Depois de participar do programa de residência artística da FAAP na Cité des Arts e realizar três exposições individuais em Paris, Ana Mazzei faz sua estreia na 32a Bienal de São Paulo com a instalação Espetáculo

Mais de 80 esculturas de madeira ocupam um espaço de 14 metros de comprimento no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, localizado dentro do Parque do Ibirapuera. Para compor a instalação, que faz parte das obras que estão na 32a Bienal Internacional de São Paulo, a artista Ana Mazzei, 37 anos, estima ter produzido mais de quatro peças por dia nos dois meses que antecederam a mostra, que entra em cartaz este mês e segue até 12 de dezembro. “Estou acostumada, produzo muito rápido”, diz a ex-aluna da FAAP, com tranquilidade espantosa para quem participa pela primeira vez de um evento desse porte.

Com sua primeira edição em 1951, a Bienal foi responsável por colocar o Brasil na rota das grandes exposições mundiais e é considerada plataforma de consagração para qualquer artista. Ana Mazzei, no entanto, diz que sua participação não foi uma grande surpresa. Desde quando soube que o tema deste ano seria Incerteza Viva, ela conta que, quase como um sexto sentido, teve a sensação de que faria parte da seleção: “O tema tem tudo a ver com a minha pesquisa”, explica. Jochen Volz, curador desta edição da Bienal, concorda. Dentro da temática da mostra, que tem como eixo central as estratégias da arte contemporânea em tempos de mudança contínua, ele afirma que viu na criação da artista uma busca incessante de “medir o imensurável” e remete sua obra à ideia de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado a levar uma enorme pedra de mármore ao cume da montanha. Toda vez que chegava ao topo, o objeto rolava novamente em direção ao ponto de partida, tornando seu esforço vão.

Na obra Monolito e a sentinela, exposta na recepção da galeria Pivô em 2015, uma guardiã cuida diariamente do monolito construído pela artista

Paulistana, Ana se formou em Artes Visuais na FAAP no ano de 2004, mas, antes de concluir o curso, chegou a interrompê-lo para tentar arquitetura. “Tinha aquele medo do desemprego, da possibilidade de dar errado”, ela conta, explicando que, na época, a profissão de arquiteta pareceu mais segura. Durante os dois anos que frequentou as aulas, entretanto, sentiu-se completamente deslocada. “O que fazia ali já era arte”, avalia ao se lembrar que os projetos arquitetônicos que desenhava se pareciam muito mais com as obras que produz desde então. Nesse mesmo período, Ana conseguiu uma vaga como fotojornalista na revista Isto É e se envolveu em projetos paralelos que resultaram em uma experiência traumática – em 2001, ao produzir fotos para um livro sobre o presídio Carandiru, a artista acabou refém de uma rebelião por 24 horas. O acontecimento a fez repensar suas escolhas e retomar o curso de Artes Plásticas. “Voltei com 22 anos, idade em que as pessoas já estão se formando, mas era ali que me sentia bem de verdade”, diz.

Em Planta, de 2013, realizada durante o Programa de Residência Artística da FAAP na Cité des Arts, as estruturas de madeira são feitas a partir da planta da cidade de Paris

De volta às artes, ela partiu do material que havia produzido como fotógrafa para pensar seus trabalhos. Bom dia, Brasil, um dos primeiros experimentos no campo artístico, é uma série de gravuras realizadas a partir de fotos. Nela, elementos como a cor e o espaço ganham relevância em cenas que acentuam, muitas vezes, a dramaticidade. Preceitos da fotografia são até hoje norte para sua produção, que explora o olhar do observador sob diferentes enquadramentos e pontos de vista. Em 2014, por exemplo, na sua primeira individual no Brasil, Ana expôs a instalação Cidadela, com peças de madeira e borracha vulcanizada que, por conta do pequeno formato, deviam ser vistas de cima, como a visão de um pássaro. “Pode-se dizer que o interesse inicial de Ana Mazzei passa pela pesquisa de linguagem ligada à representação e, mais recentemente, desloca-se para a criação de objetos relacionados ao espaço expositivo.  Mais do que o simples toque do observador, refere-se a uma mudança de postura física do público. Há uma construção de ficcionalidade em torno do objeto, do corpo e do espaço”, diz Marcos Moraes, coordenador do curso de Artes Visuais da FAAP.  A obra Garabandal é um exemplo claro desta perspectiva: o objeto de ferro foi criado para que uma pessoa se sente, como se estivesse em êxtase religioso, apoiando os joelhos rente ao chão e levantando a cabeça ao céu.

Ana trabalhando em seu ateliê, em São Paulo; acima, as peças de sua instalação antes de serem montadas na Bienal

Desde o início da carreira, a artista vem explorando materiais variados – possui peças com cimento, madeira, feltro, tecidos – e transita com facilidade entre pinturas, esculturas, vídeos e instalações. Ela acredita que, embora suas ideias mudem de suporte, giram sempre em torno de um mesmo eixo. “Gosto de criar elementos cenográficos, pensar a exposição como o local onde as coisas podem acontecer. O trabalho existe para ser visto, experimentado”, resume.

Na Cité des Arts tive contato com uma série de pessoas que estavam a fim de olhar o meu trabalho e percebi que havia interesse para o que estava produzindo, Ana Mazzei

O pensamento teatral é um flerte frequente, já que Ana vê o teatro como campo de experiência real, um dos poucos lugares onde ainda fica nervosa, sem saber o que virá no próximo instante. Não é à toa que o título da instalação que ocupa o pavilhão da Bienal é Espetáculo. A nomenclatura diz tanto sobre o contexto de representação cênica (com peças geométricas dispostas em uma espécie de palco, criando quase um universo paralelo) como sobre a conotação de grandioso, que a palavra assume no uso comum. Alguns dos objetos, de diferentes formatos e tamanhos, chegam a atingir o pé-direito, com 4 metros de altura.

 

A série de gravuras Bom dia, Brasil foi realizada a partir de fotografias do dia a dia, clicadas tanto pela artista como garimpadas em jornais

Parte do acervo do MAB, a obra Ceci tuera Cela / Isto matará aquilo foi produzida por Ana a partir do Programa de Residência Artística da FAAP na Cité des Arts e apresentada na Anual de Arte da FAAP

Feita a partir da pintura Ascenção de S. João Evangelista, de Giotto, a peça Ascenção se completa com a interação do espectador

Antes de começar a desenvolver este trabalho, Ana realizou praticamente uma exposição por mês. Apenas no primeiro semestre, montou sua terceira individual em Paris, participou de uma coletiva no Instituto Tomie Ohtake e preparou a primeira individual em Miami, entre outras. O ritmo de trabalho, no entanto, nem sempre foi assim. Quando começou, a artista diz ter recebido tantas negativas para projetos enviados a editais que, em determinado momento, nem se importava mais. “Estava tentando uma inserção desde 2006. No Centro Cultural São Paulo [no Programa de Exposições], por exemplo, só fui aprovada em 2014, com 35 anos de idade”, lembra. “Tinha uma coisa astral, não sei, entendi que teria um outro tipo de reconhecimento”, diz, uma vez que essas seleções costumam ser a porta de entrada no circuito para artistas em início de carreira.

Somente em 2013, durante sua participação no Programa de Residência Artística da FAAP na Cité des Arts, em Paris, que o vento começou a soprar a seu favor. “Tive contato com uma série de pessoas que estavam a fim de olhar o meu trabalho e percebi que havia interesse para o que estava produzindo. No Brasil, isso ainda não estava fortalecido”, explica. Durante o período de seis meses em que esteve na Cité, Ana realizou duas exposições individuais e uma coletiva; passou a ser representada na França, pela galeria Emmanuel Hervé, e também no Brasil, pela Jaqueline Martins. Desde então, a maré de sorte continua a seu lado. E nada indica que deva virar.