Ex-aluno de economia, Carlos Mira revolucionou o transporte de carga no Brasil com a criação do aplicativo Truckpad. Após ganhar vários prêmios, em 2014 a startup foi eleita a mais inovadora do mundo

Carlos Alberto Mira nunca teve medo de distâncias na hora de calcular se era possível chegar a algum lugar. Pelo contrário, sempre preferiu acreditar que era possível ir na direção que a vontade apontava. Foi assim aos 6 anos, quando fez o irmão pedalar por 2 horas com ele na garupa, para que ele assistisse a um jogo do Palmeiras pela primeira vez, em Araçatuba. Tem sido assim até agora, aos 47 anos, momento em que deixou a presidência da empresa da família para lançar um aplicativo para smartphones. Com o TruckPad, ele conectou caminhoneiros a donos de carga, e abriu uma empresa de tecnologia que passou de três a 40 funcionários em menos de um ano.

Formado em Economia pela FAAP, Carlos começou a trabalhar aos 15 anos na empresa da família, marcando número de série de pneu de caminhão a fogo. Na época, ele morava com a família em Perdizes, São Paulo, ao lado do estádio e clube Palmeiras. Em 1978, os filhos de seu Augusto e de dona Tereza abriram uma transportadora. Ali, ele foi controlador de frota, atuou na área financeira, virou diretor comercial, vice-presidente e, finalmente, sócio e presidente executivo. Entre todos os cargos que ele ocupou na companhia, o que mais deixou saudade foi o de gerente do centro de processamento de dados. “Sempre fui entusiasta de tecnologia.” No início dos anos 1990, Carlos resolveu informatizar a empresa e levou os computadores que havia montado em casa, com peças usadas, para processar informações como folha de pagamento e contabilidade na firma. Foi naquele período que ele entrou na FAAP, após passar dois anos nos Estados Unidos, estudando transporte e gerenciamento de tráfego.

MULTITAREFA

Na faculdade, Carlos ficou amigo do professor Luiz Alberto de Souza Aranha Machado, atual vice-diretor do curso de Economia. “Carlos era extrovertido e arrojado. Adorava dar palpite”, conta Machado, na época professor de História Econômica Geral. “O Machado é palmeirense como eu e, apesar de ter me jubilado na disciplina dele, virou grande amigo. Ele me incentivou a participar do Diretório Acadêmico e das entidades de classe”, afirma Carlos, que, por influência do professor, virou membro e diretor do Conselho Regional de Economia, o Corecon. Não parou mais: o aluno fundou a Comissão de Jovens Empresários da Associação Nacional do Transporte de Cargas, a ComJovem, e foi 
co-fundador e vice-presidente da Federação de Jovens Empresários do Estado de São Paulo. Também presidiu o Comitê Nacional de Jovens Empresários da NTC & Logística.

No terceiro ano, Carlos foi convidado pelo então professor Carlos Alberto Guttilla para ser monitor nas aulas de Informática Aplicada à Economia. “Graças a ele, aprendi a falar em público e tive minhas primeiras experiências como palestrante”, afirma.

Em 2002, já como executivo da transportadora da família, Carlos virou presidente da Aslog, a Associação Brasileira de Logística. “Comecei a falar sobre logística quando a palavra era confundida com lojista”, brinca. “No passado, existia a ideia de que o transportador era uma coisa e a logística era outra. Na minha opinião, transporte é uma ferramenta da logística e a logística é uma ferramenta do marketing.” Ele chegou, inclusive, a escrever um livro sobre o assunto: Logística, o último rincão do marketing, publicado em 2004. Em resumo, ele defende que não adianta investir na imagem da marca se a distribuição do produto não for eficaz. Pouco depois, o economista deu aulas de Gestão de Marketing nos cursos de Pós-Graduação da FAAP e, em 2007, foi convidado a ser diretor de marketing do Palmeiras.

INSIGHT NA CALIFÓRNIA

À frente da transportadora da família, em 2011, Carlos foi convidado a participar de uma visita ao Vale do Silício pelo Grupo de Líderes Empresariais, o Lide, com uma turma de empresários brasileiros. Enquanto ouvia o discurso de um professor da Universidade Stanford sobre a transformação do e-commerce para o mobile commerce, Carlos teve um estalo: “Vou criar um aplicativo que conecta o caminhoneiro à carga”. A princípio, achou que poderia ser loucura, já que caminhoneiro não usava smartphone, mas ficou com aquilo na cabeça. Contratou uma consultoria em São Paulo e descobriu que a ideia parava em pé. Daí vieram os primeiros aplicativos para táxi. “Pensei: ‘Se taxista vai ter smartphone, por que caminhoneiro não teria?’.” Um ano depois, Carlos desfez a sociedade com o irmão e mergulhou no empreendedorismo digital.

Há 11 anos vice-presidente da Associação Brasileira do Transporte de Carga, ele explica sua tese: “No país, há 3 milhões de motoristas profissionais de caminhão. Dois milhões trabalham como funcionários. Um milhão têm o próprio caminhão. Geralmente, esse transportador autônomo de carga roda15 dias com o caminhão vazio, parando em postos, ligando para os amigos em busca de carga. Desperdiça tempo e combustível. É esse cara que quero ajudar. Com o TruckPad, que é grátis, ele disponibiliza sua localização e o sistema faz a conexão com quem queira transportar uma carga a partir de onde ele está”.

Em 2012, Carlos registrou o protótipo do programa no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, o INPI. No fim de 2013, foi lançada a primeira versão do aplicativo, que ganhou o concurso Startup Weekend 2013 do Google, em São Paulo. O projeto também venceu o DemoDay Brasil, na Feira do Empreendedor Sebrae. Na sequência, recebeu seu primeiro investimento: a iniciativa foi uma das selecionadas pelo Abril Plug and Play, programa de aceleração de startups que o levou para morar por seis meses no Vale do Silício, no ano passado. “Recebi mentorias de professores da universidade de Stanford para desenvolver o algoritmo da TruckPad, estudei meios de pagamento no PayPal, conheci o Google de perto”, conta. Ao final do processo, a TruckPad foi eleita a startup mais inovadora do mundo no Winter Expo 2014, competição promovida pela incubadora Plug and Play Tech Center.

De volta a São Paulo, ele recebeu investimento da Movile, que desenvolve plataformas de comércio e conteúdo móvel na América Latina, fechou uma parceria com a Maplink e o Apontador, e instalou seu escritório em janeiro. “Hoje, o aplicativo é dez vezes mais rápido.” O lucro, explica ele, vem do acerto com empresas de cartão, como Visa Cargo, que pagam uma comissão ao TruckPad a cada transação realizada pelo aplicativo, e de uma espécie de patrocínio da Main Latin America (Volkswagen Caminhões e Ônibus), que utiliza a informação sobre os percursos gerada pelo aplicativo para estreitar a relação com os usuários. Carlos Mira ainda não chegou aonde pretende — México, Índia e China, em breve —, mas, para ele, longe é um lugar que não existe.

TruckPad em números

Atualmente, o aplicativo já supera a marca de

_200 mil downloads
_4 mil empresas usuárias
_130 mil ofertas de cargas por mês
_R$ 400 milhões de frete por mês
_Redução de 25%, em média, do custo da indústria

O QUE ELE APRENDEU NO VALE DO SILÍCIO

1_ Errar faz parte do jogo. O importante é aprender com suas falhas. No Brasil, quando uma empresa quebra, o cara é visto como falido, derrotado. Nos Estados Unidos, isso é uma vantagem: significa que ele já entendeu como o negócio funciona.

2_ Não há nada de errado em compartilhar suas ideias. Aqui, temos uma noção equivocada de que a ideia é uma propriedade. Nos Estados Unidos, você é convidado a conhecer as ideias de vários mentores e vice-versa. Todo mundo ganha.

3_ O mundo está aí para ser conquistado. Se você deseja montar uma empresa grande, não se acanhe. Pense globalmente.

4_ Existe uma abundância de investimentos para ideias disruptivas, que propõem um novo modelo de negócios. Se você tem uma boa ideia, mostre-a para um venture capital. Pegar dinheiro emprestado para acelerar o crescimento de uma empresa não é a melhor solução. Procure parcerias com empresas de investimento.

5_ Para inovar é preciso um ambiente propício. No mundo ideal, o cara que deseja se tornar um empreendedor digital de alto impacto deveria morar, pelo menos, por três meses no Vale do Silício. Caso isso não seja possível, invista em palestras e happy hours com programadores e investidores.

Fotos: Arquivo Pessoal