Regina Parra se formou na FAAP e deu aulas na faculdade. Hoje, ela mantém uma carreira sólida como artista visual, com uma produção marcada por temas íntimos de força, angústia, desejo e sobrevivência

A primeira grande ação da artista paulistana Regina Parra quando entrou no curso de artes visuais da FAAP, aos 20 anos, foi parar de pintar. “Comecei a estudar arte contemporânea e resolvi deixar a pintura um pouco de lado. Percebi que o que eu fazia até então era muito ruim”, ela lembra. Regina parou, testou outros meios, acumulou mais repertório e, no ano seguinte, voltou a pegar nos pincéis. Ainda estudante, encontrou um estilo próprio de marcar a tinta no papel, com linhas menos definidas e um aspecto mais borrado. Quase como um frame de um vídeo em movimento. Essas pinturas garantiram sua entrada nas edições de 2005, 2006 e 2007 da Anual de Arte da FAAP – uma exposição que completou 50 anos em 2018 e é muito respeitada pela cena artística de São Paulo, selecionando trabalhos de destaque dos alunos da faculdade. “É difícil entrar, o júri é composto de curadores consagrados e acaba sendo uma vitrine para jovens artistas. Hoje em dia, sempre vou para ver o trabalho dos alunos, assim como galeristas e colecionadores”, diz. “Já ganhei outros prêmios mas nenhum foi tão legal como entrar na Anual. É quando você, como estudante, pensa ‘acho que tenho uma chance!”, diz, sobre a entrada no mercado das artes.

E, de fato, a aposta da FAAP foi certeira. “Ela saiu de uma turma de alunos que seguem por aí trabalhando. A primeira edição da Anual que a Regina participou chamou muita atenção por ser a pintura feita a partir da fotografia. Hoje, possui uma linguagem totalmente em concordância com o que está acontecendo no mundo. É uma artista que fala do seu tempo, que fala sobre o tempo em que vive e atua para isso”, lembra Marcos Moraes, coordenador do curso de Artes Visuais da FAAP e que deu aulas para Regina.

Aos 35 anos, ela ostenta uma carreira de respeito. A pintura é seu principal meio de trabalho, combinada ao vídeo e à performance. Neste semestre, ela apresentou uma individual na paulistana Millan, galeria que a representa; sua obra Chance, um néon adquirido pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, está exposta no museu até 17 de junho e, desde maio, no Atchugarry Art Center, em Miami. Nos próximos três meses, ela participa de sua segunda residência artística em Nova York.

“Estou em um momento interessante da carreira porque esses dez anos de prática profissional me ajudaram a entender melhor o meu próprio trabalho, os meus interesses. Vejo que agora consigo amarrar melhor algumas questões e tenho menos insegurança do que quando comecei.”

Ela diz que ter tido aulas na faculdade com professores que eram também artistas e curadores foi essencial para a sua formação. Nessa época, faziam parte do corpo docente nomes como os artistas Sandra Cinto e Paulo Pasta. Além do crítico e curador Felipe Chaimovich, que ainda dá aulas na FAAP. Um deles, Eduardo Brandão, fotógrafo, curador e sócio-proprietário da Galeria Vermelho, em São Paulo, foi o primeiro a tirá-la da zona de conforto. “Ele dava a real. Questionava as escolhas, o quanto você olhava para o mundo, o que o seu trabalho tinha de político”, lembra.

Um ano depois de se formar, Regina fez um mestrado em Teoria e Crítica da Arte e, de 2010 até o ano passado, deu aulas na graduação da FAAP, em que investigava a pintura e o corpo como ferramenta artística. “Ela tinha uma maneira muito específica de criticar os trabalhos, conseguia criar um ambiente estimulante. Eu sempre saia da aula animada a produzir”, diz Julia Gallo, que foi sua aluna e, recentemente, foi convidada por Regina para participar da performance Bacante, apresentada durante a exposição na Millan. “Ela já compartilhava essa experiência do fazer artístico, do cotidiano do artista. Foi muito rico ver esse processo dela de perto”, lembra a ex-aluna.

“Ela trazia aos alunos uma atuação ampla, e não presa a apenas uma linguagem. Uma pesquisa e investigação que transitava em diferentes áreas”, lembra Marcos Moraes. Além disso, Regina sempre tentou trazer os alunos para a realidade da profissão. No sentido de não se paralisarem apenas com ideias, mas botarem a mão na massa. “Às vezes, eles ficavam muito presos a projetos megalomaníacos e caros. Uma ideia pode dar errado e você só vai saber fazendo, você só descobre o seu trabalho lidando com as limitações”, diz. Ela também insistia para que fossem mais ativos no mundo das artes. “Tudo muda quando você entende que faz parte desse sistema, por mais que seja apenas um estudante, e que consegue propor coisas.”

Foi justamente a partir desse insight que ela, e mais sete artistas (seis deles da FAAP), se juntaram para criar o Grupo 2000e8 – o nome é uma brincadeira com o ano de criação, 2008, e com o número de artistas que fazia parte do coletivo, oito: Regina, Rodrigo Bivar, Renata De Bonis, Marcos Brias, Rodolpho Parigi, Marina Rheingantz, Ana Elisa Egreja e Bruno Dunley. “A gente não conseguia entrar nos salões de arte [espécie de concursos que revelam novos artistas] e fomos atrás de montar nossa própria exposição”, lembra.

Em frente à obra Febril e sem ar quase morro (2019), que foi exposta em uma individual que aconteceu este ano, na Galeria Milan

Naquele ano, o grupo saiu em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo como uma aposta das artes. No mesmo período, inauguraram uma exposição no Sesc Pinheiros com curadoria de Paulo Pasta – que havia sido professor de muitos deles na FAAP. A partir daí, venderam seus primeiros trabalhos e fecharam com galerias. Ter botado em prática esse projeto marcou o começo da carreira deles. Hoje, todos têm uma produção ativa e são reconhecidos. “Essa exposição gerou uma visibilidade nossa no cenário da arte contemporânea. Sinto que a nova geração acha que vai postar uma imagem no Instagram e que a carreira vai acontecer. A vida de um artista é menos sobre sucesso e mais sobre trabalho, dedicação, persistência e insucessos também”, diz Rodolpho Parigi, que, desde 2015, ministra com Regina um curso livre de acompanhamento de pintura para jovens artistas.

“Regina e eu temos uma empatia pessoal, uma sintonia de trabalho. Os dois transitam em outras linguagem, não só na pintura, e partimos de uma poética muito pessoal e autorreferencial na nossa produção. Quando eu olho para a pintura dela, e ela para a minha, a gente entende o trabalho do outro de cara”, Rodolpho Parigi, Artista Visual.

MÉTODOS PRÓPRIOS

Combinar diversas questões em uma mesma produção artística foi algo que Regina teve contato antes da FAAP, quando era assistente do diretor de teatro Antunes Filho (1929-2019), no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), onde também se formou. “Ele tinha esse processo de ir trabalhando com várias frentes ao mesmo tempo. No começo, parecia uma pesquisa caótica, as relações não aparentavam ter sentido, mas depois as coisas iam se encaixando”, diz. Esse estilo de trabalho também virou seu método de criação. Ela normalmente escolhe um tema que a intriga pessoalmente e vai pesquisando assuntos relacionados. “A ideia surge quase de algum incômodo pessoal que tenha a ver comigo, e também com o mundo, comigo estando no mundo. É um olhar parcial, subjetivo mas dentro do contexto em que estamos.”

Ano passado, Regina se viu curada de uma doença genética e neuromuscular que ela enfrentou durante cinco anos, a miopatia mitocondrial. A energia celular não chegava aos músculos, o que a deixava muito fraca. Naturalmente, essa experiência começou a aparecer em suas produções. Nas obras mais recentes, ela passou a abordar temas-limite, como o afogamento. Essa pesquisa, especificamente, começou quando ela assistiu a um vídeo publicado na internet de um refugiado se afogando num canal em Veneza, na Itália. “As pessoas não faziam nada e filmavam. O argumento delas era que ele estava se matando e explicaram ‘alguém jogou uma boia e ele não pegou’. Mas se tem alguém se jogando do prédio, você vai lá e agarra!”, diz.

Quando soube que recebeu o Prêmio de Residência SP-Arte, em 2017

Ela, então, se deparou com uma situação muito específica relacionada ao tema, chamada Resposta Instintiva do Afogado, que dura segundos. A pessoa está consciente, mas o corpo age de modo involuntário. O braço faz um movimento como se estivesse empurrando a água para baixo, só que ela não consegue subir porque a perna fica paralisada e a boca aberta tentando respirar. “Você não consegue pedir ajuda e, se alguém te der uma boia, você não vai pegar. Deve ser uma coisa desesperadora.” A partir disso ela criou a pintura Not waving but drowning (não acenando, mas afogando), em que convidou uma bailarina para refazer esses movimentos de afogamento e depois os pintou. O título da obra vem de um poema homônimo da inglesa Stevie Smith (1972-1971), que fala de um homem que estava no mar e as pessoas achavam que ele estava acenando, mas, na verdade, estava se afogando. “Lendo sobre isso, eu obviamente associei com o que eu estava passando, com essa parte da doença que era basicamente ter uma cabeça muito lúcida e um corpo que eu não conseguia controlar e que estava literalmente se afogando – e que isso não era visível.”

Ela também começou a se interessar mais pelo tema do corpo. “Não tinha como não pensar, porque ele virou meio que um impedimento para tudo o que eu queria fazer.” E, quando o foco é o corpo, o interesse pela dança veio com essa nova fase. Regina se juntou a uma bailarina e um coreógrafo – Clarissa Sacchelli e Bruno Levorin – para criar duas peças coreográficas chamadas Lasciva, que tem mulheres como protagonistas. “Se você sai daquele balé mais harmônico e perfeito, pode ir para um lugar da dança que é dos movimentos estranhos, achei uma afinidade naquilo. Talvez uma tentativa de encontrar harmonia em um corpo inadequado, achar beleza em um corpo que não é o padrão.”

Na infância com a mãe, Gloria, e a irmã, Fernanda

UNIVERSO PARTICULAR

Tratar de temas íntimos que tocam a realidade de outras pessoas se tornou uma característica de sua produção. Esse é também o caso da obra É preciso continuar (2018), luminoso vermelho instalado no Largo da Batata, em São Paulo. O néon, que irradia as frases “É preciso continuar/ Não posso continuar/ Tenho que continuar/ Vou continuar” marcou as manifestações populares no período das eleições presidenciais, em setembro de 2018, e está no Instagram de muita gente que passou por lá. Para a artista, a frase tinha ligação com a sua doença e com São Paulo, cidade que ela nasceu. “Inicialmente, era sobre uma questão pessoal porque eu estava nesse lugar de ‘tenho que continuar, mas não consigo’, mas eu entendia que essa frase em São Paulo, e especialmente naquele lugar, podia falar de viver nessa cidade que demanda esse esforço permanente”, diz sobre o trecho, originalmente publicado no romance O inominável (1953), do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). O néon, que já aparecia em seu trabalho como plataforma de ideias, ganhou uma maior urgência com os textos escolhidos. “O primeiro que eu fiz, em 2010 [A zona], talvez tivesse uma coisa mais ligada ao desejo. Esses últimos têm mais a ver com limite ou sobrevivência”, diz. Regina tem produzido bastante e está em um momento importante de sua carreira, com exposições marcadas e diferentes projetos. Mas não deixa de olhar para o futuro. “Sei que essa não é uma carreira fácil, então tento entender onde estou e o que preciso fazer para continuar produzindo”, diz.

Quando botou sua pintura para descansar, no primeiro ano da faculdade, Regina não poderia imaginar que seu trabalho alcançaria tamanha base de significados.

“Depois de dar aulas, percebi algo que já tinha intuição quando estudante: muito mais importante do que a habilidade de uma pessoa em pintar ou desenhar é a obsessão, a insistência, a postura.”

Características que ela certamente tem de sobra.

A obra É preciso continuar (2018), que foi exposta no Largo da Batata, em São Paulo