A falta de foco do nativo digital desafia educadores. Mas há maneiras de lidar com isso, diz o psicólogo clínico Halley Pontes

O psicólogo clínico Halley Pontes, do grupo de pesquisa International Gaming Research Unit (IGRU), da Nottingham Trent University (Reino Unido), estuda os impactos da internet e os efeitos da dependência ao meio digital. Segundo ele, a necessidade de manter-se conectado fez com que o foco de atenção do aluno se multiplicasse. Os professores, segundo ele, têm o grande desafio de educar pela experiência. Veja aqui algumas de suas opiniões.

Alguns estudos sugerem uma relação entre o uso continuado de novas tecnologias pelos jovens e uma redução da atenção. É verdade?
Os jovens hoje têm um foco de atenção bastante passageiro. Eles estão acostumados a ser bombardeados com estímulos vindos da internet e a desviar o foco de atenção quase que simultaneamente. Eles não têm problema de atenção, mas uma atenção multifacetada, ou seja, é uma atenção que se desdobra, algo que as gerações anteriores não conseguem fazer tão bem.

Mas essa atenção multifacetada é prejudicial em algum sentido, não?
Essa geração está mais sujeita a ter uma análise mais rasa das informações. Devido à abundância de estímulos sensoriais, o processamento cognitivo das informações acaba por ser superficial, o que gera uma espécie de treino para processar a informação rapidamente em curto espaço de tempo e de modo superficial. Isso eventualmente pode levar a questões mais problemáticas, especialmente quando o foco de atenção tem de ser mais continuado e intenso, como é o caso das aprendizagens, em que as leituras incidem sobre conteúdos não tão breves.

Os educadores podem fazer algo em sala de aula para melhorar isso?
Eu diria que a melhor maneira ou estratégia para o professor lidar com isso passa pela elaboração de conteúdos pedagógicos estimulantes e conectados à realidade do aluno e pela transmissão desses conteúdos por meio da experiência. Com isso, o aluno teria mais foco do que quando se apela, por exemplo, para avaliações somativas, isto é, quando os conteúdos já estão prontos.

Você acha que as redes sociais acabam por criar a ilusão de que a vida é mais fácil e bela do que realmente é?
Sim. A internet é um meio anônimo, em que a interação social não é tão profunda quanto ao nível pessoal. Quando estão interagindo pela internet, as pessoas tendem a exercer partes de sua personalidade que na vida real seria mais difícil exibir. Portanto, muitas vezes acabam sendo aquilo que não são. É complicado generalizar, mas o meio virtual fornece gratificações psicológicas muito rapidamente. Uma “curtida” no Facebook, por exemplo. Como as recompensas são rápidas, a pessoa acaba por ser dessensibilizada. No meio “off-line”, as coisas não acontecem a um ritmo tão rápido. Na internet, é muito fácil obter respostas quase que imediatas. Você tem uma dúvida, vai à Wikipedia e esclarece. Na vida real, as coisas levam mais tempo e isso pode ter uma consequência: a redução da tolerância à frustração.

E qual é o papel da instituições de ensino mediante essa situação?
Aqui o papel essencial recai sobre os pais e o meio educativo familiar. No entanto, os professores podem desempenhar um papel importante ao introduzir elementos pedagógicos e até mesmo moldar as suas práticas de ensino no sentido de melhorar a tolerância à frustração dos alunos por meio de processos de negociação e reforço contínuo das regras, pois é importante que os mais jovens estejam cientes dos seus limites e das regras nos diversos contextos sociais.