Nada mexeu mais com o sistema financeiro nos últimos anos do que as fintechs, startups que hoje concorrem com bancos e corretoras na oferta de produtos e transformam a forma como nos relacionamos com o dinheiro

“Preciso ir ao banco.” “Preciso falar com meu gerente.” Frases como essas, que já foram recorrentes e triviais, repetidas exaustivamente na vida adulta, hoje podem causar espanto em quem ouve. Quem demonstra surpresa, quase sempre vai ter uma indicação de bate-pronto: “Por que você não migra para a ______? Não tem taxa e ______”. Não importa quem seja você neste diálogo, não será difícil preencher as lacunas acima com uma das fintechs, iniciativas que ganham cada vez mais escala, como NuBank, Neon, Trigg, entre outras. “Um em cada quatro empreendedores que pensam em criar um startup, pensam em uma fintech. É o principal mercado em inovação”, diz o ex-aluno de Administração da FAAP Gustavo Araújo, 38, um dos sócios do Distrito Fintech, hub de empreendedorismo que promove conexões entre diferentes iniciativas e atua na captação de investimentos.

Hoje, segundo dados do Radar Fintechlab, o Brasil tem mais de 600 startups financeiras, um crescimento de 30% em relação a 2018. Essas iniciativas atraem investidores, baseando suas operações em inteligência artificial e oferecendo, com mais eficiência, serviços antes exclusivos dos bancos – sistemas de pagamento, investimentos, seguros, operações de câmbio, crédito –, e outros mais específicos do mundo tecnológico, como criptomoedas e blockchain.

Ensinar a gastar

Mais do que revolucionar o sistema financeiro, as fintechs têm potencial para transformar bastante a relação que as pessoas têm com o dinheiro. Surgiu dessa percepção uma das fintechs de destaque do Brasil: o Guiabolso. Thiago Alvarez, 39, lançou o app de organização financeira em 2014; dois anos antes, quando começou a desenhar o projeto, o termo fintech ainda não havia sido popularizado. Alvarez tinha saído da consultoria McKinsey & Company, onde atuava no setor de serviços financeiros ao consumidor, e seu sócio, Benjamin Gleason, estava à frente do Groupon, no auge das compras coletivas. Decididos a empreender, os dois olharam para o próprio histórico para definir em qual área. “Partimos de uma vontade de ter um impacto social grande”, lembra Alvarez, que já havia dirigido o programa Alfabetização Solidária no Centro Ruth Cardoso. “Queríamos entender como unir esse impacto a serviços financeiros e ao setor digital. Observamos que tinha muita gente on-line comprando, mas pouca gente lidando com finanças. Entendemos que esse talvez fosse ser um segundo fenômeno. Logo vão começar a se preocupar com isso”, conta, sobre como decidiram investir em gestão financeira. Desenvolveram, então, um sistema de inteligência artificial que sincroniza os dados bancários do usuário – agregando todas as contas que a pessoa possuir –, auxiliando-o em suas decisões diárias, seja ao escolher o posto de gasolina mais barato da região, seja com uma curadoria de produtos financeiros a partir das informações econômicas do cliente. O app foi lançado com uma meta de 15 mil usuários e terminou o ano com 250 mil; hoje, contam com uma base de mais de 5 milhões de clientes.

O mesmo caminho atraiu Lucas Moraes, 29, ex-aluno de administração da FAAP, que criou, em 2015, nos EUA, a fintech Olivia, em testes no Brasil. O app é um assistente financeiro que aplica inteligência artificial e economia comportamental a finanças pessoais,
para ajudar as pessoas na otimização dos gastos. “A Olivia foi pensada para ajudar as pessoas a fazerem mais com o dinheiro delas. Historicamente, o ser humano não é muito bom em pensar no longo prazo. É muito mais imediatista”, diz Moraes, lembrando que o
dinheiro está no topo das causas de estresse.

Marcela Miranda, fundadora e head da Trigg, que oferece cartões de crédito que funcionam em sistema de cashback, devolvendo parte do dinheiro gasto nas compras

Educar financeiramente passa por saber onde se gasta, mas também tem ligação com o hábito de planejar e criar objetivos. Este foi o modelo escolhido por Tito Gusmão, 39, que deixou a sociedade na XP Investimentos para criar a Warren, uma corretora que se propõe a entregar a pessoas com pouca capacidade de investimento produtos normalmente disponíveis a pessoas com muito capital. “Investir é que nem ir a um restaurante chinês com o cardápio em chinês: uma sopa de letrinhas”, diz. “E as plataformas não ajudam. Nossa ideia é que a tomada de decisão não seja sobre qual produto você vai comprar, mas, sim, sobre o porquê você quer investir. Para comprar uma casa na praia? Se aposentar? Fazer um mochilão? Ir para a Copa do Qatar? A inteligência artificial vai escolher o produto ideal a partir disso”, explica, destacando a ausência do intermediário comissionado entre o investidor e o produto, como uma forma de democratizar o acesso. “Você senta com o gerente do banco e pergunta onde investir. Mas ele não está alinhado com você, está com a instituição. Ele ganha em cima do que te vende, então, vai vender o que paga a maior comissão”, diz. “A gente não ganha comissão, funcionamos como uma casa de wealth management, que cobra um fee para gerir seu patrimônio, mas, em todos os produtos, devolve 100% da comissão. É alinhado com o cliente.”

Gusmão explica que esse modelo era inacessível a pessoas com pouco capital, e que mudar isso era um dos seus objetivos. “Os super-ricos investem assim, mas, para entrar numa casa desse tipo e marcar um café, você precisa ter milhões de reais. O que a gente faz é entregar este modelo, com uma tecnologia amigável, para todo mundo. Temos pessoas com R$ 2 milhões e outras com R$ 100, acessando os melhores produtos do mercado”, diz, sobre o perfil variado dos cerca de 100 mil clientes que tem na Warren, em um ano de trabalho. Marcela Miranda, 42, fundadora e head da Trigg, também atua focada em tornar amigável o acesso do cliente a produtos financeiros. A Trigg chegou ao mercado em 2017 oferecendo cartões de crédito que funcionam em sistema de cashback, devolvendo uma parte do dinheiro gasto. “Temos clientes que recebem cerca de R$30 por mês em devolução. Paga mais do que muitas aplicações”, diz.

Marcela, pós-graduada em Marketing e Serviços pela FAAP, explica que criar uma relação diferente passa também por iniciativas
de marketing, como os cartões estampados com personagens dos quadrinhos – o mais recente, do Coringa, foi lançado junto com o filme do vilão. Ela entende que as gerações mais jovens não criam mais ligações definitivas com marcas. “Eles testam, usam e, num piscar de olhos, podem mudar para outra”, diz. “Meu desafio principal não é ter um produto incrível. Levanto da cama e me pergunto: ‘O que vou fazer para meu cliente ficar feliz só por hoje’.” Dentro dessa lógica, participaram recentemente da Comic Con, onde eram uma das únicas, entre 130 marcas, fora do setor de entretenimento cultural. Ainda assim, estavam entre as dez mais lembradas ao final do evento. “Preciso me conectar com as paixões, seja um herói, um filme, uma música.”

Thiago Alvarez, cofundador do GuiaBolso, uma das fintechs de mais destaque no país, que ajuda na organização financeira do usuário

Entre as fintechs, há as que, para além de oferecer serviços, trabalham para otimizar os oferecidos por instituições financeiras, sejam elas tradicionais ou fintechs. É o caso da Spin Pay, um sistema de pagamento instantâneos, atualmente em fase de testes. A startup fundada por Alan Chusid, 28, também cofundador da Neon, usa criptografia e blockchain para transferir de forma imediata para a conta do varejista o dinheiro do cliente,que pode escolher de onde vem o recurso: da conta no banco, da digital wallet ou de qualquer outra fonte conectada na plataforma da Spin Pay. “Queremos criar a melhor experiência de compra. Conectar os varejistas com as instituições e criar uma experiência legal para o consumidor”, diz Chusid, lembrando que o Banco Central promete para o fim de 2020 a regulação e a infraestrutura do serviço de pagamentos instantâneos, criando um ambiente ainda mais propício à inovação.

Quem pode, pode

O fenômeno das fintechs faz pensar sobre a dinâmica de forças do sistema financeiro e alguns podem vir inclusive de fora dele. Roberto Marinho, fundador do Conta Zap (leia mais no box da pág. 58), aposta no potencial das gigantes de tecnologia. “Em pouco tempo, o maior banco do mundo deve ser uma empresa como o Google ou o Facebook.”

A opinião de Marinho encontra amparo nos movimentos institucionais do país. “O Banco Central aprovou recentemente que outras empresas pudessem fazer serviços que antes só bancos podiam, e agora você tem varejistas abrindo instituições de pagamento, além das fintechs. O banco concorria apenas com outros bancos e hoje compete com uma série de outras iniciativas. Este é o cenário para os próximos anos”, conclui Araújo, do Distrito Fintech.