Ex-aluno de RP, Iran Giusti fez da sua trajetória pessoal e carreira em comunicação um trampolim para se transformar em um empreendedor social e a fundar a Casa 1, centro de acolhimento LGBT

Bater um papo com Iran Giusti, paulistano de 28 anos e ex-aluno de Relações Públicas da FAAP, não tem sido tarefa fácil. Desde que inaugurou em janeiro a Casa 1, centro de acolhimento para pessoas LGBT em situação de risco, Iran tem estado muito ocupado, de portas abertas para ouvir e ajudar quem precisa. “De um dia para o outro, virei pai de família grande”, brinca ele, no casarão da Bela Vista, região central da cidade, onde a casa está instalada.

O sonho de criar um centro que pudesse acolher gays, lésbicas, travestis e transexuais que precisassem de um lar temporário começou quando Iran sentiu essa dor na pele – ele próprio foi colocado para fora de casa. Depois de conseguir se reestabelecer, Iran passou a abrir sua própria casa para receber amigos nas mesmas condições. “Ofereci meu sofá a amigos que tinham ficado desamparados e recebi muitos pedidos. Foi aí que eu percebi que precisava existir um lugar mais estruturado, maior, como a Casa 1”, conta. Um deles foi Otávio Salles, 23, que hoje é coadministrador da casa com Iran. “Ele me recebeu depois de eu ter sido agredido pelo meu tio e expulso de casa. Sei o quanto é importante
ajudar pessoas nessa situação e queria poder fazer parte disso”, conta.

Depois de muito pesquisar sobre iniciativa pública e privada, Iran decidiu apostar num financiamento coletivo. “Decidi por essa estratégia porque vi que era preciso mobilizar a comunidade e falar sobre o projeto”, conta. Dos R$ 84 mil estabelecidos como meta, a Casa 1 angariou R$ 112 mil, em uma das campanhas mais bem-sucedidas do site de crowdfunding Benfeitoria, usado apenas para projetos sociais.

CAMINHO DAS PEDRAS

Formado na FAAP em 2011, Iran trilhou uma carreira em comunicação e mídias digitais antes de se transformar em empreendedor social no campo LGBT. E isso não ocorreu por acaso. Membro de uma família de classe média baixa católica, bastante tradicional, a questão da sexualidade foi uma grande barreira dentro de casa. “Foi difícil para eu me aceitar, tinha vergonha por ser gay e ser militante. Foi também muito complicado para minha família me entender”, conta Iran, que aos 18 anos decidiu contar em casa sobre sua orientação sexual.

Estudar na Fundação foi um marco em seu caminho. “O curso de Relações Públicas na FAAP foi muito importante. Tive professores de todas as vertentes ideológicas e isso permitiu que eu formasse uma opinião minha. Além disso, lá sempre me senti aceito por todos – minha sexualidade nunca foi questão”, lembra Iran, que contou também com um grande apoio da Fundação. “Um dia, ele me procurou, pedindo ajuda para resolver uma crise familiar. Fiquei comovido e lutei por uma bolsa. Ele sempre foi um bom aluno, talentoso, corajoso e muito participativo. Apostamos nele. Sabíamos de seu potencial transformador”, lembra Rubens Fernandes Junior, diretor do curso de Comunicação e Marketing da FAAP. O professor João Guedes completa: “Iran sempre foi muito articulado, com excelente capacidade de comunicação. Sua liderança nata sempre foi perceptível. Nosso curso formou um líder, dono de um potencial enorme”.

Desde o começo, sua trajetória profissional foi recheada de diversidade, o que foi construindo, aos poucos, o lado empreendedor social de Iran. As primeiras experiências de estágio, na coordenação de eventos do Parque do Ibirapuera e no setor de mídias sociais da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o introduziram ao tema – seu trabalho exigia que produzisse eventos e falasse com públicos muito diferentes. Em 2013, quando entrou no portal IG para continuar trabalhando em redes sociais, os planos mudaram e a carreira deslanchou: Iran se tornou repórter do iGay – portal então recém-criado pela empresa, voltado a notícias e cultura LGBT –, passou a entrevistar figuras influentes nesse meio, como o deputado estadual Jean Wyllys e a cartunista Laerte, e a produzir conteúdo. Tornou-se um expert no tema. Tanto que o trabalho rendeu um convite para integrar o time brasileiro do Buzzfeed em 2014, quando o portal americano desembarcou no país.

Após quase dois anos no Buzzfeed, Iran decidiu embarcar em uma viagem sabática pelo Nordeste do Brasil por dois meses. Quando voltou, em 2016, se sentiu pronto: “Percebi que deveria continuar trabalhando com coisas em que eu acreditasse, só que em uma escala ainda maior”, explica. Com o dinheiro que tinha guardado e o tempo livre necessário, chegara a hora de tirar a Casa 1 do papel.

AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO

Com menos de seis meses desde sua inauguração, a Casa 1 conta atualmente com 12 moradores: metade já estava em situação de rua e a outra metade foi abrigada no centro ao ser expulsa de casa. A Casa 1 funciona como uma república, em que os moradores têm responsabilidades domésticas e precisam ajudar na manutenção da casa, e permite que os moradores fiquem por três meses. Ainda sem patrocínios, as contas de todo mês ficam por conta do dinheiro arrecadado em eventos, como o de inauguração, e investimento do próprio Iran – a quantia arrecadada com o financiamento coletivo serve apenas para pagar o aluguel da casa.

Os obstáculos, no entanto, não impedem que Iran continue com muitos projetos para a Casa 1. Na parte térrea do imóvel, funciona um centro cultural, onde há cursos para a população LGBT e moradores do bairro, mostras de arte e eventos beneficentes. Além de curso de crochê para mulheres idosas e mulheres trans, e aulas de xilogravura para homens idosos e jovens gays, a Casa 1 também ampliou seu leque e oferece aula de inglês para crianças. “Não adianta nada criar um espaço seguro aqui e nossos moradores sofrerem homofobia ou transfobia no bar da esquina. Queremos interagir com o bairro. Diversidade não é estar em um ponto dentre seu grupo – é conseguir dialogar.”