A professora Fernanda Magnotta analisa a polarização do cenário mundial

O cientista político Dominique Moïsi ficou conhecido por propor, no contexto da globalização, uma explicação do mundo que girasse em torno da chamada “geopolítica das emoções”. Segundo ele, o sentimento de confiança seria central para interpretar as relações internacionais do século 21 – a confiança (ou a falta dela) seria a força motriz fundamental para compreender o comportamento das pessoas e dos Estados; seria responsável por, em última instância, determinar decisões estratégicas. Ao mesmo tempo em que a análise de Moïsi em torno de “humilhação”, “esperança” e “medo” é controversa e divide a opinião dos intelectuais, parece razoável dizer que ela capta um dilema típico desta era: não são apenas os interesses materiais, concretos e tangíveis os que importam; ao contrário disso, as ideias, crenças e visões de mundo, carregadas por sua subjetividade característica, contaminam a interpretação dos atores sociais e políticos a ponto de merecerem a atenção dos que pretendem decifrar o mundo em que vivemos.

Por um lado, em tempos nos quais questões geopolíticas clássicas ganham força, como são os casos que envolvem afirmação de soberania e controle de territórios, por outro, assistimos também ao recrudescimento de narrativas nacionalistas. As manifestações disso são sentidas por todo o globo: nos EUA, com a agenda de Donald Trump, na União Europeia, com o Brexit e o aumento relativo do peso dos chamados eurocéticos, na Ásia, com embates que vão do Oriente Médio à China, incluindo a instabilidade entre as Coreias. Todos são casos nos quais falar em “racionalidade” significa, necessariamente, dedicar fôlego ao desafio de atribuir algum significado a este difícil conceito. Afinal, o que move a humanidade? Estes não são tempos fáceis – nem pra viver nem pra explicar. Quem disser o contrário, ou está mal informado ou tem intenções duvidosas.