Foi nos corredores da FAAP que o arquiteto Ricardo Corrêa se deu conta do potencial da bicicleta como agente de transformação social. O insight rendeu, e, há dez anos, sua startup de planejamento urbano não para de crescer, de norte a sul do país

Chovia forte em São Paulo no início daquela noite de verão. Aos 15 anos, Ricardo pedalava sem pressa a caminho de casa, no bairro dos Jardins. A poucos quilômetros dali, na descida do espigão da Paulista, o carro que cruzava seu caminho ultrapassou o sinal vermelho. Um átimo de alívio clareou o rosto do adolescente, que enxergou a tempo o perigo da colisão. Mas o instante durou pouco – mais precisamente, até falhar o freio da Caloi 10, ele voar por cima do capô e ser arremessado contra um poste. O episódio lhe rendeu um coágulo na cabeça, algumas costelas quebradas e cinco pinos no braço direito. E voltou à mente de Ricardo dois anos depois, de novo em questão de segundos, enquanto ele cerrava o cenho, aflito, estirado no asfalto do Itaim, prestes a ser atropelado por um ônibus. Ouviu alto o barulho do freio, e o cheiro de pneu tomou suas narinas. Quando abriu os olhos, viu a enorme roda parada ao lado de sua cabeça. Dessa vez, saía ileso da queda de bicicleta. Mais uma vez, sem qualquer intenção de abandonar o guidão e os pedais.

“Bicicleta pra mim nunca foi hobby, mas estilo de vida. Não é dela que eu gosto, e sim do que me proporciona: a sensação de superpoderes, uma liberdade de deslocamento incrível”, afirma Ricardo Tchê Corrêa da Silva, 40 anos, sócio-fundador da TcUrbes, empresa de planejamento urbano baseada sobretudo na capacidade transformadora da bicicleta. No terceiro andar de um prediozinho na rua da Consolação, a startup tem localização emblemática: rodeada por corredor de ônibus, ciclovia, duas linhas de metrô e vista para a Praça do Ciclista. E, no currículo, feitos nobres: da maior rede cicloviária per capita do Brasil, de 160 quilômetros, em Rio Branco, no Acre, ao plano cicloviário de Porto Alegre, cidade natal de Ricardo.

Filho de um bancário e de uma artista plástica gaúchos, ele chegou a São Paulo ainda criança, após viver em Manaus até os 3 anos. No ensino fundamental, aproveitava que sua aula começava mais tarde que a dos irmãos mais velhos para dispensar a ida de carro e percorrer, de bike, os 3 quilômetros até a escola. Aos 13, começou a arriscar percursos mais longos e, um dia, saiu pedalando para uma visita surpresa a um amigo. (Detalhe: amigo esse que morava em Cotia, a mais de 20 quilômetros de sua casa.) “Fui notando que a bicicleta me proporcionava um contato constante com o entorno, a cidade, as pessoas. Daí a vontade de ser urbanista.”

Mesmo certo da profissão que queria seguir, em 97, quando entrou no curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP, Ricardo não imaginava o quanto sua visão sobre a cidade e o ciclismo evoluiria. Leitor assíduo e neto de uma assistente social muito politizada, foi se aprofundando em questões sociais, treinando o olhar para as necessidades e problemas das pessoas e para o uso da arquitetura como forma de solucioná-los. “Numa época em que não havia ciclovia, o Tchê chegava na faculdade pedalando. Conversávamos sobre a apropriação das cidades pelas pessoas. Ele tinha muita noção de cidadania, já era um ativista”, diz Mário Saladini Filho, professor de cenografia e direção de arte da FAAP, que deu aulas a Ricardo.

Trabalho desenvolvido pela TcUrbes: o protejo viário e as áreas de lazer de um loteamento em Maringá-Sarandi, no Paraná

Paralelamente, o aluno se aproximou do então novo diretor da Faculdade de Artes Plásticas, Silvio Passarelli, que o ajudou a lapidar sua veia empreendedora. “Silvio foi um guru. Me ensinou o pensamento de mercado, o conhecimento administrativo. Isso ajudou a organizar minha veia artística. Nunca me esqueço do que ele dizia: ‘Vocês detêm conhecimento próprio. O que precisam é ser administradores dele’.” Repetindo esse mantra, mas também sob influência das aulas do alemão Herbert Duschenes (1914-2003), que projetava na sala de aula filmes em super-8 das viagens que havia feito pelo mundo, Ricardo resolveu partir para um intercâmbio de alguns meses na Polônia. E ali deu de cara com uma Europa que, como consequência do Protocolo de Kyoto, começava a enxergar a bicicleta como aliada da sustentabilidade e arriscar planos para a criação de redes cicloviárias pelo continente. De repente, deu o clique, e tudo fez sentido. “Percebi que no Brasil essa virada era ainda mais urgente. A lógica para as nossas cidades prioriza as pessoas que andam de carro, porque ganham mais dinheiro, movimentam mais a economia, valem mais. Seguir nessa toada é reafirmar as desigualdades”, diz.

CIDADES REINVENTADAS

De volta ao Brasil, terminou seu trabalho de graduação, um planejamento cicloviário para o centro expandido de São Paulo, algo que ajudasse a repensar a cidade para as pessoas, com segurança, e não com foco nos carros e edifícios. Passou a correr em busca de contatos e envolvimento para tirar o TFG do papel. Assim, foi parar no Departamento de Edificações (Edif), da Secretaria Municipal de Serviços e Obras, onde se discutia a criação dos Centros de Educação Unificados (CEUs), sob a batuta do renomado arquiteto Alexandre Delijaicov. “Ricardo logo se envolveu na dinâmica de conceituar os CEUs, pensando junto numa rede cicloviária que os interligasse aos equipamentos públicos. O entusiasmo dele me animava. Era muito interessante observar aquela personalidade empreendedora de alguém que não desiste”, afirma Alexandre.

“A lógica para as nossas cidades prioriza as pessoas que andam de carro, porque ganham mais dinheiro, movimentam mais a economia, valem mais. Seguir nessa toada é reafirmar as desigualdades”

Se hoje a TcUrbes é referência em planejamento urbano Brasil afora, muito se deve ao faro realizador de Ricardo e à admiração de Delijaicov. Em 2005, o arquiteto o convidou para ajudá-lo a coordenar um grupo de extensão universitária de arquitetura chamado Ciclovias Urbanas (de apelido Ciclo Minas, já que as integrantes eram todas mulheres), para debater e realizar estudos cicloviários na cidade. À época, Ricardo se aprofundava mais no assunto. Recém-contratado numa consultoria que desenvolvia soluções em transporte, surpreendia-se com a demanda cada vez maior por projetos cicloviários contraposta à escassez de gente para executá-los – ele estava praticamente sozinho e ganhava status de visionário.

Plano de urbanização do parque do Pituaçu, em Salvador, na Bahia, o segundo maior parque urbano do Brasil, realizado por Ricardo e sua equipe

À medida que as discussões no grupo das Minas evoluíam, Ricardo ia dominando a prática e não demorou para que optasse por alterar seu contrato na consultoria como prestador de serviços, atitude empreendedora que lhe renderia mais prática – e clientes. Naquele primeiro momento, a TcUrbes surgiu como mero nome fantasia. Até que foi contratada para pôr em prática um dos projetos do Ciclovia Urbanas, o pré-plano cicloviário da Subprefeitura de Santo Amaro. E, em 2007, Juliana Campos, uma das integrantes do grupo supervisionado por Ricardo, uniu-se a ele à frente da empresa. Consolidou-se de vez a criação da startup e a parceria dos dois foi bem além da sociedade: subiram ao altar – de onde saíram numa bicicleta, rumo à lua de mel.

 

Projeto de requalificação do Parque da Maternidade, em Rio Branco, no Acre

ESCALA HUMANA

Em dez anos, a empresa realizou 80 projetos  para prefeituras do país. O setor público representa 95% da clientela. Foi a TcUrbes, por exemplo, a responsável pela ciclovia da avenida Faria Lima, considerada por muitos a melhor da cidade. Assim como a empresa assinou o plano de mobilidade e acessibilidade do Centro Histórico de Paranaguá, no Paraná, que deu origem ao Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal para impulsionar o desenvolvimento de cidades históricas sem criar gentrificação. Também foi a Tc que venceu a licitação para remodelar as ciclovias que já existem e planejar outras no Distrito Federal. Entre os clientes privados, elaboraram  em Maringá um bairro 100% ciclável conectado à cidade. E já recusaram ofertas gordas de condomínios fechados. “Se o resto das pessoas não pode usufruir e é algo que faz os moradores circularem menos pela cidade, não atende aquilo em que acreditamos. E manter nosso propósito é mais importante do que ganhar dinheiro”, diz ele.

Um dos pontos fortes de Ricardo é sua capacidade de absorver e se lembrar dos aprendizados. Conta que sempre tem em mente aquilo que lhe dizia a avó assistente social, sobre a importância de se colocar no lugar dos outros para prever e amenizar seus sofrimentos – talvez por isso seja tão minucioso em testar os projetos, como em Rio Branco, por exemplo, onde usou três tipos diferentes de bicicleta para experimentar a ciclovia (não à toa, hoje, ele tem dez modelos em casa). Pode ser também que Ricardo não tivesse dado o passo empreendedor de se assumir PJ sem a lembrança das orientações de Silvio Passarelli, da FAAP. Além disso, ele fala que foram as oficinas variadas da faculdade, como de moldes e modelos tridimensionais, que lhe deram ferramentas para abrir o leque da Tc: em 2012, eles lançaram a Urbana, uma segunda empresa, que faz bicicletas artesanais projetadas especialmente para cidades brasileiras.

Ao mesmo tempo, Ricardo sabe enxergar e reconhecer o ponto forte dos outros. Toda questão estrutural e administrativa da empresa cabe à Juliana. “Ele levanta a bola da equipe, fomenta os resultados. Mas também sabe que é preciso um perfil mais organizador. E, assim, a gente se complementa”, diz ela. Entre os predicados estruturais conquistados, a TcUrbes é considerada empresa B, selo que certifica o impacto socioambiental. Em 2014, faturou seu primeiro milhão. E, agora, está à procura de um investidor.

Num dia normal, Ricardo sai da cama às 7 horas. Acorda a filha, Lorena, 3, (que já pedala) e, juntos, praticam ioga. Depois, seguem na mesma bicicleta até a escolinha dela. Pai e filha vão cantando pelo caminho. Ele anda devagar, enquanto ela se diverte com o movimento das pessoas, os passarinhos, o barulho da rua. O percurso é feito boa parte numa ciclovia. Leva 15 minutos. Tempo suficiente pra relembrar Ricardo que está no caminho certo.

NA ESTANTE

LIVROS PARA VOCÊ PEGAR CARONA NOS CONCEITOS DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

1_ Sapiens – Uma breve história da humanidade, Yuval Harari_ “Um panorama importante da evolução. Influenciou até na educação da minha filha – hoje, sei que é importante gerar dificuldades para que ela desenvolva facilidades.”

2_ O capital no século 21, Thomas Piketty_ “Não tenho nenhum bem, além de duas empresas e um monte de bicicletas. O livro mostra que não estamos vivendo uma sociedade do sharing só por ideologia, mas também por necessidade: o capital se concentrou tanto que quase não há dinheiro para adquirir outras coisas. Faz refletir.”

3_ Trópicos utópicos, Eduardo Giannetti_ “Na TcUrbes, praticamos um urbanismo tropical, buscamos identidade social. Este livro fala mais de sociedade, menos de território, mas ajuda a pensar sobre o espaço que ocupamos, tão influenciado pelo anglo-saxão, nada que valorize nem aproveite bem a abundância de nossos recursos naturais.”

4_ A bicicleta e as cidades, TcUrbes_ “Em 2008, a Tc foi contratada pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente para compilar todos os projetos cicloviários que existiam em São Paulo. Essa organização serviu de diretriz para as ciclofaixas que vieram mais tarde e deu origem a um material bem detalhado sobre o uso da bicicleta urbana. Está disponível on-line em PDF.”