Ele fez Rádio e TV, se descobriu um artista gráfico na faculdade, mas seu maior feito foi em uma área totalmente diferente: Rubens Amatto criou a menor – e mais intimista – casa de shows de São Paulo, a Casa de Francisca

No bairro dos Jardins, há um oásis para a música de São Paulo. Na rua José Maria Lisboa, num quarteirão em transformação, com enormes empreendimentos imobiliários em construção, está um dos melhores – e mais discretos – lugares para se ver um show na cidade: a Casa de Francisca. Ela fica num minúsculo sobrado, que abriga um palco diminuto e apenas 44 lugares sentados. É um espaço que preza pela intimidade – e pela música: durante os shows, o serviço é interrompido para que a plateia dê atenção total aos artistas.

Sentado no camarim, Rubens Amatto, 36 anos, relembra como chegou até ali. “O projeto desta casa nasceu de uma amizade que fiz dentro da FAAP”, explica. Lá ele conheceu Rodrigo Luz, amigo a quem chama de irmão e com quem fundou a Casa de Francisca em 2007. Rubens cursou Rádio e TV porque, segundo o próprio, “aos 17 anos não tive coragem de fazer Cinema”. Seu espírito irrequieto driblou o temor: enquanto esteve na faculdade, de 1997 a 2001, frequentou informalmente aulas do curso de Cinema, participou de produções de curtas-metragens e era um explorador da gráfica da FAAP. “Ele era um aluno muito inquieto, sempre procurando coisas para fazer, perguntando indicação de filmes, teatro, shows”, relembra Rubens Fernandes Junior, diretor e professor do curso de Comunicação e Marketing. Foi ao professor Rubens que o aluno recorreu quando precisou de uma bolsa para o curso. O mestre lhe passou a tarefa de fazer o projeto gráfico da revista do curso de Comunicação em troca do benefício. “O curioso é que na FAAP descobri minha maior especialidade, que não é ser curador de música: é ser artista gráfico”, afirma. “Por causa dessa revista, consegui logo um estágio numa editora de livros.”

MI CASA, SU CASA
Um ano depois de formado, quando ainda estava fazendo design de livros, capas de discos e cartazes de teatros, o desassossego o fez querer voar mais alto. Decolou para  Barcelona para visitar o amigo Rodrigo, que estava morando lá. “Cheguei com muita fome e ele me levou nas Ramblas. Era madrugada – e Barcelona ferve à noite. Foi absurdo ver as pessoas circulando. Os mais variados perfis de público convivendo. Falei: ‘como não tem isso em São Paulo? Vamos fazer algo quando a gente voltar’. Esse projeto nasceu da vontade de conviver com uma cidade menos inóspita.”

Show em dezembro de 2015, na Casa de Francisca

Da esq. para a dir., Rodrigo Luz, um dos fundadores da Casa de Francisca, Francisco, filho de Rubens, e o próprio, no Teatro Oficina

Acharam o imóvel no final de 2006: uma casa que havia sido de uma espanhola chamada Francisca – mais uma ligação com aquela noite nas Ramblas. Fizeram a reforma na vontade, sem arquitetos e com dinheiro do próprio bolso. Começaram a abrir aos poucos, em setembro de 2007. “No início, era um clima de barzinho com música ao vivo e isso me incomodava muito”, conta Rubens. “Se a música vai ser protagonista, então a gente tem que parar de servir durante o show. Lembro que quase apanhei da equipe quando decidi isso, porque vende muito menos. A partir desse momento, a casa começou a construir a identidade dela.” Mas por que o profissional formado em Rádio e TV, que queria cursar Cinema – e  que acabou se descobrindo artista gráfico –, abriu uma casa de shows? “A música tem um papel muito importante na minha formação. Alguns artistas deram um nó na minha cabeça e mudaram minha trajetória e minhas escolhas”, explica. Um desses foi Arrigo Barnabé, ícone da vanguarda paulista dos anos 80, que conheceu pessoalmente através de uma ex-namorada dos tempos de faculdade. Ele foi um dos primeiros grandes nomes a se apresentar nos palcos. Por lá, já passaram artistas como Paulo Vanzolini (autor do clássico “Ronda”), Tulipa Ruiz, Emicida, a atriz e cantora portuguesa Maria de Medeiros, Tetê Espíndola, Jorge Mautner, Jards Macalé, Alice Caymmi, Metá Metá.

Ainda aluno, em um dos estúdios de Rádio e TV da FAAP

Fachada da Casa de Francisca, na rua José Maria Lisboa

Agora, Rubens se prepara para um empreendimento maior e, desta vez, sem a companhia do amigo Rodrigo – que deixou a sociedade amigavelmente. Já está em andamento a obra para inauguração do Palacete Teresa, um imóvel histórico no centro que abrigou a primeira loja de música da cidade, a Casa Bevilacqua, e que também foi sede da Rádio Record. A proprietária do imóvel, responsável pelo restauro do local, é frequentadora e fã da Casa de Francisca.

Quando Rubens conheceu o Palacete, logo veio a vontade de fazer um projeto ali, no endereço que já foi chamado de “a esquina musical de São Paulo”. O desejo é que a Casa de Francisca continue a funcionar paralelamente à expansão para o Palacete, com 120 lugares. Para ajudar a realizar o empreendimento, Rubens decidiu fazer um financiamento coletivo para o projeto. No site casadefrancisca.art.br/elfundador, é possível apoiar e receber recompensas como réplicas das cadeiras que serão usadas no local, camisetas e se tornar um sócio-fundador. “É muito complexo avaliar a questão financeira de qualquer projeto cultural que tem suas prioridades fora da lógica mais comum do mercado. A casa é um projeto financeiramente enxuto pela sua proposta estética e por seu espaço físico reduzido, mas também por ter como princípio prioritário a manutenção de um espaço de convivência que permita trocas estéticas e afetivas entre as pessoas.”

GENTE DE CASA
ARTISTAS CONTAM POR QUE É TÃO LEGAL TOCAR NA CASA DE FRANCISCA


“É um lugar bem intimista, onde dá para fazer experiências. Lá, cria-se um clima quase familiar, como se fosse sua casa. Pude experimentar bastante coisa ali. O espetáculo Caixa de ódio, em que canto as músicas do Lupcínio Rodrigues, fiz especialmente para lá. É um espaço superimportante porque consegue fazer circular as coisas novas junto com nomes, por exemplo, o [Paulo] Vanzolini, que se apresentava lá.” Arrigo Barnabé, cantor e compositor


“Perdi a conta das vezes em que cheguei cedo porque sabia que iria ver a 2 metros de mim a Cida Moreira tocando piano, e também que ela cantaria e tocaria num registro tão íntimo, que não consigo pensar em outro lugar na cidade onde isso poderia acontecer. Quando comecei a tocar, me lembro que o tilintar de garrafas, conversas e distrações eram um pesadelo. Quando descobri o modo com que Rubens fazia lá foi um alívio.” Helio Flanders, cantor, compositor e integrante do Vanguart


“É uma alegria e um desafio imensos tocar lá. Alegria refletida no astral de cada funcionário. Desafio, porque essa proximidade com a plateia, ao mesmo tempo que nos estimula, nos mantém absolutamente concentrados em nossa performance. Só o espaço físico é pequeno ali: a importância da Casa de Francisca para a música produzida em São Paulo é imensurável!” Romulo Fróes, cantor, compositor e integrante do Passo Torto