Perdemos a capacidade de desenvolver o olhar empático e nos inflamos de intolerância para com o outro

Na mitologia, entre a linhagem dos centauros, Quíron foi o mais sábio. Arqueiro por natureza, Quíron tornou-se amigo de Hércules e ao sofrerem um ataque, uma flecha atingiu uma das pernas equinas de Quíron, que embora fosse imortal devido ao seu sangue divino, não tinha o poder da cicatrização, ficando fadado a viver a eternidade com uma ferida aberta, caminhando por este mundo a suportar suas dores. Por este motivo, a figura de Quíron é comumente lembrada na psicologia como a do “curador ferido”, isto é, aquele que compreendendo suas próprias dores é solidário com o sofrimento do outro e procura ajudá-lo.

Mas em tempos em que nos assombra olhar para dentro e reconhecer nossas dores, perdemos a capacidade de desenvolver o olhar empático e nos inflamos de intolerância para com o outro, que, embora aja da mesma forma, sofre tanto quanto qualquer um. Perpetuará a exigência de ser competitivo, justificando nos escondermos por trás de máscaras de heróis, ou haverá o dia em que nos reconheceremos humanos que compartilham sofrimentos e inseguranças?

IGOR ALVES é professor de Relações Internacionais e coordenador da Pós-Graduação do curso de Economia