compositor de experiências, designer de realidade virtual, tutor de curiosidades: o que podemos esperar do futuro e quais habilidades profissionais serão exigidas em um cenário cada vez mais instável e incerto

“Antes tinha uma pessoa ali. Agora não tem ninguém”, diz, apontando para uma máquina, o funcionário da empresa chinesa Fuyao no documentário American Factory, produzido pela produtora Higher Ground Productions, de Barack e Michelle Obama, e distribuído pela Netflix. “Agora pretendo me livrar de quatro trabalhadores ali.” O filme fala sobre uma fábrica chinesa que abre
em Ohio no lugar de uma antiga General Motors e mostra dados alarmantes: “por causa da automação, cerca de 375 milhões de pessoas no mundo todo precisarão encontrar ocupações totalmente diferentes até 2030. O futuro depende de como trabalhadores,
governo e empregadores enfrentarão essa grande mudança”. “A velocidade e o ritmo da transformação são cada vez mais intensos, e os impactos desse processo no mundo do trabalho e na subjetividade já estão aí. Automação e ansiedade são o presente, não o futuro”, dispara Gabriela Corbisier Tessitore, professora de comportamento contemporâneo da FAAP.

Não é de hoje que discutimos o futuro do trabalho. Algumas mudanças já estão acontecendo. Mas quais setores sofrerão mais impacto? No livro 21 lições para o século 21, o historiador israelense Yuval Noah Harari – o mesmo que escreveu o best-seller Sapiens: Uma breve história da humanidade – pontua que nenhuma atividade permanecerá totalmente imune à automação. “Sabemos que o aprendizado de máquina e a robótica vão mudar quase todas as modalidades de trabalho – desde a produção de iogurte até o ensino de ioga.” Contudo, há visões conflitantes quanto à natureza dessa mudança e sua iminência. Alguns crêem que dentro de uma ou duas décadas bilhões de pessoas serão economicamente redundantes. Outros sustentam que, mesmo no longo prazo, a automação continuará a gerar novos empregos e maior prosperidade para todos.” É o que defende Joseph Teperman, headhunter e sócio-fundador da consultora Inniti, investidor anjo e conselheiro consultivo da FAAP e que está prestes a publicar o livro Anti-Carreira. “A tecnologia é uma máquina de gerar trabalhos. E são trabalhos mais humanos que estão sendo gerados.” Na palestra O Futuro do Trabalho, ele levanta dados de uma pesquisa feita pela BCG, consultora estratégica, que apontam uma perda de
170 mil postos de trabalho entre 2015 e 2025 na Alemanha, mas uma demanda de mais de 400 mil postos novos.

“É possível que o mercado de trabalho em 2050 se caracterize pela cooperação, e não pela competição, entre humanos e inteligência artificial.”

Trecho do livro 21 lições para o século 21, de Yuval Noah Harari

Os especialistas

Na palestra O Futuro do Trabalho, Joseph Teperman cita dez trabalhos que ele acredita que vão existir e demandar muita gente nos próximos dez anos. Inspirada nessa ideia, uma lista de quais profissionais poderiam se encaixar nessas novas funções.

1_ DESIGNER DE REALIDADE VIRTUAL
O que é: Desenvolvedor de mundos imersivos que parecem a vida real. Quem poderia se tornar um: Designers, arquitetos, matemáticos, gamers.

2_ TUTO R DE CURIOSI DADE
O que é: Organizador de conhecimentos no meio de tanta informação disponível para as pessoas que, devido à alta produtividade, terão mais tempo livre. Pode se dar através de newsletter, aulas presenciais ou on-line, talks. Quem poderia se tornar um: Jornalistas, professores, estudiosos, publicitários.

3_ ESPECIALISTA EM DETOX DIGITAL
O que é: Estudioso do estresse causado pela dependência tecnológica. Quem poderia se tornar um: Psicólogos, médicos, professores
de ioga e terapias alternativas ou qualquer um que tenha sido fortemente impactado pela desconexão da tecnologia.

4_ GESTOR DE MORTE DIGITAL
O que é: Pessoa que olhe para os rastros on-line do indivíduo, que contempla informações, imagens e até dinheiro (bitcoins, por exemplo), ainda em vida e já prepare seu legado. Quem poderia se tornar um: Advogados, especialista em TI, marqueteiros, administradores.

5_ TÉCNICO DE NEUROIMPLANTE
O que é: Técnico que vai ter aval para implantar aparelhos no corpo de quem já quiser ser (em vez de estar) conectado à
internet. Quem poderia se tornar um: Médicos-cirurgiões, enfermeiros, farmacêuticos, acupunturistas, terapeutas de medicinas
alternativas.

6_ PROFESSOR FREELANCER
O que é: Professor que dará aulas curtas, possivelmente em formato de TED, de temas escolhidos pelo indivíduo e/ou por grupos.
Quem poderia se tornar um: Professores, empresários, especialistas de suas áreas, estudiosos, comunicadores.

7_ CONSELHEIRO DE APOSENTADORIA
O que é: Coach que vai direcionar a melhor maneira de gerenciar investimentos, novas rendas ou outras alternativas, nesse tempo de
vida pós-aposentadoria. Quem poderia se tornar um: Psicólogos, administradores, economistas, empresários.

8_ COMPOSITOR DE EXPERIÊNCIAS
O que é: Pesquisador de vivências genuínas que conectem pessoas a outras pessoas, culturas e experiências de vida. Quem poderia se tornar um: Comunicadores, urbanistas, pessoas formadas em moda, pesquisadores de tendência, ativistas, qualquer curioso com boa
dose de conhecimento do mundo.

9_ PERSONAL HEALTH COACH
O que é: Profissional que vai ajudar a lidar com o estresse que pode vir acompanhado da quantidade de informações que teremos sobre nossa saúde e também a tomar decisões complexas em relação a isso, como possíveis cirurgias preventivas, levando em conta
risco × segurança, prevenção × excesso de cuidado. Quem poderia se tornar um: Médicos, psicólogos.

10_ INSTALA DOR DE IOT (internet das coisas) EM CASA
O que é: Especialista em produtos inteligentes para casa, como geladeira que fala os produtos que acabaram, babá eletrônica que avisa que o bebê está com fome e até uma assistente que fala que faz tempo que você não ouve tal música. Quem poderia se tornar um: Técnicos, profissionais de TI.

“A gente tem uma quantidade gigante de dados, que indicam comportamentos e interesses. Olhar para os hábitos das pessoas na internet hoje é o que dará base para criar.”

Edson Rossi, jornalista e professor

Harari também acredita que a perda de alguns trabalhos tradicionais será compensada pela criação de novos trabalhos humanos. “A IA (inteligência artificial) poderia ajudar a criar novos empregos humanos de outras maneiras. Em vez de as pessoas competirem com a IA, poderiam concentrar-se nos serviços à IA e na sua alavancagem. É possível que o mercado de trabalho em 2050 se caracterize pela cooperação, e não pela competição, entre humanos e inteligência artificial.”

Como vai ser o futuro então?

O futurista Santiago Andreuzza, da escola de inovação Aerolito, traça um paralelo entre o começo da internet, lá nos anos 80 e 90, e as tecnologias atuais emergentes, como a robótica, a biotecnologia, a inteligência artificial, quando ainda é difícil explicar, entender a que veio, por que e a que custo.

“Estamos descobrindo um monte de coisas e podemos olhar pela ótica pessimista ou otimista.” Ele separa o futuro em três tipos: o emergente, o pós-emergente e o futuro-futuro. O emergente é o que está acontecendo agora com a “invasão de IA que ajuda muito
nossa vida”. Para quem ainda acha que está longe dessa realidade, o futurista lembra que Waze, Google Maps, Uber e Netflix, só para
citar alguns, já são exemplos de inteligência artificial em ação no dia a dia.

O pós-emergente é um cenário daqui 20 anos. “A estruturação formal de profissões vai se dissolver em habilidades”, diz Santiago. Isso quer dizer que as pessoas não serão mais jornalistas ou advogadas ou economistas, elas estarão jornalistas e depois estarão chefs de cozinha e outras atividades. Sim, a ideia de um mesmo emprego por toda a vida já começa a soar jurássica. Voltando a Harari, ele diz que “não apenas um emprego para a vida inteira, mas até mesmo a ideia de uma profissão para a vida inteira parecerão antidiluvianas”. De acordo com uma pesquisa feita pelo Institute For the Future da Dell, 85% das profissões de 2030 ainda não existem hoje. Até por isso, Santiago prefere trabalhar com hipóteses e a sua tacada é que teremos muitas pequenas empresas atuando em vários nichos.

Já quando falamos de futuro-futuro, pensamos em 2060, ou seja, daqui 40 anos. “Tendo em vista que o custo da tecnologia vai diminuindo, pode ser que a gente deixe de fazer algumas atividades, conseguindo trabalhar naquilo que vai exigir um aspecto humano, que as IAs e robôs ainda não conseguirão fazer de forma autônoma.”

“É preciso se desprender de todos os paradigmas e estar aberto. Toda vez que o indivíduo se prender a um jeito de vender, de cobrar, de trabalhar, estará perdendo oportunidades de criar um jeito novo. E esse é o futuro.”

Marília Carvalhinha, consultora e coordenadora da pós de negócios e varejo de moda na FAAP

 

O que Santiago sugere é uma fusão entre habilidades e tecnologia, ou seja, a gente trabalhando em profissões diversas, sendo assistido e utilizando tecnologia para trabalhar em conjunto.

Para Marília Carvalhinha, coordenadora da pós-graduação de negócios e varejo de moda na FAAP e consultora de startups e empresas, o mais desafiador é a mudança de mindset. E não só para gerações antigas, mas para as mais novas também. “O que já
acontece hoje é que é preciso se desprender de todos os paradigmas e estar aberto”, diz. “Toda vez que o indivíduo se prender a um
jeito de vender, de cobrar, de trabalhar, estará perdendo oportunidades de criar um jeito novo. E esse é o futuro.” De acordo com ela, as pessoas terão de ser capazes de abrir mão de posições, ter menos ego, viver de uma forma mais fluida e curiosa. “É um treinamento cotidiano, em que você precisa de espaço criativo onde não exista certo e errado.”

No caminho certo

Ao contrário do que muitos imaginam, o que se espera é um futuro mais humano. E também multidisciplinar. “Todo mundo vai ter que ser meio empreendedor e estar disposto a aprender sempre”, diz Marília. “Nesse momento, aquela pessoa que estava acostumada a ser passiva no trabalho, vai ser punida.”

As palavras de ordem serão criatividade, empatia e fluidez. Isso em qualquer área. Para o advogado Antonio Maia, dono da Tikal Tech, empresa criadora do primeiro robô-assistente para advogados no Brasil, os advogados vão voltar a fazer o que se fazia no passado. “O que o robô não consegue fazer de humano? Ter empatia. O advogado vai voltar a olhar no olho do cliente, pensar, de fato, no que é melhor para ele.” Além disso, Maia defende a tecnologia por quebrar a barreira de acesso à justiça para pessoas comuns e ainda fazer as pessoas renderem mais. “O número de oportunidades cresceu muito. Enquanto um robô vasculha dados de tribunais, baixa todas as cópias, faz classificação e escolhe possíveis defesas, o advogado pode atender mais clientes e focar na parte humana.”

Enquanto pessoas de negócios vão ter que ser mais criativas e se expressar de forma mais clara, os comunicadores, estilistas, arquitetos não vão focar só na parte criativa. Eles vão ter de ter noção de como codificar dados para gerar soluções inovadoras. Para
o jornalista e professor Edson Rossi, os números são uma espécie de língua que é preciso aprender a ler. “A gente tem uma quantidade gigante de dados, que indicam comportamento. Olhar para os hábitos das pessoas na internet hoje é o que dará base para criar”, explica.

“[A educação] deverá ser voltada para um aprendizado para além da mera técnica, ensinando-nos a pensar quando tudo o mais em volta se transformar rapidamente”
Gabriela Corbisier Tessitore, professora de comportamento contemporâneo da FAAP

E AGORA?

Se a mudança é a única constante, no que então devemos nos apegar? “A educação me parece ser a grande chave para o enfrentamento dos desafios que esse mundo que se apresenta a nós nos impõe”, diz a professora Gabriela. “Ela deverá ser voltada para um aprendizado para além da mera técnica, ensinando-nos a pensar quando tudo mais em volta se transformar rapidamente.”

Como diz Harari em 21 lições para o século 21, “o mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender
coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes”. E aí, você está preparado para viver essa mudança?