Um dos principais nomes da nova geração, a artista plástica paulistana Carla Chaim relembra o início da carreira, prestes a ganhar biografia e exposição individual na Galeria Raquel Arnaud

De cabelo preso e com as costas desnudas para a câmera, Carla Chaim prende bastões de óleo no meio dos braços e ataca o papel branco com uma ginga que contrai seus músculos dorsais enquanto rabiscos pretos ganham formas distintas dos dois lados da obra.

Os traços que nascem chamam tanto a atenção como a reação do corpo diante dos movimentos improváveis da artista plástica paulistana de 34 anos. Por mais que o quadro da imagem esteja fechado da cintura para cima, a primeira reação ao término do vídeo de quatro minutos é querer ver mais uma vez, para se atentar a um novo ângulo.

Com um nome que mais parece título de livro do escritor japonês Haruki Murakami, a obra Movimento singular do verde para seu complementar no tempo desaparecido data de 2008 e é considerada por Carla como um turning point em sua vida. Até então, corpos alheios eram representados de forma figurativa; a partir desse vídeo, seu próprio corpo vira o principal instrumento de trabalho, ganha uma dimensão inesperada e dá ainda mais autenticidade para sua produção.

Dessa reviravolta profissional até hoje, as obras que pontuaram a última década de sua carreira foram reunidas em uma biografia, organizada pela editora Cobogó, com lançamento previsto para abril. O vídeo, descrito acima, será contemplado. “Foi o primeiro trabalho que consegui concretizar o que eu queria. Percebi que o corpo podia ser ativo, e não mais representado. Antes, desenhava o movimento de pessoas dançando, as esculturas tinham articulações, era o corpo pensado. Esse trabalho me trouxe o corpo como ferramenta”, relembra ela, que no mesmo mês abre uma exposição individual na galeria Raquel Arnaud, instituição que a representa desde 2012.

PERCURSO

Artista premiada e com obras expostas em Madri, Moscou e Japão, Carla Chaim percorreu um longo caminho até se reconhecer como tal. Aos 17 anos, ingressou no curso de Artes Plásticas na FAAP pensando que o meio se restringia à pintura e à escultura. Entendeu, com os anos, que esse universo abrangia vídeo, performance, gravura, instalação. “Passava as tardes nos ateliês da faculdade fazendo gravura, era apaixonada”, conta. Quando terminou a graduação, em 2004, sentiu que ainda estava em fase de experimentação. “Tinha dúvida do que era ser artista plástica como profissão. Não vejo como alguém consegue sair da faculdade aos 22 anos e já ter uma poética. Levei um tempo para encontrar a minha”, diz.

Volumes III, II e I, de 2014

Para se aprofundar nas pesquisas – e também seguir frequentando as oficinas e os ateliês da Fundação –, Carla emendou uma pós-graduação em História da Arte, onde foi instigada a fazer uma investigação sobre o corpo. “Estudei a Escola de Frankfurt, o papel do corpo na sociedade e comecei a pensar o corpo físico social e seus limites. Isso ficou na minha cabeça.” O contato com os professores nessa fase foi essencial. “São pessoas que entraram na minha vida”, comenta. Uma delas, a artista plástica e professora do curso de Artes Plásticas Georgia Kyriakakis. “A Carla era totalmente envolvida com sua produção acadêmica e artística, estava sempre além do que era exigido. Muito observadora, diria que entre falar e escutar, escolhia a segunda opção, talvez porque já soubesse do valor da escuta para a formação e a reflexão”, relembra Georgia, colega de galeria Raquel Arnaud. “Admiro a maneira como ela desenvolve o desenho. A artista se apropria dele e o desdobra em ações, objetos, fotos. Não é à toa que seu trabalho tem sido reconhecido nacional e internacionalmente. O resultado da dedicação e seriedade se chama competência! E ela tem de sobra.”

PERCEPÇÕES

Carla é dedicada desde menina. Sapateado, jazz e balé moderno a acompanharam na infância e adolescência. Com a dança, ganhou consciência corporal ainda cedo. Hoje, pratica ioga. Música também foi importante na sua formação. Cresceu em São Paulo ouvindo jazz por causa do pai, contrabaixista paulistano. Sua mãe, carioca, trabalhou como aeromoça até Carla e seus irmãos nascerem. Nos programas de família, as idas a museus eram comuns. “Escuto muito jazz no ateliê quando estou trabalhando. Gosto do improviso, de não ter começo, meio, fim, ninguém cantando.”

É no segundo andar de um sobrado na Vila Madalena, com enormes janelas que dão vista para um jardim, que Carla passa os dias e, às vezes, as noites, exercitando seus desenhos, vídeos, instalações, fotografias. No andar de baixo, o espaço é dedicado aos encontros semanais e residências do Hermes Artes Visuais, dirigido por Carla desde 2011. Ao lado dos artistas Nino Cais e Marcelo Amorim, promove orientação para novos talentos. “Eu sou totalmente intuitivo, a Carla é quem organiza tudo, ela tem uma potencialidade que me fortalece. É empreendedora, certeira, chegou aonde chegou porque é séria no que faz, tem uma qualidade invejável”, diz Nino Cais, amigo há oito anos.

A obra Movimento singular do verde para seu complementar no tempo desaparecido, de 2008, considerada por Carla como um turning point em sua vida

Colapso de onda, pó de grafite sobre parede e chão, exposta no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, em 2015

Nomeada como uma das 21 finalistas do Future Generation Art Prize, prêmio importante do meio, que seleciona artistas de todo o mundo – houve mais de 4 mil inscritos –, ano passado realizou duas coletivas, uma delas em Kiev, na Ucrânia. Carla levou vídeos, fotografias e fez uma instalação com estruturas de grafite. “Nunca tinha vivido essa responsabilidade grande. Tinha que responder à expectativa.” Para a mostra, moldou peça a peça no PinchukArtCentre. “O grafite engana os olhos, parece metal, as pessoas ficavam intrigadas. Mas o material não é nada durável, não tem como guardá-lo. A obra é quase um congelamento de uma ação”, explica.

ESPAÇO

Na outra coletiva, no Palazzo Contarini Polignac, em Veneza, evento paralelo à Bienal de Veneza, realizou a instalação Project to resize the room (2017) com papel-carbono, uma de suas matérias-primas preferidas atualmente. “Ele tem a textura e os tons que uso nos desenhos dobrados. A frente é preta, o verso é cinza e tem um filete branco. Gosto de trabalhar a frente e o verso”, detalha a artista, que opta por trabalhar com cores neutras, uma particularidade de suas obras. “Prefiro usar os materiais como eles são. Acho que a cor traz um outro conceito.” Em uma das salas do Palazzo, forrou o chão com papel-carbono e partiu para a ação, registrada em vídeo. “A ideia era transformar o chão preto, quase um mar de petróleo, em outra coisa”, explica. “Meus trabalhos têm um certo risco. Achei que faria um retângulo menor, mas saiu uma forma orgânica.”

 

Instalação Project to resize the room, feita de papel-carbono, exposta em uma coletiva em Veneza, na Itália

Paisagens impossíveis I, da série CorpoCubo, de 2009-2014

Pesquisar a imagem a partir da arquitetura do espaço é outra de suas especificidades. O processo criativo de Carla envolve regras e procedimentos, mas ela deixa livre o momento entre o começo e o fim – não há ensaios. Como no vídeo Presença (2015), apresentado em Kiev, onde passa mais de 20 minutos desenhando o espaço com uma linha preta, tentando mostrar uma tridimensionalidade. “São como atos, como se a cortina abrisse cada vez e começasse um novo espetáculo. Não gosto de fazer uma peça coreografada, a câmera tem que flagrar a ação”, diz. Assim como aconteceu lá em 2008, registrando e impulsionando o início de sua trajetória.