É possível ganhar mais dinheiro impulsionando negócios socioambientais. Esse é o mantra do investimento de alto impacto social, uma tendência no mundo todo de ir além do lucro para transformar a sociedade

Pouco mais de dez anos atrás, o mercado de ações caiu na real. Notou, enfim, que as pessoas ao redor estavam muito mais preocupadas com temas como igualdade, justiça e sustentabilidade que com o sobe-e-desce da Bolsa. E, a fim de atrelar outros valores ao dinheiro, entrou em sintonia com o mindset millennial, tão preocupado com nossa razão de ser, e cunhou o termo “investimento de impacto”. O pulo do gato foi o propósito: recursos com mira em resultados positivos e propagáveis para a sociedade e o meio ambiente, extrapolando o retorno financeiro (mas sem perdê-lo de vista; caso contrário, atenderiam por “filantropia”). De lá pra cá, a prática encontrou terreno ao redor do globo para se desenvolver. Estima-se que o mercado mundial de investimentos de impacto seja, hoje, de US$ 502 bilhões. Só no Brasil, em 2016 e 2017 (em plena crise político-econômica que encara- mos), saíram US$ 131 milhões dos bolsos de acionistas de capital do bem, de acordo com a última pesquisa feita pela Aspen Network of Development Entrepreneurs, uma rede global de incentivo ao empreendedorismo em mercados emergentes.

No topo do ranking nacional desses investimentos, negócios de tecnologia da informação receberam US$ 54 milhões (quase metade do total), ante tímidos US$ 7 milhões direcionados ao segundo lugar da lista (representando menos de 6% do montante) e uma de nossas principais lacunas sociais: a educação. Também empreendimentos com viés de saúde receberam pouquíssimo na comparação, US$ 4 milhões (equivalentes a 3%).

Pode parecer que alguma coisa está fora da ordem (de prioridades), mas não se engane: como tudo nas finanças sociais, é preciso paciência para compreender o timing e o potencial dos números – em alguns casos, as expectativas de retorno financeiro podem ser tão altas quanto aquelas verificadas nos setores de private equity e venture capital. “A tecnologia é a área que mais ajudará a escalar negócios sociais a longo prazo. E negócio social precisa ter escala para receber investimento”, diz a economista Fernanda Camargo. A seguir, três especialistas ajudam a dissecar o assunto e a traçar um panorama sobre investimento de alto impacto social no Brasil, para além do mercado financeiro.

O FUTURO DO CAPITALISMO

A economista já era gestora de recursos quando resolveu enveredar para o impacto social, quatro anos atrás. “Eu percebi que esse seria o futuro do capitalismo.” Mas, à época, foi incompreendida: “Propus o negócio, e os então sócios encararam como filantropia. Hoje dá para enxergar claramente que, pelo contrário: é business”, afirma. Sócia do family office independente Wright Capital Wealth Management, soma 40 clientes e mais de R$ 3 bilhões em patrimônio assessorado.

FERNANDA CAMARGO,  Sócia do family office Wright Capital Wealth Management

SALDO POSITIVO

“No início, os investimentos de impacto eram vistos como uma solução entre a filantropia e o venture capital. Então, a origem de grande parte do capital ainda tinha muito viés filantrópico. Para provar que a Wright não era a ‘turma que abraça árvore’, mas sim gente propondo algo diferente – e melhor – na gestão de patrimônio, tivemos que trabalhar dobrado. Hoje, nossas carteiras dão tanto retorno quanto os concorrentes. Se os fundos com benchmark voltado pra ganhos socioambientais ainda não têm a rentabilidade dos outros, posso dizer que hoje há muita gente preferindo ganhar menos para ser mais feliz e em troca de um mundo melhor. De quebra, essa prática tem ajudado a desenvolver a área.”

DESAFIOS

“Na Wright, pelo menos 1% dos recursos são direcionados para fundos de impacto social. Mas ainda há pouquíssimos no Brasil – os principais são a Vox e a MOV. [GAG, Kaeté e INSEED Investimentos são outros exemplos.] Fora isso, a democratização do acesso aos investimentos de impacto ainda dá os primeiros passos, mas, na maioria, ainda se concentra entre investidores profissionais, com pelo menos R$ 10 milhões em ativos financeiros. Além disso, as métricas para revelar o histórico de retornos sociais ou financeiros são um impasse. Ainda não podemos usar as mesmas de nações desenvolvidas. Precisamos melhorar isso, para deixarmos o investidor mais seguro.”

EXPECTATIVAS

“Os elos da cadeia têm se juntado em labs para pensar novas formas de atuar. O mercado de impacto é o único em que concorrentes se ajudam. Entre finanças verdes, impactos sociais e novos instrumentos financeiros, discute-se desde criar fundos de energia limpa até desenvolver métricas específicas para medir escala no Brasil. Além de discutir cases que unem tanto as qualidades de um negócio que fatura milhões como de um modelo altamente inspirador e de efetivo bem-estar social – caso da Terra Nova, criada para resolver pacificamente conflitos de posse de terra, e da rede Dr. Consulta, que presta serviços ambulatoriais e revolucionou a saúde.”

ESTOURAR A BOLHA

Com mais de 20 anos de experiência em mercado financeiro, o administrador sentiu na pele as dores dos empreendedores no Brasil, quando participou da fase de startup do Submarino. Pouco depois, já pulou para o outro lado do balcão, como investidor anjo, trabalhando com iniciativas de impacto. Em 2009, fundou a Vox Capital, que investe em negócios sociais.

DANIEL IZZO, Fundador da Vox Capital, que investe em negócios sociais

SALDO POSITIVO

“Quando comecei minha carreira, em 1998, ninguém empreendia. O real tinha acabado de ser lançado, existia muito medo. A única opção, praticamente, para ganhar dinheiro era sair da faculdade e entrar num emprego de multinacional. Hoje o momento é mais propício para o empreendedor social. Existe mais clareza sobre risco e propósito. Ele está mais a par dos problemas sociais, a fim de criar soluções de verdade e praticar a resiliência na fase inicial do negócio, o que é muito importante. Por mais que a gente ofereça produtos financeiros muito difíceis para o mercado, com coerência e relevância eles decolam. É o caso da Avante, de microcrédito, que atua principalmente no interior do Nordeste e vem crescendo super bem: já deu mais de R$ 215 milhões para 70 mil microempreendedores. E é uma empresa que tem potencial de escalar ainda mais. Também a Sanar, que ajuda com reforço educacional alunos da saúde, tanto na faculdade, como no mercado de trabalho (preparação para a residência). Pensando que hoje somos o país com mais vagas de medicina per capita no mundo e, pela primeira vez, temos muitos médicos que não são da classe A, é preciso investir em infraestrutura para essa formação. Não é por acaso que o negócio vem dobrando o faturamento anual, há mais de 3 anos”.

DESAFIOS

“No Brasil, os investimentos de impacto ainda têm um crescimento menor em relação ao resto do mundo, não só porque o país dificulta o empreendedorismo. Isso também é fruto da nossa desigualdade. Se você for um empreendedor dos Jardins, que teve educação de ponta e uma rede de contatos fértil, consegue levantar dinheiro. Mas se você está no Campo Limpo, além de não ter rede, o acesso à informação é mais difícil. Por isso, negócios escaláveis acabam ficando numa bolha.”

EXPECTATIVAS

“Nosso principal foco hoje é trabalhar de forma criativa para tornar os instrumentos financeiros mais acessíveis e democratizar o investimento de impacto. A tendência é cada vez mais empreendedores estarem trabalhando para resolver problemas sociais e ambientais, assuntos tão caros ao país.”

INOVAR PARA CRESCER

Gerente do departamento operacional da Finep, o engenheiro mecânico acaba de voltar da Inglaterra, onde fez um mestrado para estudar atividades financeiras de inovação e im- pacto. Referência entre os pesquisadores desse mercado, acredita que o desafio da área social é o mesmo de ciência e tecnologia: a educação em relação ao investimento. “No mercado financeiro, ainda há um fetiche por venture capital, de negócios que podem resolver qualquer coisa e que escalam muito rápido. Mas a verdade é que essas áreas precisam de tempo para se desenvolver.

WILLIAM RESPONDOVESK, Gerente do departamento operacional da Finep

SALDO POSITIVO

“Tem-se pesquisado e implementado muitas alternativas para as finanças de impacto mundo afora, novos modelos de financiamento à inovação socioambiental. É o caso da filantropia de risco (venture philanthropy), uma alternativa ao investimento que, assim como a chamada subvenção condicional, realmente é um jeito de compartilhar risco e retorno nos negócios sociais.”

“Os negócios sociais estão diretamente ligados ao investimento em tecnologia e inovação”

DESAFIOS

“No Brasil, as iniciativas ainda engatinham. Sobretudo porque não estamos totalmente conectados, há pouca estratégia em tecnologia. Pense: se um ex-executivo e empreendedor qualificado já tem tanta dificuldade em lançar seu negócio, o que dirá o empreendedor social, menos ambientado ao mundo de gestão de capital? E não falo aqui de altas tecnologias.

É preciso difundir as mais básicas, com foco no que chamam de inovação frugal: trabalhar com melhorias muito simples, do tipo ‘como transportar água com baixo custo’. Aos moldes do que, por exemplo, acontece na Índia: para resolver um problema complexo, é preciso buscar um caminho simples. Os negócios sociais estão diretamente ligados ao investimento em tecnologia e inovação.”

EXPECTATIVAS

“A perspectiva é positiva. Vejo o tema ganhando cada vez mais espaço. Mas precisamos fazer do Brasil um modelo de blended capital, ou seja, misturar recursos de origem e expectativas distintas, para que exista um equilíbrio de expectativa de retorno e um incentivo maior ao desenvolvimento sustentável. Porque, infelizmente, para alguns negócios sociais, nem mesmo fundo de investimento de impacto vai servir. Nosso investidor ainda tem muita cara de venture capital, é exigente demais.”