Diante do medo e da incerteza, a pós-modernidade carece de gente que pratique algo elementar: o afeto

Esses não são tempos fáceis: eis um consenso sobre a pós-modernidade. Estamos diante de um novo estágio da “sociedade de riscos” identificada por Ulrich Beck. Experimentamos a superação do panóptico de Foucault. Fomos confrontados à “vida líquida” de Bauman. O ser contemporâneo é um sofredor. Achincalhados pela lógica do consumo e seduzidos pelas promessas de felicidade fácil e irrestrita, vivemos em um mundo no qual o futuro coloniza o presente e em que a individualização absoluta leva à sensação de frustração coletiva. Dos camarotes esvaziados de heróis, somos impulsionados a construir relações cada vez mais superficiais e frágeis: condenamos a “plastificação da vida”, mas servimos à lógica da sociedade do descarte. Diante de nossa permanente crise de identidade, a “vida líquida” parece carecer de líderes que apostem na busca de sentido. Diante do medo e da incerteza, a pós-modernidade carece de gente que se importe, de quem se preocupe com o significado das coisas, daqueles que pratiquem algo elementar: o afeto.

Fernanda Magnotta é professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais