Alunos do curso de animação passam um mês no Canadá na conceituada Vancouver Film School

A paulistana Rafaella Milani, 22 anos, começou a rabiscar os primeiros contornos muito cedo: já ouviu a mãe contar, mais de uma vez, que foi “logo que aprendeu a andar”. Do que se recorda, de fato, é que no final do DVD do filme Spirit: o corcel indomável (2002) havia um tutorial que ensinava a desenhar o cavalo protagonista; mas ela nem sempre esperava o filme acabar para reproduzir o que via na tela.

Um dia, assistindo a Pinóquio, se deu conta de que um desenho animado nada mais era que uma sequência daquilo que colocava no papel. “Foi uma descoberta incrível”, lembra a jovem. Alex Reis, 22, também se interessou por esse universo ainda na infância. Além da influência das idas ao cinema e ao teatro com os pais, o convívio com a irmã mais velha, ilustradora, tratou de acentuar seu interesse por desenhos e narrativas. “Cresci querendo contar histórias e criar novos mundos”, conta.

Os dois são alunos da primeira turma do curso de Animação da FAAP – estão no 7o semestre – e em janeiro embarcaram com mais dez colegas da faculdade rumo a Vancouver, no Canadá, um dos centros de referência mundial no assunto, onde passaram um mês estudando animação na prestigiada Vancouver Film School (VFS). A rotina se baseava em aulas de segunda à sexta, das 9 horas às 16 horas, e ao final da experiência cada estudante teve que fazer um curta-metragem de até um minuto usando técnicas de animação 2-D e 3-D (três projetos ilustram a página ao lado).

Os alunos da FAAP em um dos estúdios da VFS

A premissa era criar uma bola em 2-D e um retângulo em 3-D, cada forma representando um personagem com comportamento de um animal e interagindo entre si. “Foi uma experiência intensa e positiva. Além de fazer um networking importante, aprendemos muita coisa em pouco tempo e deu para notar os resultados desse aprendizado de imediato”, diz Rafaella. “Fazer animação é um processo longo e complicado, e o fato de termos conseguido juntar essas duas técnicas, sendo que pouca gente tinha conhecimento do 3-D, foi muito bacana”, comenta.

Já Alex ficou impressionado com a estrutura da VFS e também com o que se passou além de seus muros – Vancouver não é considerada a Hollywood do norte à toa. “Tivemos a oportunidade de conhecer estúdios como a DHX Media, a Atomic Cartoons e o da Sony, que tinha acabado de ganhar o Oscar de Melhor Animação com o Homem-Aranha no Aranhaverso. De quebra, ainda tivemos uma palestra com o Drew Collins, vencedor do Oscar e do Bafta de melhores efeitos visuais com o filme A origem. Foi maravilhoso!”, vibra.

Visita ao estúdio DHX Media, focado em conteúdo infantil

A estudante Juliana Lino, 22, no 6o semestre do curso da FAAP, também estava no grupo. E fala com saudade de toda a viagem, a começar pela convivência com os colegas na hospedagem em homestays providenciadas pela VFS, e também pelo curta que produziu. “Fiz um retângulo lento, preguiçoso, que remetia a um urso hibernando. E uma bolinha com o comportamento de um bichinho pequeno e ágil, como um esquilo, que fica tentando fazer o retângulo parar de roncar. É uma coisa meio Tom e Jerry, o pequeno tira vantagem do grande.”

MADE IN BRAZIL

O desempenho dos brasileiros chamou a atenção de Barbara Martínez, diretora responsável por assuntos que envolvem a América Latina na Vancouver Film School. “Os alunos da FAAP são talentosos, inovadores e proativos. Ficamos realmente impressionados com as habilidades que têm para se virar em um ambiente diferente, com seu profissionalismo e com a qualidade de seus trabalhos”, diz. Barbara vê muitas semelhanças entre as duas instituições.

Turistando: os alunos durante uma partida de hóquei, Vancouver Canucks contra Carolina Hurricanes

“A FAAP é uma faculdade de ensino particular de grande prestígio, tem professores muito bons que trabalharam na indústria e tem altos padrões acadêmicos. Com parcerias como essa, estão promovendo experiências internacionais para os seus alunos e criando uma rede social mais ampla, que é crucial neste mundo global.”

O principal responsável por tudo acontecer – da incursão ao Canadá à existência da turma de Animação na FAAP – é o professor Eliseu Lopes Filho, coordenador do curso e profissional com vasta experiência em animações para publicidade, com centenas de comerciais para grandes marcas como McDonald’s e Nestlé. A seu ver, a parceria é importante para expandir o horizontes dos alunos ao oferecê-los uma outra visão, de uma cultura distinta. É, ainda, uma oportunidade de estreitar a relação entre os próprios estudantes, algo que a FAAP valoriza.

“O curso da FSV pode complementar o nosso com algumas matérias que não temos, como Acting for animation (atuação humana aplicada à animação) e Makeup for animation (maquiagem para animação)”, diz Eliseu. Por outro lado, a FAAP dispõe de uma disciplina que não existe no currículo da instituição canadense, que trata da criação da voz de personagens animados. Outra diferença é que aqui o curso de montagem e de direção contemplam animação e live action (adaptações de desenhos e animações para filmes e seriados com atores reais), enquanto por lá isso é ensinado de forma separada.

“No Brasil, precisamos ser generalistas e saber todas as partes da animação. Eles, com a indústria avançada que têm, podem se dar o luxo de se especializarem em partes específicas do processo”, explica. E opina: “Saber fazer todo o processo é o que torna você um grande animador. Ter o conhecimento de todas as especialidades lhe permite fazer o específico com mais eficiência”.

O curso, o primeiro bacharelado em Animação em uma faculdade privada do Brasil, foi criado em dezembro de 2015, momento marcante para a animação brasileira, com a indicação do nacional O menino e o mundo ao Oscar de melhor animação e o sucesso de Carlos Saldanha (Era do gelo e Rio).

“No Brasil, há público e mercado. Esse bom momento ainda vai durar uns dez anos”, analisa Eliseu. Quanto ao que vem de fora, a expectativa não poderia ser melhor. “Há uma sequência de filmes, formada por Mogli, Dumbo, Vingadores e Rei Leão, que vai redefinir o que é cinema. A animação é que está passando a usar imagens reais dentro dela, não é o filme tradicional que conta com a animação. Isso significa um infinito de possibilidades.”