Desde sua fundação, a FAAP formou uma série de importantes artistas que aproveitaram os anos na faculdade para dar início a uma sólida carreira. Veja nove alunos que ajudaram a definir os rumos da arte brasileira nas últimas décadas

Antes mesmo que a Fundação Armando Alvares Penteado se transformasse em uma das maiores instituições de ensino do país, o edifício situado na rua Alagoas já era frequentado por mestres como Flávio Motta, Caciporé Torres e Flávio Império, que ministravam aulas de História da Arte, Escultura e Composição para jovens alunos que hoje estão entre os principais expoentes da arte contemporânea no Brasil. Carmela Gross frequentou a Fundação nesse período, entre 1964 e 1969, e guarda na lembrança a experiência de liberdade: “O prédio inteiro era para uso dos alunos, do subsolo ao jardim”, conta a artista.

Sonho de Armando Alvares Penteado, que deixou em 1947 parte de seu patrimônio para a criação de um museu e uma escola de Belas Artes, o edifício-sede levou quase duas décadas para ser finalizado – nesse período, o espaço em construção recebeu incialmente cursos livres, mas em 1967 cedeu lugar ao curso de Artes. Desde então, o corpo docente continuou a receber nomes consagrados, em uma lista que inclui Walter Zanini, Regina Silveira e Nelson Leirner, e a arquitetura também ganhou retoques finais, como a inclusão de esculturas de Bruno Giorgi e Franz Weissman, e vitrais que reúnem projetos assinados por Lasar Segall, Tarsila do Amaral e Candido Portinari. Durante a sua história, o espírito inovador e libertário que norteia a Fundação desde o principio se manteve o mesmo. Para a artista Lia Chaia, que frequentou o curso de Artes Visuais de 1998 a 2002, a autonomia que encontrou na FAAP para experimentar os diferentes suportes e linguagens foi um diferencial na sua formação.

Assim como Lia e Carmela, outros tantos artistas fizeram dos anos na faculdade a base de uma carreira sólida e de êxito no mundo das artes. Confira uma seleção, feita pelo coordenador do curso de Artes Visuais, Marcos Moraes, e pela professora de História da Arte, Maria Izabel Ribeiro, de nove ex-alunos que ajudaram a definir os rumos da arte brasileira nas últimas décadas – e que fazem aqui uma retrospectiva da carreira desde os tempos de FAAP.

Jac e, acima, no cabeçalho, “Nomes”, instalação de 1989 realizada com sacolas plásticas

Jac Leirner

56 ANOS. TURMA DE 1984

Momento marcante na carreira: Foi emocionante estar no Pavilhão Brasileiro da Bienal de Veneza, em 1997, onde apresentei quatro trabalhos com cartões de visita. Realizar uma institucional de peso na minha cidade, na Estação Pinacoteca em 2011, também foi um alívio.

Por que se tornou artista: Nunca foi uma decisão, mas depois de anos trabalhando com as linguagens que sempre me encantaram, ficou clara a minha condição.

Memórias na FAAP: Passava manhãs e noites na escola, trabalhando, estudando ou brigando pelo que acreditava, mas sempre aprendendo. Vários professores me marcaram: o Donato Chiarella me apresentou a cor; o Julio Plaza [1938-2003] me ensinou o pensamento cartesiano; a comunicação de Tomoshige Kusuno vinha das entranhas e alcançava diretamente meu estômago – com ele tivemos desenho de observação com carvão e grafite.

Próximos projetos: Quero trabalhar com o que não domino em termos técnicos. Fazer e pensar uma boa pintura que faça sentido no presente é um desafio que não me larga.

Um período da história da arte: Seria o mesmo que escolher entre crianças e adultos, amarelos e roxos e assim por diante. Cada dia sou uma.

MÔNICA NADOR

62 ANOS. TURMA DE 1982

Momento marcante na carreira: Quando vim para o Jardim Miriam Arte Clube/JAMAC [espécie de ateliê aberto criado pela artista em 2003 no bairro Jardim Miriam, em São Paulo].

Por que decidiu se tornar artista: Antes de cursar Artes Plásticas, fiz três anos de Arquitetura e meio de Pedagogia, mas sempre tive contato com arte em casa. Meu pai era pintor e fundou em São José dos Campos um ateliê que era frequentado por artistas como Hermelindo Fiaminghi [1922-2004] e Luiz Sacilotto [1924-2003].

Memórias na FAAP: Era um espaço de liberdade, nós podíamos usar as oficinas eternamente. Eu chegava às 8 da manhã e às vezes saía às 10 da noite. As aulas com a Regina Silveira foram importantes para mim também. Lembro uma vez, quando eu estava aflita com alguma situação, que ela me disse: “As regras existem para ser quebradas”.

Próximos projetos: Devo fazer uma residência com uma comunidade indígena em Maringá, Paraná, e estou planejando um projeto em uma aldeia da República Democrática do Congo.

Sobre a arte: É um meio de expressão muito natural, faz parte da gente, assim como o fígado.

IRAN DO ESPÍRITO SANTO

54 ANOS. TURMA DE 1986

Momento marcante na carreira: Minha participação na 19a Bienal de São Paulo, em 1987, e nas Bienais de Veneza em 1999, representando o Brasil, e em 2007, na mostra geral.

Por que decidiu se tornar artista: Sempre desenhei compulsivamente e nunca pensei em outra coisa.

Memórias na FAAP: Foram anos difíceis, de adaptação e luta pela sobrevivência numa metrópole, com o país em grave crise econômica, ainda sob ditadura militar. No entanto, também foi um período de descobertas e maior acesso à cultura em geral. A faculdade me proporcionou conhecer pessoas com as quais tenho amizade até hoje, como Mônica Nador e Leda Catunda. As aulas da Ana Maria Tavares e da Regina Silveira foram as que mais me marcaram, pois abriram um universo mais reflexivo em relação à arte, em que a prática estava associada à teoria.

Próximos projetos: Estou preparando uma individual na Sean Kelly Gallery em Nova York, que abre em setembro.

Sobre a arte: Ainda que sujeita à divisão do trabalho em uma sociedade dominada pelo mercado, a arte representa ao mesmo tempo um escape e uma forma de expressão que engloba prazer, poética e política.

leonilson

(1957-1993)

O artista, que viveu 36 anos e deixou um legado de quase 4 mil peças, estudou na FAAP de 1978 a 1980. Quem responde abaixo é sua irmã, Ana Lenice, presidente do projeto Leonilson.

Por que ele se tornou artista: Quando pequeno, Leonilson gostava de ler a enciclopédia Barsa e observar a transparência das páginas da anatomia e do atlas – acho que foram suas primeiras influências visuais. Também estava sempre pelo quarto de costura da mamãe e gostava de acompanhar o papai em suas idas às fábricas de tecido.

Memórias na FAAP: Regina Silveira, Julio Plaza e Nelson Leirner foram os docentes de quem ele mais se aproximou. Alguns professores do curso diziam que ele estava pronto e o Léo comentava: “Será verdade?”.

Momentos marcantes na carreira: Sua ida à Espanha, em 1981, onde fez sua primeira mostra internacional, a 13a Bienal de Paris, em 1984, e a Bienal de São Paulo de 1985.

Ambiente ideal de criação: Normalmente seu ateliê, mas ele andava com lápis, papéis e canetas, e produzia por onde ia, mesmo viajando. Temos desenhos que Leonilson fez no avião e, quando fomos catalogar, brincávamos que o local era o oceano Atlântico.

Carmela gross

71 ANOS. TURMA DE 1969

Por que decidiu se tornar artista: Nós, de algum modo, “somos decididos” pelos acontecimentos. Lá pelos meus 15 anos, fui levada pela mãe de uma amiga para ver uma exposição sobre arte barroca no prédio da FAAP [Barroco no Brasil, a primeira exposição no MAB, em 1961], aquele enorme saguão, com obras do Aleijadinho e outras coisas. Fiquei completamente emocionada e pensei que um dia gostaria de estudar ali.

Memórias na FAAP: Comecei no curso livre de História da Arte com o Oswald de Andrade Filho [1890-1954]. Sob seu olhar pude conhecer as pinturas de Tarsila do Amaral, a poesia pau-brasil de Oswald de Andrade, o Macunaíma de Mário de Andrade. Depois, fui aluna do Curso para Formação de Professores de Desenho. Éramos 50 alunos e o prédio inteiro de uso muito aberto: podia-se trabalhar no jardim e alguns possuíam até mesmo ateliês individuais. Era uma experiência rica, do fazer livre e de encontros inesperados.

O ofício do artista é solitário ou coletivo? É sempre coletivo, pois compreende o homem comum da rua, os loucos, as crianças, os quixotes, os cézannes, os manés, os picassos, os pixinguinhas, as clementinas…

MARCIUS GALAN

44 ANOS. TURMA DE 1997

Momento marcante na carreira: Em 2008, fiz uma mostra na galeria Luisa Strina, onde modifiquei uma sala para produzir a sensação de um plano transparente cortando o espaço em diagonal. Chamei a obra de Seção diagonal e cheguei a instalá-la também no Museu de Belas Artes de Houston e no Instituto Inhotim.

Por que decidiu se tornar artista: Comecei a FAAP pensando em design. Naquele tempo, os primeiros semestres eram comuns para Artes, Desenho Industrial e Comunicação Visual. Quando tive que decidir, fui para Comunicação, mas assistia as aulas de arte como ouvinte. Herman Tacasey, professor de gravura, percebeu o meu interesse, e me aconselhou a fazer licenciatura em Artes.

Memórias na FAAP: As aulas de Dora Longo Bahia eram sensacionais. Ela era dura nas críticas, mas generosa com seu tempo, emprestava livros e até seu ateliê. Já Jorge Carvajal ensinava geometria com um olhar poético.

Próximos projetos: Estou com um projeto para o museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, que será parte da mostra Art and space, em dezembro.

Sobre a arte: Não tenho definição, mas acho que sem ela o mundo seria insuportável.

Lia Chaia

39 ANOS. TURMA DE 2002

Momento marcante na carreira: Assim que me formei, fui convidada para a individual Experiências com o corpo, no Instituto Tomie Ohtake, e foi desafiador pensar na mostra em um lugar que é referência na arte. As exposições que faço no exterior também são instigantes. Na 10a Bienal de Istambul, em 2007, fui a única brasileira da mostra.

Por que decidiu se tornar artista: Desde a adolescência, me identificava com o universo da criação. Estudava dança na escola Klauss Vianna e sempre me envolvia nas aulas de artes e humanas da escola.

Memórias na FAAP: Até hoje tenho amigos que estudaram comigo, criamos uma intimidade quando estávamos juntos nas salas e conversávamos sobre a produção artística. A FAAP propiciou a formação de um grupo geracional que facilitou a discussão sobre a arte na contemporaneidade.

Próximos projetos: Estou pensando em desenvolver um livro, mas a arte nos coloca desafios diários. A cabeça do artista está sempre maquinando possibilidades e impossibilidades futuras.

O que a inspira: Os conflitos estão presentes para pensar as relações entre a natureza e o artificial e os contatos do corpo com a cidade.

LEDA CATUNDA

56 ANOS. TURMA DE 1984

Artista convidada pela Fundação para desenvolver a capa da revista comemorativa dos 70 anos da FAAP, Leda Catunda diz que se lembrou das aulas de desenho no processo de criação: “Estudava no curso noturno porque trabalhava durante o dia. Mas, para mim, parecia que ia à faculdade para ‘descansar’. Ficava horas desenhando… Me identificava muito com o curso”, conta. Para a ilustração da edição de aniversário, ela usou a imagem do edifício-sede, com suas escadarias e colunas – grandes símbolos arquitetônicos da Fundação –, além de situações profissionais que começam a ser ensaiadas ainda na faculdade, como encontros e reuniões.

Aluna do curso de Artes Visuais de 1980 a 1984, Leda também chegou a lecionar na Fundação durante um ano, logo após se formar, em 1985. “Tenho uma lembrança muito forte desse período de formação, que é cheio de questionamentos e dúvidas. Hoje já estou em um momento de mais certezas, mas muito do que sou eu devo aos anos que passei pela FAAP”, diz.

Momentos marcantes da carreira: Participar de três bienais de São Paulo fez com que me sentisse ladeada por artistas do mundo inteiro. Na minha retrospectiva na Estação Pinacoteca, em 2009, pude mostrar um número expressivo de obras.

Por que decidiu ser artista: Meus pais sempre me levaram a exposições. Como eu desenhava bem, acabei optando pelas artes.

Memórias na FAAP: História da Arte com Walter Zanini [1925-2013] era um aprendizado completo. Já com os professores que eram artistas, como Nelson Leirner e Regina Silveira, aprendi a atitude questionadora do artista diante da linguagem. Tive colegas geniais, que se tornaram excelentes artistas.

Próximos projetos: Estou indo fazer uma residência de dois meses no Porto, em Portugal, que é um dos países onde mais expus na minha carreira e, ao fim, abro uma individual lá.

O que não falta no momento de criação: Preciso de uma mente clara num corpo são, por isso malho muito para ter costas fortes e um pescoço que possa segurar bem minha cabeça com todas as ideias que estão dentro dela.

Paula Garcia

42 ANOS. TURMA DE 2005

Momento marcante na carreira: A exposição Terra comunal, no Sesc Pompeia, em 2015, foi um divisor de águas não só porque fiz uma performance de longa duração, mas também porque dividi a curadoria com a Marina Abramovic.

Memórias na FAAP: Entrei tarde, com 27 anos, mas foi a melhor coisa que já fiz. Nas aulas da Dora Longo Bahia comecei a fazer pinturas na parede e cheguei a pensar que iria seguir esse caminho. A faculdade é o território do risco e foi onde comecei a experimentar. Cada aula do Felipe Chaimovich era um caminhão de informações, e as classes da Cristhine Melo fizeram com que eu desenvolvesse um monte de videoperformances. Foi na FAAP que entendi que minha linguagem era a performance.

Próximos projetos: Estou preparando minha primeira individual no Brasil e fui convidada para fazer a curadoria de performances da SP-Arte de 2018.

Sobre a arte: Tem mais a ver com o estômago do que com a cabeça. É o lugar que transforma a sensibilidade e transporta as pessoas de um espaço conhecido para outro desconhecido, pois mexe com a emoção, a memória e os sentidos.