina. “As pessoas passaram a conhecer o que estávamos fazendo.”

Hoje tem muito mais profissionais do que antes e mais oportunidades –  Caio Gullane, produtor

A veia empreendedora está nos cursos há muito tempo. Caio Gullane começou na FAAP, na década de 90, junto com seu irmão, Fabiano, a trajetória de uma das mais importantes produtoras do cinema brasileiro, a Gullane Filmes. “Nós sempre pensamos em ter um negócio nosso”, lembra Caio. “Logo que entrei na faculdade, participei da produção de filmes de conclusão de curso. Eu não andava com os calouros, mas com as
pessoas que estavam terminando a faculdade. O curso possibilitou isso e assim a gente começou a criar uma rede de contatos.” Com a experiência de quem teve papel fundamental na recuperação e expansão do mercado cinematográfico brasileiro, Caio avalia o impacto da Lei da TV Paga para os profissionais do audiovisual. “Hoje tem muito mais profissionais do que antes e mais oportunidades”, explica. “Agora, há espaço para especialização, sim. Como cursos mais específicos sobre a própria produção, financiamento de projetos, com ligações interdisciplinares com áreas como direito, administração. Eu acho que tem um mundo para crescer.”

CONQUISTE SUA INDEPENDÊNCIA
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É importante saber como começar a roteirizar a história de uma produtora independente. “Com esse mercado mais profissionalizado e mais qualificado, entraram novas exigências”, afirma Mauro Garcia, diretor executivo da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão. “Aquela ideia do Glauber Rocha de uma ideia na cabeça e uma câmera na mão já não dá mais resultado.” Algumas dicas dele para os futuros empreendedores:

• Inscreva-se na Ancine_ “Senão você não existe. Nenhum canal hoje pode exibir conteúdo sem registro na Ancine.”

• Procure parceiros em todas as áreas_ “Tem que pensar que está abrindo uma empresa e não um núcleo criativo. Além de um bom roteirista, precisa ter departamento financeiro, assistência jurídica. Uma produtora hoje é um conjunto de competências, senão não sobrevive.”

• Aja como empreendedor_ “Se você é uma pequena produtora, vá buscar no Sebrae orientação para micro e pequena empresa.”

SOM E IMAGEM
AVANÇOS TECNOLÓGICOS PÕEM EM JOGO A SOBREVIVÊNCIA DO RÁDIO, MAS HÁ CONTEÚDOS QUE INOVAM NESTE FORMATO

Roberta Martinelli, 33 anos, apresentadora da TV Cultura e professora da pós-graduação da FAAP, começou sua trajetória profissional na faculdade. Eduardo Weber, seu professor na época em que cursava Rádio e TV, a indicou para um estágio na Rádio Cultura Brasil. Lá, começou o Cultura livre, programa que mostra “a música brasileira que acontece agora”, segundo Roberta. Da rádio o programa migrou para a TV Cultura. “Me dava aflição fazer o programa sem saber se alguém estava ouvindo”, lembra. “Aí, comecei a usar a tweetcam, que possibilitava um retorno direto dos ouvintes através do chat, e a fazer vídeos para divulgação na internet. Eram ideias para chamar a atenção.” O espírito inovador nasceu nas aulas na FAAP, onde estudou. “A faculdade é o momento em que você pode experimentar tudo. Mesmo a maioria não dando certo, vale a tentativa.”

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PROFISSIONAIS DE CANAIS POR ASSINATURA APONTAM OS MELHORES CAMINHOS PARA QUE SUA IDEIA CHEGUE ÀS TELAS

Para quem quer produzir para a TV a cabo, o mais importante é saber o que o mercado deseja. “Este é um momento muito promissor para os profissionais que desejam atuar em produção audiovisual”, explica Ana Cristina Paixão, gerente de produção da Universal Networks International Brasil. “Para ingressar neste mercado vale participar dos eventos do setor, como o Rio Content Market e o Fórum Brasil TV, ter um olhar aguçado sobre a programação dos canais para entender qual é o foco e identificar oportunidades.” Os canais costumam fazer processos seletivos periódicos, os chamados pitching, em que produtores podem apresentar suas ideias. A Globosat ainda tem um portal para que as produtoras enviem seus projetos (http://produtoras.globosat.com.br). “A chave para obter sucesso é estudar e conhecer bem o canal com o qual você deseja realizar uma parceria”, conta Eduardo Nóbrega, coordenador de canal no Multishow. “É importante ter uma sinopse que explique em poucas palavras o projeto, um orçamento compatível com a realidade do mercado e do produto apresentado e
um bom planejamento de execução de produção.” Essas exigências valem tanto para séries, programas e documentários para TV como para filmes. “Passamos a entrar num volume maior de coproduções de longas-metragens”, afirma Henry Galsky, coordenador de projetos do Canal Brasil.
“Só em 2014, terminamos o ano com 56 coproduções fechadas. Sabemos que esse
é um número relevante e que reflete também o incremento do mercado audiovisual como um todo.”

RÁDIO SOB DEMANDA
PODCASTS REVOLUCIONARAM O JEITO DE OUVIR MÚSICA E INFORMAÇÃO

Enquanto escutar as frequências moduladas se torna um hábito cada vez mais sintonizado com o passado, o ouvinte do mundo digital expande seus ouvidos para outra estação: os podcasts. Com pouco mais de uma década de existência, o formato tem atingido sua maturidade. Os atrativos colaboram para mudar a forma como se consome conteúdo em áudio: são fartas as ofertas de programas sobre os mais diferentes assuntos (existem cerca de 250 mil podcasts no mundo inteiro), além da possibilidade de ouvir a qualquer hora, em qualquer lugar, seja no computador, seja no smartphone. O mercado está mais desenvolvido nos Estados Unidos, onde cerca de
75
milhões de americanos ouvem programas neste formato todo mês. Um fenômeno tomou as ondas digitais por lá no ano passado: Serial. O podcast é protagonizado pela jornalista Sarah Koenig, que acompanha a investigação do assassinato de uma jovem em Baltimore. Foi o podcast que alcançou mais rápido o número de 5 milhões de downloads. No Brasil, o mercado começa a se expandir. A estimativa é de que haja 600 produzidos por aqui. O mais popular é o Nerdcast, que tem 1 milhão de assinantes e registra uma média de 700 mil downloads a cada novo episódio.