Professora e escritora norte-americana aponta que origem do fracasso pode estar na educação superprotetora dos filhos

A professora norte-americana Jessica Lahey percebeu que estava cometendo uma grave falha na educação de seus filhos: o seu caçula não sabia amarrar os cadarços do tênis e só usava calçados com velcro. O evento cotidiano acendeu um alerta, o garoto não aprendia uma atividade tão simples porque a superproteção materna o havia deixado com medo de fracassar. Jessica decidiu estudar o assunto a partir de sua perspectiva como educadora. Foi o ponto de partida para o livro Pais superprotetores, filhos bananas (tradução sofrível do título original em inglês: The gift of failure, algo como, “O dom do fracasso”, em tradução livre). Jessica, que assina um blog sobre educação no site do New York Times e é colaboradora frequente da revista norte-americana Atlantic, conversou com a Revista FAAP.

Por que a atual geração de pais está fracassando?
A paternidade mudou por causa de quando e como temos filhos. Temos menos filhos, quando somos mais velhos, depois de mais tempo estudando e trabalhando. Nos acostumamos a avaliações constantes e queremos receber o mesmo feedback sobre nossa habilidade como pais. Usamos as ferramentas que aprendemos na escola e no trabalho para quantificar nossa paternidade como vemos expressada na criança. Olhamos as notas, os feitos atléticos, o talento musical e, assim, estimamos a nossa “nota” como pais. Isso é algo muito injusto de se fazer com as crianças, que são indivíduos e não extensões de nós mesmos.

Qual o papel do contexto social nisso?
Os pais simplesmente fazem o que acham que é preciso para que os filhos sejam bem-sucedidos. Forçamos um modelo que nos é dado como o caminho para o sucesso, sem nos importarmos se é adequado ou não para nossos filhos. Isso fica óbvio entre pais mais ricos, que sentem que podem exercer sua vontade sobre os professores.

Você acha que é possível haver uma relação saudável entre pais e professores?
Eu espero que sim! Converso muito com diretores que já estão no seu limite. Os garotos são legais, bondosos, mas simplesmente lhes falta habilidade de solucionar problemas, iniciativa e recursos para se comunicar com outros adultos e se aliar a eles para o aprendizado. Estou preocupada porque as crianças não aprendem a se defender, a negociar usando a razão e a objetividade, a usar evidências em vez de emoção para solucionar problemas e, principalmente, a valorizar o bem-estar do grupo, em detrimento de suas necessidades autocentradas.