Em uma era de transformações tão rápidas e profundas, como será a educação do futuro?

Nas próximas décadas, as mudanças que o mundo hoje vê na economia, na tecnologia e no mercado de trabalho serão ainda mais profundas. Para que se tenha uma ideia, os dez postos de trabalho mais cobiçados nos EUA – como, por exemplo, o de criador de conteúdo para o YouTube – não existiam em 2006, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. “E várias correntes apontam que a maioria dos empregos que vão existir daqui a 20 anos ainda não foram criados”, diz Alessandra Conceição Ferreira de Andrade, coordenadora do Centro de Empreendedorismo da FAAP. Vivemos uma era de transformações tão velozes que ninguém sabe ao certo o futuro que nos espera.

Criatividade tem se tornado cada vez mais importante, ao forçar o aluno a pensar fora da caixinha, conectar pontos que ainda não foram conectados, fazer as coisas de um jeito completamente novo para buscar novas soluções para velhos problemas – Fábio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas da FAAP e coordenador da disciplina de Criatividade

Soma-se a isso a chegada ao ensino superior de uma geração que já veio ao mundo conectada, que trocou a TV pelo YouTube e que checa seus smartphones 101 vezes por dia – como apontou em 2015 uma pesquisa global feita pela empresa de consultoria inglesa Deloitte –, e temos um cenário para lá de desafiador. “O ensino superior está vivendo uma grande revolução, que passa pela questão  estrutural, ou seja, como deverão ser as escolas no futuro, mas também pelo que deverá ser aprendido. A gente divide o ensino com base em formatos-padrão de carreira que não necessariamente existem mais e que talvez nem existam no futuro”, declara Eric Messa, professor do curso de Comunicação e Marketing e coordenador geral do Núcleo de Inovação em Mídias Digitais da FAAP.

No mundo todo, instituições de ensino superior vêm mergulhando a fundo nessa questão, buscando maneiras não apenas de lidar com alunos cujo comportamento é bastante diferente do de gerações anteriores, como de encontrar formas de prepará-los para uma conjuntura de constantes transformações. Um estudo publicado em 2016 pelo New Media Consortium e pela Educause, organizações norte-americanas que analisam tendências na educação, indicou que os desafios do ensino superior contemporâneo passam pela flexibilização do currículo, pelo incentivo ao empreendedorismo e ao pensamento criativo e fora da caixa e pela adoção de uma abordagem transversal dos conteúdos.

FOCO NA STARTUP
O tema empreendedorismo ganhou grande impulso nas instituições de ensino nos últimos anos, quando diversos levantamentos apontaram que os nativos digitais têm o  desejo de montar o próprio negócio – o que vem impondo às faculdades a necessidade de reforçar as competências para o empreendedorismo. O mais recente estudo, feito no ano passado pela Universum (líder mundial em branding de empregadores) em 46 países, incluindo o Brasil, mostrou que 58% dos jovens desse grupo querem abrir uma startup.

Nesse aspecto, a FAAP desempenhou um papel inovador no meio educacional, ao criar, há dez anos, um núcleo com o objetivo de impulsionar essa veia empreendedora, quando pouco se falava disso. “A Fundação foi pioneira na concepção de um Centro de Empreendedorismo. Um dos nossos papéis é fazer o jovem entender que a ideia não vale nada. O que vale é a execução da ideia. O desafio para esse jovem é saber como e para o que ele se prepara. O Centro instrumentaliza o aluno para o desenvolvimento do negócio, mas sempre com esse viés importante”, diz a coordenadora Alessandra.

Para Hamish Coates, do Centre for the Study of Higher Education, da Melbourne University (Austrália), a educação empreendedora ajuda a desenvolver competências aplicáveis não só ao mercado de trabalho, mas à vida. “Empreender não é apenas ensinar como se maneja um business. Ser empreendedor significa ser um funcionário empreendedor, ser socialmente empreendedor, para encontrar soluções para problemas sociais e, claro, levantar uma nova empresa.”

CURRÍCULO FLEX
As startups não preenchem só o imaginário dos nativos digitais. Também fazem parte dos debates sobre o ensino superior. Há um crescente consenso de que o currículo dos cursos pode se beneficiar bastante da adoção de um modelo ao estilo startup, ou seja, menos engessado e mais flexível. Na prática, isso significa a possibilidade de alterá-lo quando necessário. “Um aspecto importante dessas mudanças que estão ocorrendo é que as disciplinas ficam defasadas rapidamente. As novas tecnologias trazem com elas o surgimento de novas áreas do conhecimento e é preciso se adaptar”, conta Bruno Alvarez, ex-aluno e hoje coordenador do curso de Administração da FAAP.

No Brasil, inúmeras instituições passaram a atualizar o currículo de seus cursos. Na FAAP, há mudanças periódicas, com o objetivo de preparar o aluno para as novas profissões que vêm surgindo e para torná-lo mais analítico e menos focado no “como se faz”. “O curso  de Administração, por exemplo, incorporou a disciplina business inteligence, que analisa não somente as tecnologias de informação, como também o uso das mesmas por meio de casos reais”, conta Bruno.

A abordagem interdisciplinar do conteúdo é fundamental, até porque, ao terminar a faculdade, os jovens perceberão que o resto de suas vidas será interdisciplinar – Bonni Stachoviak, educadora norte-americana, autora do blog Teaching In Higher Ed 

Outra iniciativa que vem sido amplamente discutida é a introdução de uma abordagem transversal dos conteúdos e da interdisciplinaridade, para atender à demanda do mercado (e da vida) por um profissional com um olhar plural. Esse talvez seja um dos maiores desafios das instituições, porque significa romper com um padrão de ensino que fragmenta o currículo. “Os estudantes têm dificuldade para inter-relacionar temas. Uma das causas se deve a como o ensino fundamental e médio trabalham, ou seja, por disciplinas. A faculdade segue o mesmo modelo, embora venha mudando, ao se abrir para a aproximação de disciplinas”, analisa Igor Alves, professor de R.I. e coordenador de pós-graduação do curso de Economia. “Aqui na FAAP, hoje o aluno se vê com um problema na prova que reúne história e matemática, mas isso ainda causa estranheza. Pera aí: isso pode acontecer? Pode. Isso se  chama vida”, diz. E ele complementa: “A instituição de ensino tem o papel de aproximar as disciplinas e as diferentes faculdades. O que é discutido em um curso de Administração reflete no de Arquitetura e vice-versa. E ainda que o aluno tenha de conviver com uma realidade diferente numa sala de aula interdisciplinar, isso já é fundamental na medida em que o ajuda a entender como o outro pensa e como o mundo funciona”. A educadora norte-americana Bonni Stachoviak, autora do blog Teaching in Higher Ed, especializado em educação superior, endossa essa percepção. “A abordagem interdisciplinar do conteúdo é fundamental, até porque, ao terminar a faculdade, os jovens perceberão que o resto de suas vidas será interdisciplinar”, diz Bonni.

Aos poucos, programas de ensino vêm se reorganizando para abordar temas complexos por meio da colaboração de professores de dois ou mais cursos. A FAAP já tem vários exemplos na Comunicação, na Economia e nas Artes. “A gente também faz isso na Arquitetura. Professores das disciplinas Projeto, Maquete, Desenho e Materiais de Construção criaram um exercício cuja ideia é estimular a análise de um tema sob diferentes perspectivas”, conta Rodrigo Serafino, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo.

O papel do professor é abrir possibilidades para que o aluno se veja no mundo, entenda o mundo de outra forma. É fazer com que ele se apodere do mundo e das situações – Rodrigo Sefarino, do curso de Arquitetura

CONECTAR 24 HORAS POR DIA
Outra tendência da educação contemporânea é a chegada, nos campi, de um fenômeno até então restrito ao ambiente corporativo: o BYOD (bring your own device, ou “traga o seu dispositivo”). Em todo canto, universidades passaram a ampliar suas redes de wi-fi para incentivar o aluno a trazer o seu mobile, a fim de que ele seja usado em sala de aula. “Entre as faculdades brasileiras, fomos pioneiros em aplicação de rede de wi-fi e, claro, tivemos que atualizá-la porque o aluno hoje tem dois a três dispositivos móveis. A gente ampliou recentemente a rede para que ele possa usar o seu aparelho. A nova geração exige tecnologia e precisamos entregar isso a eles”, diz Paulo Klein, gerente de TI da FAAP.

As aulas também vêm mudando para acompanhar o perfil do aluno digital. Até mesmo ferramentas do dia a dia dos jovens (como Facebook, Twitter e Instagram) já são usadas em exercícios em sala. “Minha aula de introdução do curso de comportamento contemporâneo é uma apresentação do conteúdo com memes. Eles gostam, se identificam”, diz Gabriela Corbisier Tessitore, professora do curso de Comunicação e Marketing da FAAP.

Se, por um lado, o acesso aos conteúdos hoje é rápido e fácil, por outro, a dispersão da informação tornou mais difícil para os alunos estabelecerem conexões. Assim, mais e mais os professores trabalham para encorajar os jovens a aproximar conhecimentos, desenvolver novas ideias, testá-las. Mais: eles vêm estimulando o pensamento crítico e criativo, algo que passou a ser essencial na economia e no mercado de trabalho contemporâneos. “Os jovens estão desenvolvendo o hábito de focar em detalhes da experiência, ao invés do todo. Consequentemente, perderam a sensibilidade para padrões, ao passo que a essência da atividade de percepção é a descoberta de conexões abstratas que conectam, e não que separam, partes de um todo”, afirma Michael Michalko, especialista em criatividade e autor, entre outros, do livro Creative Thinkering (sem tradução para o português).

A educação não tem que ser refém do comportamento social. Seu papel é o de transformar a sociedade em algo que se deseja – Igor Alves, coordenador da pós-graduação do curso de Economia

Para Fábio Righetto, diretor do curso de Artes Plásticas da FAAP e coordenador da disciplina de Criatividade, o mercado nunca precisou tanto de propostas inovadoras. “A produção tornou-se homogeneizada, e a percepção de valor dos produtos no mercado muitas vezes não traduz a inovação. Por isso, a disciplina Criatividade, que foi instituída para todos os cursos na FAAP a partir de 1997, tem se tornado cada vez mais importante, ao forçar o aluno a pensar fora da caixinha, conectar pontos que ainda não foram conectados, fazer as coisas de um jeito completamente novo para buscar novas soluções para velhos problemas.” Michalko completa: “No mundo extremamente complexo e competitivo como o que temos hoje, a inteligência criativa e a capacidade inovadora tornaram-se exigências para o sucesso pessoal e profissional”.

Em um mundo cada vez mais global, digital, tecnológico e bombardeado por um tsunami de conteúdo a cada minuto, não é mais possível usar fórmulas antigas para resolver problemas novos. As instituições de ensino caminham cada vez mais para experimentar, criar, colaborar e – principalmente – refletir.