Em 14 anos, o FAAP moda já destacou coleções de mais de 80 alunos, preparando e alavacando seus participantes para o mercado de trabalho, como Fernanda Yamamoto, hoje à frente de sua marca

Em A viagem de Chihiro (2001), a família da garota que dá nome ao filme está de mudança para uma nova cidade. Perdido no caminho, seu pai decide entrar em um túnel que será o início da jornada de Chihiro por um mundo fantástico. Fã da premiada animação japonesa, Fernanda Yamamoto se inspirou no universo lúdico e nas cores do filme de Hayao Miyazaki para criar a coleção que apresentou no FAAP Moda, em 2005. Entre os principais talentos da moda brasileira, Fernanda também se aventurava por um novo mundo: depois de se formar em Administração, ela tateava o universo da moda, quando se matriculou no Curso Sequencial da FAAP. Decidiu se inscrever “sem maiores pretensões” para a edição de estreia do concurso, em 2004. Venceu tanto a primeira quanto a segunda edição, um ano depois, com a coleção inspirada em Chihiro. “Foi muito importante, era minha primeira experiência em desenvolver uma coleção e pensar em um desfile”, conta a estilista que, em 2007, criou sua marca homônima e três anos depois estreava na passarela do São Paulo Fashion Week.

Desfile da coleção de Pedro Novizala, no ano passado

Coleção de Vitor Fernandes, no FAAP Moda 2014

Desde lá, o concurso destacou para formadores de opinião o trabalho de cerca de 80 estudantes. “Sem o FAAP Moda, o mercado não poderia ver, analisar e absorver o trabalho de jovens criadores, que poderiam ficar impossibilitados de desenvolver na prática as suas ideias”, opina Maurício Ianês. Com trabalhos para Alexandre Herchcovitch e Paula Raia no currículo, o stylist Ianês – formado em Artes Visuais pela FAAP – acompanha os alunos durante todo o processo do concurso. “É um evento muito importante para a moda e principalmente para os alunos, que podem apresentar uma coleção com total liberdade de ideias. É uma vitrine para eles”, conta o estilista Reinaldo Lourenço. “Foi no último FAAP Moda que conheci a minha atual assistente [Elisa Sonnervig].”

DUPLA DE SUCESSO
O concurso foi criado por duas ex-alunas – Marianna Dal Canton e Renata Paternostro –, quando a dupla ainda não tinha 20 anos. “Foi muito legal a FAAP ter apostado no projeto de duas garotas. Estruturamos da nossa maneira, fomos atrás de parceiros, estipulamos uma verba e apresentamos à faculdade”, conta Marianna, que é neta de costureira, foi modelo e hoje é professora do curso de Arquitetura da FAAP, do qual foi aluna. “Nossa pretensão nunca foi lançar um talento, mas um profissional preparado para o mercado. O aluno pode ser um prodígio, mas se não estiver pronto como vai deslanchar?”, defende.

O aluno tem que mostrar que tem um ponto de vista, muito mais que uma roupa pronta para o mercado, comercial. Melhor pecar pela ousadia do que pela falta – Fernanda Yamamoto, estilista formada pela FAAP

A estilista em seu ateliê hoje, no andar de cima da loja da marca que leva seu nome

Coleção vencedora de Fernanda Yamamoto. no FAAP Moda de 2005

Para isso, a dupla estruturou um concurso em que os seus seis finalistas criam, sob a orientação de profissionais consagrados no mercado, uma minicoleção de seis looks apresentados em um desfile para formadores de opinião – uma amostra do universo que encontrarão assim que deixarem a faculdade. “O aluno cria roupas durante o curso, mas não junta todas as peças. Quando ele participa do FAAP Moda, ele faz todo o processo: desenho, costura, desfile, imprensa. É uma noção real do que é fazer um desfile, entender como o primeiro look se transforma no segundo até o sexto e como isso conta uma história”, explica Renata, que se formou em Design de Moda. “No concurso, o estudante também terá que pensar no cabelo, na maquiagem, na música, na luz. Irá discutir tudo isso com profissionais e recebe uma orientação do que dá certo, ou não, e de como orquestrar tudo isso. É como uma especialização dentro da própria faculdade”, completa. A FAAP oferece uma ajuda de custo aos alunos, mas mesmo assim os incentiva a buscar patrocinadores para suas coleções, seja para um bordado ou um tecido específico.

Corpo de jurados da décima edição, em 2013. Da esq. para a dir.: Samuel Cirnansck, Carlos Miele, Paula Ferber, Lino Vilaventura, Gloria Coelho, Oskar Metsavaht e Pedro Lourenço

CRIATIVIDADE SEM RESTRIÇÕES
Esse mergulho no ambiente profissional não restringe a criatividade do aluno, pelo contrário. Elisa Sonnervig se inscreveu no concurso desde seu primeiro ano no curso de Design de Moda. “Foi por causa do concurso que quis fazer a faculdade lá”, conta. Quando finalmente conseguiu ser selecionada entre os finalistas, em seu último ano do curso, em 2016, foi eleita vencedora pelo júri. Sem restrições, Elisa apresentou uma coleção que aumenta o tamanho de braços e ombros, inspirada em uma série de documentários de arte da BBC que tenta responder por que nós representamos nossos corpos por meio da arte de uma forma exagerada. “Procurei criar uma silhueta nova. Aquele era o momento de fazer uma coisa totalmente diferente.” Um dos jurados, o estilista Eduardo Toldi, nome por trás da Egray, indicou o trabalho dela para Reinaldo Lourenço, que a contratou como sua assistente de estilo.

A comissão julgadora do FAAP Moda 2016: Fernanda Binotti, Maurício Ianês, Eduardo Toldi, Lorenzo Merlino, Paula Raia e Alexandre Herchcovitch e uma das idealizadoras do evento, Marianna Dal Canton (ao centro)

Para Elisa, o mais importante de participar do concurso foi a experiência. “Nunca tinha lidado com profissionais de moda – stylists, modelistas, costureiras. Tive que entender realmente o que queria para minha coleção para passar para eles.” Os finalistas são acompanhados por Maurício Ianês desde a escolha de tecido até o desfile, um processo de quatro meses. “Desenvolvo um trabalho de consultoria e styling para que eles possam alcançar o melhor resultado possível na execução e na criação da imagem final das suas coleções”, conta ele. “O concurso tem toda a estrutura e apoio dos professores. É uma oportunidade que pouquíssimas faculdades oferecem”, completa Fernanda Yamamoto. Para Marianna, este contato com outros profissionais do mercado é também uma maneira de os alunos criarem uma network.

Sem o FAAP Moda, o mercado não poderia ver, analisar e absorver o trabalho de jovens criadores, que poderiam ficar impossibilitados de desenvolver na prática as suas ideias – Maurício Inaês, stylist e ex-aluno da FAAP

Colecão de Alex Cassimiro, vencedor da 4a edição do concurso, em 2007

Além de Ianês, outro nome que auxilia os estudantes é a professora Andressa Nóbrega. Aluna da primeira turma de graduação de Design de Moda da FAAP, ela foi finalista do concurso em 2009 e 2010, quando ficou em terceiro lugar. Para sua segunda coleção apresentada no FAAP Moda, criou uma matéria-prima que misturava tule e cobre para a qual chegou a desencapar 400 metros do fio metálico. “Todo o processo é muito enriquecedor. Era a primeira coleção que fazia. Vi aquilo saindo do papel, fiz contatos. Você acaba aprendendo muito também com seus erros.” Andressa passou pela equipe de estilo da Carlos Miele e hoje é consultora da Dudalina, Bo.Bô e Le Lis Blanc, além de  lecionar diversas matérias do curso de Design de Moda da FAAP. No concurso, orienta os estudantes que planejam se inscrever. “É um apoio que a faculdade oferece aos alunos que querem mais orientação sobre o projeto. É como se eu fosse uma mentora”, explica.

Coleção de Dani Smitas, que ganhou o primeiro lugar em 2014

Foi graças ao incentivo de Andressa que Carolina Otília Martins Freire Costa, aluna do 7o semestre, decidiu se inscrever no FAAP Moda. A estudante amazonense encontrou nas suas próprias raízes a inspiração para sua coleção. “Fiquei meses pensando em um tema, mas não eram naturais. Queria mostrar algo da minha região porque na faculdade muita gente não sabe nada sobre o Amazonas e sua cultura, que é tão rica. Quando cheguei à essa conclusão, o tema me veio imediatamente.” Neta e filha de seringueiros, Carolina criou uma coleção inspirada na profissão. “A vida inteira meu pai me contou histórias do seringal. Foi muito natural quando comecei a desenhar, vieram todas as referências.” A estudante, que estagia na marca AYA, apresentou uma coleção de peças de linho, muito usado pelo seu pai, e criou micronervuras no tecido inspiradas nos cortes das árvores para extrair o látex.

Maurício Ianês na seleção da 1a fase de 2016

Andressa Nóbrega, ex-aluna e professora do curso de Moda

Assim como Fernanda Yamamoto, outros finalistas do FAAP Moda abriram suas próprias marcas – caso de Douglas Harris, Bruno Gonzaga e Daniela Smitas (Smit Couture). “A mãe do Douglas tinha uma confecção que atendia grandes marcas de varejo para as quais ele desenhava”, lembra Marianna. “Depois de vencer o FAAP Moda, ele criou coragem para sair da confecção e abrir sua própria marca. Uma das maiores alegrias que tive com o concurso foi encontrar suas criações nas araras de uma multimarcas.”

Nossa pretensão nunca foi lançar um talento, mas um profissional preparado para o mercado. O aluno pode ser um prodígio, mas se não estiver pronto como vai deslanchar? – Marianna Dal Canton, uma das idealizadoras do concurso

CADA VEZ MELHOR
Ao longo de sua trajetória de 14 anos, o FAAP Moda passou por várias renovações. A partir de 2009, por exemplo, além do voto de júri, o evento passou a contar também com a opinião do público. “O Alexandre Herchcovitch, que estava no júri, nos chamou a atenção para um dos seis finalistas que não ficou entre os três primeiros colocados, mas que iria ter sucesso porque compreendeu o que o mercado desejava. Foi aí que entendemos que teríamos que ter dois prêmios”, conta Marianna. A plateia do desfile, realizado no Teatro da FAAP, passou então a votar. Já o desfile passou a ser transmitido pela TV FAAP a partir de 2006, através do site da faculdade, e desde o ano passado, também pelo aplicativo do concurso, através do qual hoje é possível se informar sobre as coleções e votar nos finalistas. “Era um evento extremamente voltado aos alunos da FAAP, professores, familiares e isso se ampliou muito. Hoje sentimos muito mais interesse das pessoas do mercado no que os alunos estão fazendo. Acho que esse crescimento se deu pela qualidade dos trabalhos apresentados e pela proposta do evento. A internet também ajudou a mostrar os trabalhos dos alunos”, diz Renata.

É um evento muito importante para a moda e principalmente para os alunos, que podem apresentar uma coleção com total liberdade de ideias. É uma vitrine para eles – Reinaldo Lourenço, estilista

Coleção de Raquel Vitti Lino, criada em 2008

Detalhe da criação da aluna Carolina Otília, vencedora do juri público em 2016

Jurados de 2016 (da esq. para dir.): Ricardo Almeida, Amanda Cassou, Lilian Pacce, Eduardo Toldi, Waldick Jatobá, Lolita Hannud,
Gloria Coelho, Constanza Pascolato, Alexandre Hercovitch, Adriana Bozon, Barbara Migliori, Flayza Vieira e Rodolfo Souza

Processo da 2a fase: escolha de casting

Desfile vencedor de 2015, de Bruno Mansur

Vencedora Renata Pope com a apresentadora Mariana Ximenes, em 2013

Para Max Blum, que assina grande parte das trilhas do SPFW e responde pela música dos desfiles do FAAP Moda há sete anos, o evento vem amadurecendo e o critério de escolha dos alunos está cada vez mais rígido: “Sinto uma dedicação cada vez maior deles”. Maurício Ianês conta que tem ficado impressionado com a evolução das propostas dos participantes ao longo desses anos de trabalho. “Esse é um dos motivos pelos quais o projeto é tão importante. O sucesso do concurso anterior faz com que os próximos candidatos se esforcem para melhorar a qualidade das suas coleções, além de propiciar uma troca entre os alunos que já participaram e aqueles que ainda irão.” Que venha então a próxima edição.