A economia criativa pode – e deve – assumir um papel de maior relevância no Brasil

Richard Florida, um dos gurus da economia criativa, publicou um livro cuja leitura me impactou: O grande recomeço (Elsevier, 2010). A publicação revela que a crise econômico-financeira que teve origem no setor hipotecário dos EUA, e que se alastrou depois para todo o mundo, foi devastadora em algumas regiões dos EUA historicamente ligadas a segmentos tradicionais da indústria de transformação. A decadência dessas áreas – que em muitos casos já estava em curso havia décadas – deixou um rastro de desvalorização imobiliária, desemprego e falta de perspectiva para as populações remanescentes.

Poucos anos depois, no entanto, já era possível observar o ressurgimento de algumas dessas regiões, consideravelmente modificadas, tendo como traço comum a revitalização de antigas áreas degradadas, agora ocupadas por atividades abrangidas pela economia criativa, tais como galerias, ateliês, escritórios de arquitetura e design, bibliotecas, centros culturais, museus etc. Tal recuperação constitui-se num exemplo vivo da teoria da “destruição criativa” do economista Joseph Schumpeter.

Imaginemos um paralelo. Embora exista uma anedota de que é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que consenso entre economistas, observa-se uma razoável concordância entre boa parte deles no sentido de que as perspectivas para 2015 são preocupantes. Combinar baixo crescimento, inflação no teto da meta e elevada taxa de juros com a necessidade de ajustar preços represados há tempos, como os de combustível e energia elétrica, e ainda manter ou ampliar os programas sociais, constitui uma equação de difícil solução. Talvez resida exatamente nesse particular a janela de oportunidade para que a economia criativa assuma um papel de maior relevância no Brasil, a exemplo do que já vem acontecendo em outros países, como o Reino Unido, ou outras cidades, como Barcelona, Bilbao e San Francisco, localidades em que a cultura e a criatividade são vistas como protagonistas e não marginais ou secundárias, como aqui, onde o termo costuma ser associado ao artesanato e confundido com políticas sociais populistas para as populações de baixa renda ou para a inclusão de minorias.

O desafio é enorme e passa por uma acentuada mudança na mentalidade ainda dominante, como bem observou a professora Lídia Goldenstein em matéria publicada no Valor Econômico (3/12/2014): “Na economia voltamos para o debate antigo da inflação, do déficit externo, das contas públicas. Isso é importante, mas não podemos ficar paralisados. O país precisa conviver com um debate paralelo que toma conta do mundo: o papel transformador da cultura 
e a constatação de que o design 
e as artes fomentam a nova mão 
de obra nas cidades”.

Urge, portanto, a superação do intenso preconceito entre, de um lado, artistas e designers, e, de outro, economistas e gestores públicos. É preciso uma união de forças para que haja uma renovação de ideias, em que o velho dê lugar ao novo. Caso contrário, como registrou Belchior: “Minha dor é perceber/ Que apesar de termos feito tudo/ Tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos/ Como nossos pais”.

*Luiz Alberto Machado é economista, vice-diretor do curso de Economia da FAAP 
e mestre em Criatividade e Inovação