Formado em administração, Otavio Zarvos enveredou para a área da construção civil e vem chacoalhando o tradicional mercado imobiliário com a sua incorporadora IDEA!ZARVOS, apostando em projetos de arquitetura autoral

Quando estudava Administração na FAAP em meados dos anos 80, Otavio Uchoa Zarvos se pegava olhando para o espaço das salas de aula, com seu pé-direito alto e largas janelas, imaginando como seria construir um apartamento ali: sala de um lado, cozinha do outro, quartos ali, banheiros acolá. No dia seguinte, ele trocava os ambientes de lugar: a cozinha também podia ficar mais para lá, os quartos mais para cá e assim por diante.

Vinte anos e alguns empreendimentos mais tarde, Otavio literalmente concretizou o devaneio da sala de aula. No primeiro prédio residencial lançado por sua incorporadora Idea!Zarvos – o 4×4 da rua Cristiano Viana, zona oeste de São Paulo, que foi projetado pelo arquiteto Gui Mattos e lançado em 2008 –, o futuro morador podia criar a planta de seu apartamento, a partir de módulos flexíveis. Uma estrutura com poucas colunas, uma série de grandes janelas de mesmo tamanho – que lembravam a configuração da sala da FAAP – e tubulações no lado externo do prédio permitiam que o cliente escolhesse o lugar de cada ambiente, criando lares personalizados. Otavio sentava com cada família e perguntava: “Como vocês vão querer seu apartamento?”. Claro, também desenhou um para si: ele morou no 4×4 ao longo de oito anos.

Nós queremos criar prédios que acolham as pessoas, que as tirem da chuva, mas que também sejam relevantes daqui a 30 anos, que façam diferença na arquitetura de são paulo – Otavio Zarvos

Ao lado do primeiro prédio comercial da Idea!Zarvos – o Módulo Fidalga, com lofts para empresas –, o 4×4 foi o inovador cartão de visitas da Idea!Zarvos para São Paulo. “Foram os prédios que mostraram que a gente podia fazer diferente. Foi uma revolução”, conta Otavio. Com 19 prédios construídos e dez em andamento em 11 anos de atividade, a Idea!Zarvos chacoalhou o tradicional mercado imobiliário paulistano, apostando em projetos de arquitetura autoral – de nomes como Mattos, Isay Weinfeld, Andrade Morettin e Triptyque. “Nossa marca é o respeito à visão do arquiteto. O problema no Brasil é que o arquiteto sabe criar um prédio lindo, mas não é capaz de construí-lo. O engenheiro é capaz de construir, mas nem sempre de criar um projeto bacana. O que a gente fez foi unir esses conhecimentos com o do marketing e o do mercado.”

O arquiteto Gui Mattos ratifica as palavras de Otavio. “A turma da Idea!Zarvos tem claro o que quer, mas deixa os arquitetos livres para propor suas ideias. Eles têm uma imagem clara do prédio, mas nenhum preconceito. Por isso, conseguiram fugir da pasteurização da arquitetura em São Paulo”, afirma. “O Otavio pensa fora da caixa, adora arquitetura e investe na qualidade. Com ele, não existe braço de ferro entre arquiteto e construtor.”

Outro diferencial relevante da Idea!Zarvos apontado por seu dono é o diálogo dos prédios com a cidade. “O prédio precisa ter educação, conversar com a rua, como uma pessoa que lhe dá bom dia quando te vê. Você precisa passar na frente dessa construção e ser acolhido por ela, sentir que aquilo faz parte da sua vida, mesmo que você não more nela. Na entrada do prédio, eu quero que o público e o privado se misturem”, diz. Na prática, isso significa muitos projetos sem grades, com jardins e bancos que podem ser usados não apenas pelos moradores, com guaritas recuadas para dentro do prédio.

O Otavio tem uma inquietude muito produtiva. ele não quer repetir fórmulas, não tem medo de se arriscar, nem de voltar atrás – Luiz Felipe Carvalho, arquiteto e sócio de Zarvos

Para Otavio, a presença de 11 anos da empresa na Vila Madalena – que concentra a absoluta maioria de seus empreendimentos – mudou a cara do bairro. “Minha cidade é a Vila Madalena. Quando eu chego ao escritório de manhã, minha pergunta é: ‘Como vamos deixar o bairro mais completo? O que falta trazer para cá?’.” Entre os próximos empreendimentos que, segundo ele, irão melhorar a vida da Vila, estão a Escola Britânica de Artes Criativas, que será inaugurada em agosto em um prédio assinado por Weinfeld e construído pela Idea!Zarvos, e o primeiro projeto de habitação social da empresa, voltado para o público de baixa renda, que será lançado em breve. Nos planos para o futuro próximo, estão ainda uma universidade e uma escola de culinária.

Nalata

Nem sempre os moradores da Vila Madalena aceitaram a ideia de que a Zarvos estava lá para melhorar o bairro. A empresa já foi criticada por acelerar a verticalização da região. “Mas, quando eles começaram a ver nossas construções, deixaram de reclamar. Porque viram que era uma proposta diferente, mais generosa com o bairro. Os prédios falam por si só.” Mas o bairro não ficou contente com o que ouviu de um deles: o Mix 422, também projetado por Weinfeld, foi visto como um agressivo paredão cinza que enfeiou a paisagem do bairro. “Prédio de grife ‘assusta’ moradores da Vila Madalena” foi o título da Folha de S.Paulo sobre o assunto. Otavio discorda: “Eu respeito as críticas. Se você tem uma proposta de vanguarda, tem que estar preparado para elas. As pessoas criticaram a pirâmide do Louvre, mas hoje ela é considerada um patrimônio de Paris. Eu tenho fé no projeto do Isay, confio na sua maturidade profissional. Nós queremos criar prédios que acolham as pessoas, que as tirem da chuva, mas que também sejam relevantes daqui a 20, 30 anos, que façam diferença na arquitetura de São Paulo”.

Essa aposta em uma arquitetura autoral não apenas se tornou um diferencial da Idea!Zarvos, como também protegeu a empresa contra a crise imobiliária que o Brasil vive. O arquiteto Luiz Felipe Carvalho, sócio de Otavio na incorporadora, garante que a empresa conseguiu se consolidar mesmo em meio à retração geral dos últimos três anos. No aluguel de prédios comerciais, por exemplo, o valor de mercado caiu entre 40% e 50%. Já os da Idea!Zarvos sofreram uma queda de apenas 10%. “Isso acontece porque nossos projetos são únicos. Não temos competidores diretos. São prédios valorizados pela indústria criativa e de novas tecnologias, que continua próspera e descobriu a Vila Madalena”, afirma Luiz Felipe. Entre as empresas desse setor que se instalaram recentemente em prédios da incorporadora, ele cita Airbnb, Spotify e Nubank. Ele credita grande parte desse sucesso à personalidade do sócio. “O Otavio tem uma inquietude muito produtiva. Ele não quer repetir fórmulas, não tem medo de se arriscar, nem de voltar atrás. Fora isso, é um cara leve, fácil no trato pessoal e que reconhece o talento das pessoas.”

Eles conseguiram firmar em pouco tempo uma marca de inovação que veio inspirar e desafiar outras empresas – Luiz Fernando Moura, diretor da Associação Brasileira de Incorporadoras Imboliários

Diretor da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz Fernando Moura elogia o trabalho da Idea!Zarvos. “Eles conseguiram firmar em pouco tempo uma marca de inovação que veio inspirar e desafiar outras empresas, que estavam fazendo mais do mesmo. Essa bandeira da relação entre o prédio e a cidade não é uma exclusividade da Idea!Zarvos, mas é uma tendência mundial que foi aplicada por eles de maneira muito inteligente na Vila Madalena”, afirma. “Isso tudo valoriza os produtos da incorporadora e faz com que ela continue desempenhando bem mesmo nesta época de crise do país. Espero que o exemplo da Idea!Zarvos estimule outras empresas a investir mais na qualidade e na modernidade de seus empreendimentos.”

DE JERI PARA A VILA

Otavio Zarvos, 49 anos, vem de uma das famílias mais ricas do Brasil, mas ele conta que começou seu negócio praticamente do zero. Seu avô, Nicolas Zarvos, era um imigrante grego que veio ao Brasil na adolescência, começou trabalhando como mascate e fez fortuna vendendo commodities como café e algodão. Seu pai, Tito Zarvos, foi dono de uma grande construtora de casas populares que levava o nome da família, onde Otavio trabalhou como estagiário, mas quebrou nos anos 80 e perdeu praticamente tudo. “Durante minha infância e adolescência, eu fui milionário. Mas comecei minha vida adulta com muito pouco.”

Otavio diz que foi um mau aluno no Santo Américo e um garoto de saúde frágil, que tinha medo de tudo, mas conseguiu se superar através do esporte. Treinou polo aquático no Pinheiros, chegou à seleção brasileira, foi campeão sul-americano. Sua experiência com o triatlo foi bem menos feliz: em sua primeira prova, em Santos, teve uma insolação, desmaiou na linha de chegada e ficou dois dias em coma. “Eu não morri por pouco”, lembra.

Na hora de escolher uma faculdade, Otavio pensou primeiro em Arquitetura, mas as expectativas familiares pesaram na opção por Administração. Na FAAP, ele diz ter encontrado um ambiente que estimulava o pensamento de humanas – tanto que Sociologia foi sua matéria preferida (“acho que foi a primeira vez na vida que gostei de uma aula”) –, sem descuidar do de exatas (“eu tinha um bloqueio absurdo nessa área, mas até matemática eu comecei a entender”). “No trabalho, eu me considero mais um criador do que um administrador. E acredito que a faculdade soube equilibrar esses dois lados.” Segundo Otavio, a FAAP lhe deu também autoconfiança para exercer, pela primeira vez fora do ambiente esportivo, o papel de líder. “Eu havia superado dois grandes desafios: a falência do meu pai e o coma no triatlo. Acho que isso me deu maturidade para exercer uma certa liderança entre meus colegas. Eu passei a organizar os trabalhos em grupo e vi que tinha facilidade para lidar com as pessoas. Eu era distraído no colégio, ali comecei a ser mais focado.”

No trabalho, eu me considero mais um criador do que um administrador. E acredito que a FAAP soube equilibrar esses dois lados – Otavio Zarvos

Hoje diretor do Colégio FAAP, Henrique Vailati Neto foi o professor de Sociologia – e também de Ciência Política – de Otavio e se lembra de um aluno “participativo, irrequieto, com ar juvenil, sempre sorridente”. O professor Henrique diz que ele chegou no curso de Administração em um momento de ebulição e de um salto de qualidade, com um novo currículo que privilegiava a criatividade. Para ele, o resultado foi uma geração de alunos que decidiram trilhar caminhos menos ortodoxos, apostar no empreendedorismo e não seguir os passos dos pais – como Otavio.

Tito tentou que Otavio assumisse sua empresa. O filho disse não, mas acabou indo parar no
mercado imobiliário. Antes de falir, o pai lhe deu dois pequenos apartamentos em um conjunto habitacional. Otavio decidiu morar em um, vendeu o outro e iniciou sociedade em uma construtora com o irmão mais novo, engenheiro. Seu primeiro prédio foi justamente na Vila Madalena, que Otavio não frequentava. “Eu sou do esporte, de dormir cedo. Não fumo, não bebo, não vou a barzinhos. Um dia eu ia a outro lugar, me perdi e dei de cara com um terreno na rua Rodésia que tinha potencial. Virou um prédio de lofts, muito bacana”, conta. Mas, aos poucos, a construtora se especializou em projetos mais comuns, sobretudo condomínios de casas no Morumbi, para atender as demandas do mercado. “Uma hora eu me cansei de fazer condomínio estilo francesinho, estilo italianinho, estilo inglesinho. Eu queria fazer coisas mais ousadas.”

Nalata

Otavio era frequentador de Jericoacara, praia do litoral do Ceará onde fazia windsurf e também onde conheceu sua mulher, a estilista argentina Magdalena Mihura Zarvos. Ele pegou o dinheiro da lua de mel, comprou um terreno em Jeri e decidiu criar lá uma pousada com sua cara. Otavio e Magdalena conceberam todos os detalhes da Vila Kalango, do projeto arquitetônico à roupa dos funcionários, e em pouco tempo ela foi considerada a melhor pousada de praia do Brasil pelo TripAdvisor. “Foi essa experiência que me deu confiança para fazer as coisas do meu jeito na Idea!Zarvos.”

Depois de desfazer a sociedade com o irmão, Otavio passou adiante a Vila Kalango para montar uma empresa do seu jeito – e até hoje ele agradece o apoio da esposa tanto na hora de comprar quanto na de vender a pousada. “Até hoje eu brinco dizendo que ele ainda me deve uma lua de mel. E que a gente trocou um pedaço do paraíso no Ceará por uma favelinha da Vila Madalena, onde ele construiu o primeiro prédio da Idea!Zarvos”, diz Magdalena. “Mas eu só compro as loucuras do Otavio porque acredito no que ele faz. É um cara sensível, tranquilo, que escuta, que pondera. Ele sempre dá um jeito de as coisas funcionarem, não só no trabalho, como na vida pessoal.” O casal tem três filhas, de 3, 9 e 14 anos.

Otavio diz que não tem planos grandiosos para o futuro da empresa. “Não sou workaholic e não quero crescer demais. Gosto de ter tempo para fazer esporte, para viajar e ficar com as minhas filhas. Eu não quero que elas continuem meu negócio, quero que façam seu próprio caminho”, diz. “Hoje eu tenho a clareza de que a coisa mais importante de um negócio é melhorar a vida das pessoas, do meu bairro, da minha cidade. Se você conseguir fazer isso vendendo por mais do que custou, vai acabar dando certo.”