Não se trata de uma questão de talento, nem de dom. Criatividade - qualidade que emerge hoje como o oxigênio do sucesso profissional - é uma habilidade que pode ser ensinada e que tem que ser (muito!) exercitada

C = R + OP + CLP. Não dê um Google na fórmula assumidamente inventada – ela entrega alguém da área de humanas, que vive das letras, mas que arrisca expressar-se “matematicamente”. Continue aqui, lendo, e você vai entender. E saber a resposta de uma pergunta fundamental nos dias de hoje: qualquer pessoa pode ser ou se tornar criativa? Afinal, criatividade é considerada um dos bens mais preciosos da atualidade, um tempo que pede a todo momento soluções diversas frente a desafios cada vez mais inesperados. Principalmente no território da “nova economia”, que tem exigido dos profissionais de todas as áreas intensa inventividade para ter êxito e sobreviver. Daí a relevância de investigar qual é a fórmula da criatividade e tentar expressar um conceito, que
tem alto teor de abstração, em termos práticos. Sugerindo, por exemplo, que Criatividade é igual a Repertório mais o Olhar Particular de quem está criando e sua Capacidade de Ligar os Pontos. C = R + OP + CLP.

Nas palavras de Fábio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas da FAAP, criativo é “algo que foge do padrão, aquilo que surpreende.” Mas não só isso, ele alerta – é sempre algo que não era esperado, que tem um caráter inédito e, ao mesmo tempo, é melhor do que o que havia antes. Na mesma linha, Ana Carla Fonseca, pesquisadora de economia criativa e diretora da consultoria Garimpo de Soluções, sugere outra definição simples de criatividade: lidar com as coisas de uma forma diferente da usual – e que também gere valor agregado, se o objetivo é ganhar relevância econômica. É uma definição muito próxima da que se usa normalmente para inovação: combinar elementos de forma a chegar a uma solução diferente, que tenha uma finalidade e gere valor reconhecido por terceiros. Vista assim, a criatividade é matéria-prima da inovação.

Esses “momentos eureca” são muitas vezes relacionados a um dom ou talento restrito à casta dos criativos, quando na verdade eles estão muito mais ligados à capacidade – “aprendível” – de colecionar referências e conectar pontos. “Criatividade é treino. É suor. Muito suor, para falar a verdade”, afirma a publicitária Irene Knoth, sócia da IK Ideas (a primeira consultoria de estratégia criativa do mercado brasileiro) e professora da FAAP desde 2004. “Claro que tem aquele momento mágico do estalo, da ideia, mas ela não vem pronta.” O que é preciso, na verdade, é exercitar esse pensar fora da caixa.

Mas o que significa isso na prática? A rigor, pensar diferente é aprender a ligar pontos de uma maneira que nunca havia sido tentada. Para isso, o fundamental é ter repertório e propriedade (o tal olhar particular) para fazer conexões. Ou seja, a criatividade é democrática, disponível para todos. E, como regra, é um reflexo do repertório individual de cada um. Portanto, jamais será a mesma para um advogado, um engenheiro e um estilista. Nem para profissionais da mesma área.

“NÃO DÁ” NÃO DÁ

Há um pensamento em voga segundo o qual se você não é criativo, está fadado ao fracasso. Não é mero exagero retórico. Afinal, a sociedade cria iguais, mas valoriza a diferença. Pense, por exemplo, num restaurante. Boa comida é quase uma commodity. A questão hoje é outra: “Que experiência única o seu restaurante oferece ao cliente”. Isso força (ou deveria forçar) profissionais de todas as áreas a refletir sobre como estimular a criatividade.

O primeiro desafio de quem quer desenvolver a criatividade é riscar de seu vocabulário a expressão “não dá” e substituí-la por “se tivesse solução óbvia, alguém já teria feito”. Diante de uma demanda aparentemente impossível, o procedimento sugerido por Fábio Righetto é parar, sentar e pensar serenamente sobre qual é o desafio. Exercita-se, assim, a curiosidade. Isso é, inclusive, o que fazem os alunos da FAAP nas aulas de Criatividade, disciplina implantada na grade curricular há mais de 20 anos e que hoje permeia a maioria dos cursos da Fundação. “É um espaço onde o aluno identifica seus valores, incômodos, pontos fortes e fracos – para então confrontá-los com as realidades das profissões e desafios do dia a dia”, explica Righetto, coordenador da disciplina.

O segundo truque é subverter o senso comum (e de autopreservação) que recomenda ficar calado quando não se tem certeza da resposta certa. Em criatividade é o contrário: especular é necessário para achar uma solução. Isso porque mais importante do que o nascimento de uma ideia no cérebro de alguém – a rigor, temos ideias o tempo todo – é o seu cultivo até o ponto em ela seja capaz de caminhar com as próprias pernas. A taxa de mortalidade precoce das ideias é altíssima – a maior parte delas morre segundos depois de concebidas debaixo do chuveiro ou na esteira da academia. Para preservá-las e nutri-las, o guru da inovação Steven Johnson – autor do livro De onde vêm as boas ideias (Zahar) – aponta para as “redes líquidas” que se formam em ambientes caórdicos (caos + ordem), como cafés ou espaços de coworking, por exemplo, nos quais as ideias rapidamente amadurecem e, antes que seus criadores percebam, estão copulando alegremente. Neste sentido, conectar seus insights (ainda que na fase de palpites) com os de outras pessoas é o melhor a fazer para que as ideias frutifiquem.

As chances de sucesso neste processo aumentam, é claro, quando se tem referências e experiências na bagagem. Quanto maior o repertório de uma pessoa, mais criativa ela pode ser. Por perceber, por exemplo, padrões que os outros não percebem. Steve Jobs dizia que se não tivesse tido suas experiências com LSD e depois feito um mergulho interior no período que passou na Índia, não teria sido a pessoa que foi nem teria tido a mesma quantidade de pontos para ligar nos seus dois períodos épicos à frente da Apple. Como regra, quanto mais pontos tem para ligar, mais chances de ter sucesso criando você tem.

Neste sentido, vale pensar no repertório como uma caixa de ferramentas. É com esses instrumentos que se pode moldar os insumos disponíveis no cotidiano de formas surpreendentes. “As experiências e pessoas no caminho são todas matérias-primas para a criatividade”, afirma Lourenço Bustani, fundador e CEO da Mandalah, uma consultoria especializada em inovação consciente. Quando lhe perguntam como estimula a própria capacidade criativa, Lourenço aponta para além das paredes da sede da Mandalah, num bonito casarão colorido na Vila Madalena: “Vivendo, saindo da zona de conforto em direção à zona de confronto, ao desconhecido, de peito aberto”.

Veja em breve como outros cinco profissionais — a maioria deles formados na FAAP — desenvolvem sua criatividade e o que fazem para mantê-la afinada no dia a dia.

A CRIATIVIDADE DA ESCASSEZ 

 Potencializar ideias para transformar o mundo. É isso o que faz o engenheiro Gustavo Nahas, cofundador da Base Colaborativa

 

“Em um contexto repleto de modelos antigos que parecem colapsados, a criatividade nos dias de hoje parte da conciliação entre novos hábitos, tecnologias modernas e uma vontade incansável de melhorar a qualidade de vida das pessoas.” Quem põe a discussão nestes termos é o engenheiro Gustavo Nahas, cofundador da Base Colaborativa, entidade sem fins lucrativos que tem como missão “potencializar pessoas e ideias que querem transformar o mundo”.

Quando está exposto ao problema da escassez, raciocina ele, é possível se conformar e dizer que as coisas são assim mesmo. “Mas quando se tem um ideal, você percebe oportunidades que pessoas conformadas ou não sonhadoras deixam passar.” O conformismo, neste sentido, mata a criatividade.

Hoje com 29 anos, Gustavo, que se formou em Engenharia Civil na FAAP, trabalha na área até hoje na empresa de sua família e, em paralelo, investe em iniciativas empreendedoras, como a Base, fundada em 2010. Tudo começou com um grupo de quatro ex-colegas dos tempos de escola, discutindo suas angústias sociais e existenciais – e lamentando a passividade de seus pais perante os problemas de que reclamavam.

 Criar a Base foi uma forma de tomar uma vacina antifrustração e oferecê-la a quem também quisesse. “No início, não tínhamos a menor ideia do que podíamos fazer, porque nunca tínhamos vivido os problemas em si. Vivíamos numa bolha e precisávamos aprender”, lembra Gustavo. Nasceu assim a prática de convidar semanal- mente pessoas envolvidas com questões sociais para falar ao grupo sobre problemas e possibilidades. Elas se tornam uma fonte do insumo básico da criatividade: repertório.

Hoje, os temas em que é possível se engajar via Base vão de reciclagem a consciência política. Há atividades quase todas as noites. “Às segundas-feiras, juntamos jovens com diversas causas, que eles mesmos escolhem, para planejar ações”, conta. Às terças e quintas, voluntários vão ao espaço e oferecem cursos gratuitos. Às quartas, recebem gente do terceiro setor para aprender sobre problemas e soluções, atividade que deu origem à Base. “Ir a uma ONG para aprender é uma iniciativa que depende da sua curiosidade e, principalmente, da sua vontade de ganhar mais bagagem para ligar os pontos”, diz ele.

“Quando se tem um ideal, você percebe oportunidades que pessoas conformadas ou não sonhadoras deixam passar”

Gustavo Nahas, engenheiro formado na FAAP, cofundador da Base Colaborativa

NATUREZA PODEROSA 

Esportes ao ar livre, meditação e budismo fazem parte da receita de inventividade do designer Fred Gelli, criador da marca da Rio 2016

 

Em 2014, o designer brasileiro Fred Gelli foi incluído pela Fast Company, uma revista americana focada em tecnologia, negócios e design, na lista das pessoas mais criativas do mundo. O reconhecimento veio principalmente por seu pioneirismo em mesclar natureza com negócios. Dois anos depois, o mundo conheceu a marca tridimensional por ele criada para a Olimpíada do Rio de Janeiro e suas ideias para a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos.

Antes, durante e depois disso, Fred sempre dividiu seu tempo entre o comando da Tátil Design de Ideias, sua agência, e palestras mundo afora sobre suas áreas de especialização, como biomimética (a imitação da natureza no design) e design sustentável. Quem conhece o designer e sua filosofia de trabalho talvez se anime a resumir os elementos diferenciadores do seu processo criativo em uma sigla de inevitável conotação televisiva: BBB.

“Meu processo de conexão com a natureza é uma fonte poderosíssima tanto para meu processo criativo como para o meu bem-estar”

Fred Gelli, Designer criador da marca da Rio 2016

AFIANDO O OLHAR 

 Fernanda Young voltou a estudar para aprender a ser (ainda mais) criativa

 

Fernanda Young é escritora, atriz, roteirista, apresentadora de televisão, criadora multimídia – e mãe de quatro filhos. Para ela, criar é alterar a realidade, transformando-a em algo novo. “Diante da época obscura em que vivemos, sinto-me inspirada a criar, visto que não tenho tolerado muito bem a realidade”, diz. “A crise é o disparador do olhar criativo. O genuíno artista sente-se incomodado e para sobreviver ao incômodo, cria.” E ela complementa: “Tive a boa sorte, unida a muito esforço, de viver da minha arte. Acredito que não há talento que se mantenha sem trabalho árduo, sem estudo”.

Tanto que Fernanda voltou a estudar – hoje é aluna de Artes Visuais na FAAP – e diz estar convencida de que é possível, sim, aprender a ser criativo, inclusive em novos territórios. “Sempre tive algum talento para desenho. Fazer esse curso na FAAP fez com que esse talento se expandisse. É como um elástico, você deve puxar”, diz. “Muita gente questionou minha volta ao estudo. Mas tive a humildade de voltar a estudar numa faculdade. Não para conviver com os mais jovens, como alguns imaginaram, nem para me distrair, mas para aprender. Foi uma das melhores coisas que fiz”, garante.

“Diante da época obscura em que vivemos, sinto-me inspirada a criar. A crise é o disparador do olhar criativo”

Fernanda Young, criadora multimídia e aluna de artes visuais da FAAP

Processos criativos bem estabelecidos são mais importantes para Fernanda hoje, aos 47 anos, do que eram na sua juventude. “Quando escrevi meu segundo romance, aos 25 anos, talvez ainda estivesse motivada por inspiração. Com a chegada da maturidade artística, o que tenho é foco e método”, compara. Ela hoje tem marido, filhos, uma empresa, funcionários, paga contas e lida com uma vida doméstica que classifica como enfadonha. “É como ter uma enceradeira da década de 70 ligada o tempo todo. Como acreditar na musa?”, questiona-se. “No entanto, sem criar, esta enceradeira iria me enlouquecer. Por isso crio, mas sempre com respeito. Me arrumo para criar – o artista deve ritualizar a sua criação.”

FÁBRICA DE IDEIAS 

Cinco dicas para ser criativo que funcionam há mais de 70 anos

 

Há tempos se procura uma teoria geral da criatividade. James Webb Young, já definido como “uma força motriz por trás da invenção da moderna publicidade”, criou uma técnica em cinco passos para produzir ideias em 1939. “O hábito da mente que leva à busca de relações entre fatos torna-se da maior importância na produção de ideias”, escreve ele no livro A Technique for Producing Ideas, publicado em 1965.

James não endossa a visão romântica do inventor inspirado. Bem ao contrário. “A produção de ideias é um processo tão definido como a produção dos Fords”, afirma ele, para em seguida argumentar que “a produção de ideias também é executada em uma linha de montagem; que nesta produção a mente segue uma técnica operativa que pode ser aprendida e controlada, e que o seu uso efetivo é tanto uma questão de prática na técnica quanto de uso efetivo de qualquer ferramenta”. Veja agora os cinco passos traçados por James.

1. REUNIR A MATÉRIA-PRIMA_

“Toda pessoa criativa realmente boa que já conheci sempre tinha duas características visíveis. Primeiro, não havia assunto sob o sol em que não pudesse se interessar facilmente – dos costumes de enterro egípcio até a arte moderna. Em segundo lugar, era um navegador em todos os tipos de campos de informação.”

2.DIGERIR O MATERIAL_

“O que você faz é pegar os diferentes pedaços de material que reuniu e senti-los, por assim dizer, com os tentáculos da mente. Você põe dois fatos juntos e vê como eles se encaixam. O que você está buscando agora é uma síntese em que tudo vai se juntar em uma combinação perfeita, como um quebra-cabeças.”

3. PROCESSAMENTO INCONSCIENTE_

“O que você tem a fazer neste momento é passar o problema para sua mente inconsciente e deixá-la trabalhar enquanto você dorme. Quando você chegar a esta terceira etapa na produção de uma ideia, solte o problema completamente e volte-se para o que estimule sua imaginação e suas emoções. Ouvir música, ir ao teatro ou ao cinema, ler poesia ou uma história de detetive.”

4. O MOMENTO A-HÁ_

“Do nada, a ideia aparecerá. Irá até você quando menos espera – enquanto se barbeia, toma banho ou, na maioria das vezes, quando está meio acordado de manhã. Ela acorda você no meio da noite.”

5. A IDEIA ENCONTRA A REALIDADE_

“Não cometa o erro de manter sua ideia perto do peito nesta fase. Submeta-a à crítica judiciosa. Quando você fizer isso, uma coisa surpreendente acontecerá. Você descobrirá que uma boa ideia tem qualidades autoexpansivas. Ela estimula aqueles que a veem a adicionar algo. Assim, as possibilidades que você negligenciou virão à luz.”

REVELADORA DE POSSIBILIDADES 

A designer Paula Dib é capaz de enxergar potencialidades onde menos se espera

 

Como trabalha com artesãos, em geral de comunidades de baixa renda, a designer Paula Dib volta e meia desembarca em locais onde, à primeira vista, não há com o que trabalhar. Foi assim quando aceitou um trabalho numa região paupérrima de Moçambique, a ser feito com resíduos. “Quando cheguei lá, não tinha resíduo nenhum. Era ‘tão nada’ que não tinha nem lixo”, lembra. “Trabalhamos com sabugo de milho para criar brinquedos pedagógicos.”

É em circunstâncias assim que aflora sua capacidade de revelar possibilidades onde menos se espera. “Dá uma comichão e falo: ‘Não, alguma coisa tem aí’”, conta. Seu aprendizado no episódio serviu de alerta: “Desconfie do que você está vendo, porque o primeiro olhar é quase sempre de julgamento. Desconfie e você vai ver novas camadas”.

O desenvolvimento de seu estilo pessoal de criatividade foi iniciado no curso de Desenho Industrial (hoje, Design de Produto) da FAAP, onde se formou em 2000. Naquela época as referências para uma jovem designer brasileira eram o design italiano, o escandinavo, a Feira de Milão… “Eu não conseguia construir sentido a partir daquilo e comecei a questionar: se vamos ficar só olhando para fora, nunca seremos o que eles são e jamais seremos o que podemos ser”, diz ela.

 “Desconfie do que você está vendo, porque o primeiro olhar é quase sempre de julgamento. Desconfie e você vai ver novas camadas”

 Paula Dib, designer e articuladora social, formada na FAAP

 Paula se embrenhou no Brasil, foi conhecer o trabalho de artesãos e entender seus processos produtivos. “É um conhecimento lindo que era preservado, e isso para mim fazia muito mais sentido que qualquer sofá na Feira de Milão”, conta. Desse giro pelo país nasceu seu compromisso profissional com a criatividade genuinamente brasileira.

Recém-chegada do Vale do Jequitinhonha, Paula conta que ali conheceu Zezinha, uma artesã internacionalmente reconhecida, que nunca sai do vale e nem celular possui. “Ela tem essa capacidade [de criar] justamente por estar tão preservada”, acredita Paula. Faz pensar numa máxima da literatura: se quer ser universal, escreva sobre sua aldeia. Já em São Paulo, ela teve uma reunião com o curador Marcello Dantas, um típico “cidadão do mundo”. Sua síntese desses extremos? Sejam suas referências as de uma aldeia real ou da aldeia global, o que faz a diferença é a forma como você as digere. “É aí que está a criatividade”, diz.